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09/02/2006

Governo Bush atrasa a entrega de trailers para as famílias vítimas do furacão Katrina

The New York Times
Jennifer Steinhauer, de Slidell, Louisiana, e

Eric Lipton, de Washington
Quase seis meses após dois furacões terem destroçado comunidades da Costa do Golfo, dezenas de milhares de moradores da região continuam sem os trailers prometidos pelo governo federal, que seriam usados como abrigos temporários enquanto durasse o processo de reconstrução das casas destruídas.

Dos 135 mil pedidos de trailers recebidos pela Agência Federal de Gerenciamento de Emergência (Fema, na sigla em inglês) pelas famílias flageladas, pouco mais da metade foi atendida. Os atrasos deixaram famílias inteiras encalhadas em casas de parentes ou precariamente instaladas fora dos seus Estados, levaram as economias locais à estagnação e enfureceram as autoridades regionais, que criticam a forma como o programa foi administrado.

Além do mais, funcionários e moradores reclamam de problemas relativos à qualidade dos trailers até o momento recebidos, que deixam a desejar no que diz respeito às instalações sanitárias e elétricas.

"O problema dos trailers é uma tragédia humana individual", critica Reinhard J. Dearing, secretário de Administração de Slidell, cidade próxima a Nova Orleans. Vários funcionários da cidade --incluindo policiais-- ainda estão sem trailers, ou só os receberam nesta semana, e estão dormindo nas casas de amigos, vizinhos, e, em pelo menos um caso, sob a mesa de trabalho em um escritório do governo.

Na última segunda-feira, frustrados com a demora, quatro membros do Conselho da Comunidade de Saint Bernard executaram aquilo que chamaram de um ato simbólico, retirando três trailers de um depósito local que contém cerca de 275 trailers, e entregando-os a moradores da região.

"Se isto ocorresse em outro setor de negócios, já teria sido encontrado um outro fornecedor", afirma o vereador Mark Madary, que representa uma comunidade na qual 6,000 famílias aguardam por trailers, enquanto apenas cerca de 2.000 já receberam os seus.

Os problemas para se administrar o programa de trailers, no valor de US$ 4 bilhões, é similar àqueles relativos às grandes iniciativas para reconstrução adotadas desde que os furacões destroçaram a região, e parecem ser o resultado de fracassos em todos os níveis de governo.

Autoridades locais, empreiteiros e moradores reclamam de que parte dos atrasos parece ser causada pelo planejamento sofrível do governo federal, e ainda pelas múltiplas e frustrantes camadas compostas de sub-empreiteiras e burocratas. Por exemplo, os trailers são freqüentemente enviados a duas diferentes áreas de depósito antes de serem distribuídos, e ficam nestes locais acumulando poeira enquanto as famílias aguardam.

"É muito desalentador ver pessoas morando em casas repletas de goteiras", desabafa James M. McGehee, prefeito de Bogalusa, uma pequena cidade da Louisiana, próxima à fronteira com o Mississipi. McGehee diz que do outro lado da fronteira estadual há "alqueires e alqueires" de áreas de depósito repletas de trailers.

A Fema, por sua vez, criticou os governo locais por rejeitarem áreas de trailers em certos bairros, e por se engajarem em infindáveis negociações sobre os locais para onde os trailers deveriam ser enviados. Funcionários da agência também disseram que empresas privadas, incluindo as fornecedoras de energia elétrica, contribuíram para o problema ao demorarem a fornecer os seus serviços para a instalação dos trailers.

"Todos os tipos de problemas, como as comunidades que não aceitam os trailers de forma alguma, as regras e determinações locais que não temos autoridade para contornar, ou o atraso na ligação dos trailers à rede de energia elétrica, contribuíram para o problema, ao atrasarem o fornecimento dos serviços aos trailers".

Segundo Andrew, a Fema possui 17.500 trailers em áreas de depósito, prontos para serem entregues, incluindo cerca de 10 mil em Hope, Arkansas, mas a agência está aguardando que as autoridades da Louisiana decidam onde colocar esses trailers.

Autoridades federais e locais dizem que a amplitude desse desastre tornou todas as tarefas hercúleas.

"Não vou ficar me desculpando, mas este foi um acontecimento sem precedentes, e jamais, no decorrer da sua história, a Fema teve que abrigar tanta gente", disse R. David Paulison, diretor em exercício da instituição, durante uma entrevista coletiva à imprensa em Washington, na semana passada. "Portanto, houve vários problemas no percurso".

O problema dos trailers é mais acentuado na Louisiana, onde 60% dos 90 mil pedidos por casas pré-fabricadas ainda não foram atendidos. Dos 21 mil pedidos feitos apenas na comunidade de Orleans, somente cerca de 3,000 foram atendidos.

A título de comparação, no Mississipi, as autoridades federais dizem que dos cerca de 40 mil pedidos dessa natureza, 34.560 foram atendidos. Os funcionários da Fema na Louisiana dizem que no ritmo que o projeto vem se desenrolando --com a instalação de cerca de 500 unidades por dia--, é provável que demore ainda 100 dias para que se chegue perto de atingir a meta.

Os moradores que desejam reconstruir as suas casas estão impacientes. Aqui em Slidell, onde mais da metade das 10 mil residências está inabitável, Daryl Cleworth caminhava sobre os destroços da sua casa na tarde da última segunda-feira, manuseando algumas ferramentas que, comparadas à tarefa que há pela frente, pareciam brinquedos. Ele questiona quando as dezenas de telefonemas que fez à Fema resultariam no recebimento de um trailer.

