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09/02/2006

Líderes muçulmanos planejaram reação a caricaturas em cúpula realizada em Meca

The New York Times
Hassan M. Fattah*

Em Beirute, Líbano
Durante uma reunião dos líderes dos 57 países muçulmanos do mundo em um encontro de cúpula em Meca, Arábia Saudita, em dezembro, questões como extremismo religioso dominaram a agenda oficial. Mas grande parte da conversa envolveu uma questão diferente: as charges dinamarquesas satirizando o Profeta Maomé. O comunicado de encerramento tratou da questão quando expressou "preocupação com o crescente ódio contra o Islã e os muçulmanos e condena o recente incidente de profanação da imagem do Santo Profeta Maomé na mídia de certos países" assim como "o uso da liberdade de expressão como pretexto para difamar religiões".

Jeroen Kramer/The New York Times - 5.fev.2006 
Muçulmanos fazem protesto violento contras as charges em Beirute, no Líbano

O encontro em Meca, uma cidade saudita na qual não-muçulmanos são barrados, atraiu pouca cobertura da imprensa internacional apesar de líderes como o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, estarem presentes. Mas no caminho de um ultraje discreto em uma pequena comunidade muçulmana no norte da Europa até a turbulência internacional, o encontro da Organização da Conferência Islâmica (OCI) --e o papel que seus países membros tiveram no ultraje-- foi um elemento decisivo.

Após tal reunião, a fúria em torno das charges dinamarquesas, especialmente em um nível oficial, se tornou mais pública. Em alguns países, como a Síria e o Irã, isto representou grande cobertura da imprensa na mídia oficial e o virtual apoio governamental às manifestações que terminaram com embaixadas dinamarquesas em chamas.

Já em outubro, os islamitas dinamarqueses faziam lobby junto aos embaixadores árabes e os embaixadores árabes junto aos governos árabes.

"Não era grande coisa até a conferência islâmica, quando a OCI adotou uma posição contrária", disse Muhammad El Sayed Said, vice-diretor do Centro Ahram para Estudos Políticos e Estratégicos no Cairo, Egito.

Sari Hanafi, um professor associado da Universidade Americana em Beirute, disse que, para os governos árabes ressentidos com a pressão ocidental por democracia, os protestos representaram uma oportunidade para minar o apelo do Ocidente junto aos cidadãos árabes. A liberdade promovida pelo Ocidente, eles pareceram dizer, traz consigo o desrespeito pelo Islã.

Hanafi disse que as manifestações "tiveram início como uma reação visceral -é claro que eles ficaram ofendidos- e então os regimes tiraram proveito dizendo: 'Olhe, esta é a democracia da qual eles estão falando'".

Os protestos também permitiram que os governos flanqueassem o crescente desafio dos movimentos de oposição islâmicos ao defenderem o Islã.

A princípio, a agitação ficou restrita à Dinamarca. Ahmed Akkari, um dinamarquês nascido no Líbano de 28 anos, atua como porta-voz para o Comitê Europeu para Respeito ao Profeta, um grupo formado por 27 organizações muçulmanas dinamarquesas para pressionar o governo dinamarquês a agir em relação às charges.

Akkari disse que o grupo trabalhou por mais de dois meses na Dinamarca sem obter qualquer resposta. "Nós reunimos 17 mil assinaturas e as entregamos ao gabinete do primeiro-ministro, nós vimos o ministro da Cultura, nós conversamos com o editor do 'Jyllands-Posten', nós demos muitos passos dentro da Dinamarca, mas não obtivemos nenhuma ação", disse Akkari, se referindo ao jornal que publicou as charges. Ele disse que o gabinete do primeiro-ministro nem mesmo respondeu à petição.

Frustrado, ele disse que o grupo se voltou aos embaixadores dos países muçulmanos na Dinamarca e pediu a eles que falassem com o primeiro-ministro em seu nome. Ele também não lhes deu atenção.

