UOL Notícias Internacional
 

08/02/2006

Quatro presidentes dos Estados Unidos comparecem ao funeral de Coretta Scott King

The New York Times
Por Maria Newman

Em Atlanta, Geórgia
Quatro presidentes, um sem-número de outros dignitários e milhares de pessoas comuns estiver presentes nesta terça-feira (7/2) para prestar uma última homenagem a Coretta Scott King, que havia se transformado, por meio da sua própria atuação, de uma jovem viúva (do pastor Martin Luther King, 1929-1968) numa graciosa líder do movimento pelos direitos civis.

Ozier Muhammad/The New York Times 
Da esquerda para direita: o presidente George W. Bush; a primeira-dama Laura Bush; Bill Clinton; a senadora Hillary Rodham Clinton; os ex-presidentes Bush; Jimmy Carter e sua mulher, Rosalynn Carter, e o senador Edward Kennedy

Na véspera, quando Coretta King estava sendo enterrada na Geórgia, o presidente Bush a descreveu num discurso como "uma das americanas as mais admiradas do nosso tempo".

"A sua viagem foi extensa, e ela teve uma pessoa em quem se apoiar apenas por um tempo muito breve", comentou o presidente a respeito de Coretta King, que se tornou viúva aos 40, quando o reverendo Martin Luther King Jr. foi assassinado, em 1968. "Após ter amado um líder, ela mesma se tornou uma líder".

Por meio das suas intervenções, que incluíam canções, poemas e a cadência da grande oratória que ela praticava do púlpito, dentro da tradição consagrada pelo próprio pastor Luther King, Coretta foi elogiada por ter dado continuidade à luta do seu marido, em vez de se deixar levar pelo rancor e o medo.

A cavernosa Igreja Batista Missionária do Novo Nascimento, num subúrbio de Atlanta, em Lithonia, estava completamente lotado para o serviço fúnebre de Coretta King, que morreu em 30 de janeiro, aos 78 anos.

Durante a missa, alguns parentes e amigos deram depoimentos. Algumas das suas recordações trataram do papel que ela desempenhou junto a Martin Luther, e dos perigos que isso representou com freqüência para ela e os seus quatro filhos.

Outros relataram lembranças mais pessoais, tais como quando a poetisa Maya Angelou relatou de que maneira as duas mulheres jocosamente se chamavam uma à outra de "menina", disse, "mesmo quando nós estávamos bem avançadas na nossa setentena".

Outros falaram a respeito do elogiado papel que os King desempenharam no sentido de contribuir para mudar esta nação e fazer com que ela passasse de uma sociedade dominada pela segregação racial para outra bem diferente, e isso cinqüenta anos atrás apenas.

O senador Edward Kennedy, democrata do Massachusetts, relembrou os dias em que o pastor King foi ameaçado com uma sentença de quatro meses de trabalho forçado por ter cometido uma "infração sem importância ao código do trânsito", e como o irmão do senador, Robert Kennedy, então procurador-geral dos Estados Unidos, ofereceu sua ajuda à esposa do pastor.

"Lembro-me do meu irmão ligando para ela e dizendo-lhe que ele faria o que fosse necessário para resolver a questão", disse Edward Kennedy, o que motivou a multidão a aplaudir de pé. "Então, Robert chamou o juiz. Robert chamou o juiz que, felizmente, percebeu o erro que estava sendo cometido, e Martin foi liberado".

Ele também falou dos esforços de Coretta King para fazer do dia do aniversário do seu marido um feriado nacional.

"Apenas três americanos ao longo da nossa história foram contemplados com tão grande honra, George Washington, Abraham Lincoln e Martin Luther King, e isso aconteceu graças a Coretta", disse.

Os maiores aplausos durante o serviço fúnebre foram reservados para o ex-presidente Bill Clinton e a senadora Hillary Clinton, que ficou ao lado do seu marido enquanto ambos faziam seus comentários sobre Coretta King, que eles chamaram de "uma amiga".

Bill Clinton disse que depois do assassinato de Martin Luther King, a maior parte das pessoas teria perdoado Coretta caso ela não quisesse prosseguir a sua luta. Mas, em vez disso, acrescentou Clinton, ela contou ter se perguntado: "O que vou fazer durante o resto da minha vida?"