"Aceitaremos qualquer coisa", disse Cleworth, que está morando com a mulher e o bebê em Nova Orleans, enquanto os seus três filhos mais velhos ficam com a avó, no Colorado. "Só queremos algo dentro do qual possamos dormir".

Nas semanas que se seguiram à destruição provocada pelo furacão Katrina na Costa do Golfo, a Fema firmou contratos para a aquisição de trailers de viagem e casas móveis, no valor de US$ 2,5 bilhões, de fabricantes e vendedores de todo o país, naquela que foi a maior encomenda da história neste setor. A agência também negociou contratos sem licitação, no valor de centenas de milhões de dólares, com cinco companhias que designou para instalarem as casas pré-fabricadas no Alabama, no Mississipi e na Louisiana.

Com todos os fatores nos seus devidos lugares, os funcionários da Fema previram em setembro que em breve seriam capazes de instalar até 30 mil unidades residenciais a cada duas semanas, uma meta da qual a agência não chegou nem perto.

Mas o trabalho realizado até o momento já é maior do que qualquer iniciativa anterior da Fema no sentido de instalar casas pré-fabricadas. O recorde anterior foi em 2004, após os quatro furacões que atingiram a Flórida, quando cerca de 15 mil unidades foram instaladas. Mas a realidade da tarefa na Costa do Golfo se revelou bem mais complicada do que esperavam os funcionários da Fema.

Desde o início, a meta, especialmente na Louisiana, foi encontrar áreas desimpedidas, que ficaram conhecidas como "Femavilles", nas quais os desabrigados pudessem se instalar. Isso foi um fator crucial, já que uma grande parcela dos desabrigados da Louisiana era composta por locadores de imóveis, o que significa que eles não possuíam terrenos próprios nos quais a Fema pudesse instalar um trailer. E mesmo se tivessem terrenos, grandes áreas de Nova Orleans ainda eram consideradas inabitáveis.

Os empreiteiros enviaram equipes exploratórias para identificar possíveis áreas para a instalação dessas comunidades de trailers, retornando rapidamente com uma longa lista de opções. Mas, assim que começaram a negociar as permissões exigidas para a instalação das unidades, as autoridades e os proprietários de terras locais, um após o outro, passaram a negar a autorização para tais projetos.

"Há mensagem deles foi muito clara: não no meu quintal", conta Mark Misczak, que supervisiona a operação de moradias temporárias da Fema na Louisiana.

Ronnie Hughes, presidente do distrito de Ascension, ao sul de Baton Rouge, onde as autoridades pensaram em construir uma área para a instalação de trailers, diz que as autoridades locais vetaram o projeto.

"Antes dos furacões, éramos a comunidade de mais rápido crescimento na Louisiana", explica Hughes. "Não contamos com a infraestrutura para sustentar essas cidades".

Até o momento, menos de 5,000 das 36.675 unidades de casas pré-fabricadas instaladas na Louisiana estão em áreas comunitárias.

Carl Goss, sub-empreiteiro contratado para instalar os trailers da Fema, diz que poderia instalar seis trailers por dia, mas que muitas vezes instala apenas dois, já que, em 65% dos casos, a documentação está errada. Os documentos às vezes solicitam uma unidade que não cabe no lote, explica Goss, ou contém informações básicas incorretas sobre as famílias. "Estou realmente aborrecido por não poder ajudar as pessoas", afirma.

As autoridades eleitas dizem ter entendido que a tarefa é complicada. Mas acrescentam que a Fema dá muitas desculpas.

"Se você quiser um exemplo clássico de como cometer todos os erros humanamente possíveis e, depois, acrescentar mais erros aos já cometidos, basta analisar o programa de trailers", diz o deputado Gene Taylor, democrata do Mississipi, um crítico ferrenho do programa, que perdeu a sua casa em Bay Saint Louis, durante o furacão Katrina.

Com os custos cumulativos de construção, instalação e manutenção de cada uma dessas unidades chegando a US$ 70 mil ou mais, e o projeto se arrastando por meses, a governadora Kathleen Babineaux Blanco, da Louisiana, entre outros, diz não entender porque a Fema começou o seu trabalho dando tanta ênfase às casas pré-fabricadas.

"É mais rápido consertar as unidades habitacionais que desmoronaram", disse ela a um comitê do Senado na semana passada. De fato, a Fema está no momento renovando um complexo de apartamentos em Nova Orleans, algo que Andrews, a porta-voz da agência, diz ser um reconhecimento da incapacidade de se conseguir um número suficiente de trailers para a cidade.

Shirley Harris, uma moradora de Slidell de 73 anos, continua morando nas ruínas da sua casa destruída pela tempestade. Harris conta que a Fema lhe disse que não pode instalar um trailer no local, porque há fios elétricos dependurados em frente à sua casa. Mas ao olhar para uma outra casa do outro lado da rua, com fios idênticos dependurados à sua frente, e dois trailers da Fema no quintal, ela não consegue entender a situação.

"Eu gostaria de desistir", diz Harris, começando a chorar. "Só queria ir embora daqui. Mas não tenho para onde ir". Apenas metade das 135 mil unidades prometidas foi entregue para famílias que ficaram sem casa e permanecem em situação precária Danilo Fonseca

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