"Então o caso passou para um novo estágio", lembrou Akkari. "Nós decidimos que para sermos ouvidos, isto deveria partir de pessoas influentes no mundo muçulmano."

O grupo reuniu um dossiê de 43 páginas sobre o caso, incluindo as charges ofensivas e três outras imagens chocantes que foram enviadas aos muçulmanos dinamarqueses que se manifestavam contra as charges do "Jyllands-Posten".

Akkari negou que as três imagens mais ofensivas contribuíram para a reação violenta, dizendo que as imagens, recebidas pelo correio por muçulmanos que se queixaram das charges, foram incluídas para mostrar que resposta os muçulmanos obtiveram quando se manifestaram na Dinamarca.

No início de dezembro, a primeira delegação de muçulmanos dinamarqueses do grupo voou para o Cairo, onde se encontrou com o grande mufti, Muhammad Sayid Tantawy, o ministro das Relações Exteriores, Ahmed Aboul Gheit, e o chefe da Liga Árabe, Amr Moussa.

"Depois disto, houve alguma resposta", disse Akkari, acrescentando que o governo egípcio e a Liga Árabe convocaram o embaixador dinamarquês no Egito para conversar.

Akkari reconheceu que houve erros de informação ao longo do caminho.

No Cairo, por exemplo, o grupo falou em uma coletiva de imprensa sobre a proposta do Partido do Povo Dinamarquês de extrema direita de proibir o Alcorão no país, devido a cerca de 200 versos que supostamente encorajam a violência.

Vários jornais então veicularam artigos dizendo que a Dinamarca planejava publicar uma versão censurada do Alcorão. A delegação voltou para a Dinamarca, mas o dossiê continuou agitando o Oriente Médio. O ministro as Relações Exteriores do Egito levou consigo o dossiê para o encontro de cúpula em Meca, onde o mostrou aos demais. O grupo dinamarquês também enviou uma segunda delegação ao Líbano para se encontrar com líderes políticos e religiosos de lá.

Akkari esteve em tal viagem. A delegação se encontrou com o grande mufti no Líbano, Muhammad Rashid Kabbani, e com o líder espiritual dos muçulmanos xiitas do Líbano, o xeque Muhammad Hussein Fadlallah, assim como com o patriarca da Igreja Maronita, Nasrallah Sfeir. O grupo também apareceu no canal de TV por satélite "Al Manar" do Hezbollah, que é visto em todo o mundo árabe.

Akkari também viajou para Damasco, Síria, para entregar uma cópia do dossiê ao grande mufti do país, o xeque Ahmed Badr-Eddine Hassoun.

O ministro das Relações Exteriores do Líbano, Fawzi Salloukh, disse que concordou em se encontrar em meados de dezembro com o embaixador do Egito no Líbano, que lhe apresentou uma carta de seu ministro das Relações Exteriores, Aboul Gheit, lhe pedindo para que se envolvesse na questão. Anexada à carta estavam cópias de alguns dos desenhos.

No final de dezembro, o ritmo começou a acelerar à medida que as conversas sobre boicote começaram a se tornar mais proeminentes. A Organização Educacional, Científica e Cultural Islâmica, que envolve mais de 50 países, publicou em seu site uma declaração condenando "a campanha agressiva travada contra o Islã e seu Profeta" pelo "Jyllands-Posten", e os dirigentes da organização disseram que os países membros deveriam impor um boicote à Dinamarca até que um pedido de desculpas fosse oferecido pelos desenhos.

"Nós encorajamos os membros da organização a boicotar a Dinamarca tanto econômica quanto politicamente até que a Dinamarca apresente um pedido de desculpas oficial pelos desenhos que ofenderam os muçulmanos do mundo", disse Abdulaziz Othman Al-Twaijri, o secretário-geral da organização.

Em poucas semanas, o Parlamento jordaniano condenou duramente as charges, assim como vários outros governos árabes.