Ele disse que ela optou por continuar sua luta por soluções não-violentas e por maior justiça, e que a sua morte deveria incentivar muitas pessoas a se perguntarem: "O que nós vamos fazer durante o resto da nossa vida?"

Em certos casos, os depoimentos se transformaram em comentários políticos, que pareceram em vários casos ser dirigidos ao presidente Bush e à guerra no Iraque, assim como a algumas das suas políticas internas.

A prefeita de Atlanta, Shirley Franklin, afirmou que Coretta King havia se manifestado não só contra o racismo como também a respeito "da falta de sentido da guerra e das soluções que precisavam ser encontradas para enfrentar a pobreza".

O ex-presidente Jimmy Carter falou sobre a luta não-violenta por justiça que o casal King tentou promover, numa referência velada à guerra no Iraque. "Eles venceram um dos maiores desafios de uma vida, a saber, ser capaz de travar um combate feroz pela liberdade e a justiça e fazê-lo de maneira plenamente pacífica", disse.

Ele também comentou que o pastor Luther King havia sido alvo de escutas telefônicas por parte do F.B.I. (Central Federal de Investigações), numa referência que lembra a decisão controversa da administração Bush de não recorrer a autorizações para praticar espionagem em relação a certas comunicações eletrônicas, no quadro da luta contra a Al Qaeda.

"Foi realmente muito difícil para eles em termos pessoais, uma vez que as liberdades civis de ambos, marido e mulher, foram violadas, e que eles se tornaram alvos de escutas secretas a pedido do governo, assim como de outros tipos de vigilância", disse Jimmy Carter, um democrata, a respeito do casal King.

O ex-presidente também afirmou que se porventura alguém acreditar que a luta pelos direitos civis estava terminada, "basta relembrar a cor dos rostos daqueles, na Louisiana, no Alabama e no Mississippi que mais sofreram com as devastações causadas pelo furacão Katrina para ter a certeza de que ainda não existem oportunidades iguais para todos os americanos".

O reverendo pastor Joseph Lowery, que co-fundou a Conferência das Lideranças Cristãs do Sul junto com o pastor Luther King, foi até mais enfático nos seus comentários, os quais ele havia redigido em versos.

"Ela repercutiu a mensagem de Martin contra a pobreza, o racismo e a guerra", disse. "Ela deplorou o terror infligido por nossas bombas inteligentes em missões distantes".

"Nós sabemos agora que não havia nenhuma arma de destruição em massa naquele lugar", disse. "Mas Coretta sabia e nós também sabíamos e sabemos que existem armas de má orientação aqui mesmo".

"Milhões de pessoas sem nenhum seguro de saúde. A pobreza predomina. Para a guerra, bilhões, mas nenhum centavo a mais para os pobres", concluiu.

Na segunda-feira, Coretta King foi enterrada na Igreja Batista Ebenezer em Atlanta, o coração espiritual do movimento em prol dos direitos civis onde o seu marido e o pai do seu marido haviam pregado.

Nesta terça-feira, ela foi objeto de panegíricos na Igreja do Novo Nascimento, uma outra base importante do movimento dos direitos civis. A igreja, situada no centro de um enclave rico de uma próspera população de afro-americanos, é dirigida pelo bispo Eddie Long, um dos ministros afro-americanos que estabeleceram recentemente um relacionamento com a equipe do presidente Bush, no momento em que os republicanos tentam ir ao encontro dos eleitores negros, desenvolvendo contatos com igrejas evangélicas negras.

É também a igreja onde a filha de Coretta King, Bernice, atua como pregadora.

Bernice King, que pronunciou um dos panegíricos durante o serviço, é familiar para muitos, ao menos em fotografias: é ela que, aos 5 anos de idade, estava no colo da sua mãe, envolta num pano de algodão preto, durante o funeral do seu pai. Durante o serviço fúnebre, nesta terça, Bill e Hillary Clinton, Jimmy Carter e o senador Edward Kennedy, entre outros, que a conheciam pessoalmente, deram depoimentos emocionados em memória à viúva de Martin Luther King Jean-Yves de Neufville

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,13
    3,270
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,51
    63.760,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host