Em 10 de janeiro, enquanto crescia a pressão anti-Dinamarca, um jornal norueguês republicou as charges em um ato de solidariedade com os dinamarqueses, levando muitos muçulmanos a acreditarem que uma verdadeira campanha contra eles tinha começado.

Em 26 de janeiro, em um medida chave, a Arábia Saudita retirou seu embaixador da Dinamarca, e a Líbia fez o mesmo. Os clérigos sauditas começaram e pedir por boicote e em um dia a maioria dos produtos dinamarqueses foi retirado das prateleiras dos supermercados.

"Os sauditas fizeram isto porque precisam marcar pontos frente aos fundamentalistas islâmicos", disse Said, o cientista político do Cairo. A questão das charges surge em um momento crítico no mundo muçulmano devido à revolta muçulmana com a ocupação do Iraque e o sentimento de que os muçulmanos estão sitiados. Os fortes resultados eleitorais dos islamitas no Egito e a vitória do Hamas nos territórios palestinos deram novo impulso aos movimentos islâmicos na região, e muitas economias, especialmente as do Golfo Pérsico, perceberam seu poder econômico frente à Dinamarca.

"As charges foram um pavio que acendeu uma grande fogueira", disse Rami Khouri, editor do jornal "Daily Star" de língua inglesa de Beirute. "É este senso cada vez mais profundo de vulnerabilidade combinado com um senso de que os islamitas estavam em uma maré de sucessos que fez com que acontecesse."

A onda carregou muitos na região. O xeque Muhammed Abu Zaid, um imã da cidade libanesa de Saida, disse que começou a ouvir sobre as caricaturas por vários amigos palestinos que vieram da Dinamarca em dezembro, mas que não tinha dado muita atenção.

"Para mim, honestamente, isto não parecia tão importante", disse Abu Zaid, comparando os desenhos aos que são feitos de Jesus Cristo nos países cristãos.

"Eu pensei, eu sei que isto é algo típico em tais países", ele lembrou.

Então, ele começou a ouvir que os embaixadores dos países árabes tinham tentado se encontrar com o primeiro-ministro da Dinamarca e que foram esnobados, e foi quando a começou a mudar de opinião.

"Começou a parecer que tal modo de pensar era um insulto para nós", ele disse. "Tudo bem dizer: 'Esta é nossa liberdade, esta é nossa forma de pensar'. Mas nós começamos a pensar que a liberdade deles era algo que nos feria."

Na semana passada, Abu Zaid ouviu sobre uma marcha planejada até o consulado dinamarquês em Beirute e decidiu participar. Ele e 600 outros embarcaram em ônibus rumo a Beirute. Ao chegarem, uma hora depois, alguns dos manifestantes -nenhum dos que o acompanhavam, ele insistiu- se tornaram violentos e começaram a atacar o prédio que abriga a embaixada. Tinham se passado dois dias desde que um ataque semelhante ocorreu contra as embaixadas da Dinamarca e da Noruega em Damasco, Síria.

"Na manifestação, eu acredito que 99% das pessoas eram boas e pacíficas, mas eu podia ouvir pessoas dizendo: 'Nós não queremos uma manifestação pacífica; nós queremos queimar'", disse o xeque.

Ele tentou em vão acalmar as pessoas, ele disse. "Eu pedia às pessoas: 'Por favor, por favor, nos sigam e voltem'", ele disse. "Nós esperávamos acalmar as pessoas e esperávamos poder ajudar as pessoas pacíficas que foram pegas no meio da luta."

*Craig S. Smith, em Paris; Katherine Zoepf, em Beirute, Líbano; Suha Maayeh, em Amã, Jordânia; Abeer Allam, no Cairo, Egito; e Massoud A. Derhally, em Dubai, Emirados Árabes Unidos, contribuíram com reportagem. Religiosos europeus recorreram a autoridades do Oriente Médio George El Khouri Andolfato

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