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11/02/2006

Déficit comercial dos EUA atinge US$ 726 bilhões

The New York Times
Vikas Bajaj

Em Nova York
O déficit comercial americano cresceu para um recorde de US$ 726 bilhões em 2005, informou o governo nesta sexta-feira (10/02), colocando mais lenha no crescente debate partidário entre os defensores de uma maior globalização e aqueles que argumentam que o livre comércio está causando a perda de muitos emprego americanos no setor manufatureiro.

O quarto recorde anual consecutivo, a enorme diferença entre as exportações e importações atingiu quase o dobro do nível de 2001. Ela foi provocada pela forte demanda dos consumidores de bens estrangeiros e pela alta nos preços de energia, que acrescentaram dezenas de bilhões de dólares à conta do país de petróleo importado. A última vez em que o país teve um superávit comercial, de US$ 12,4 bilhões, foi em 1975.

O contínuo crescimento do déficit comercial, particularmente com a China, provavelmente renovará a briga no Congresso já no início da primavera em torno das políticas de comércio do presidente Bush. Os legisladores pegaram o crescente desequilíbrio com a China para exigir da Casa Branca uma linha mais dura em relação às práticas cambiais de Pequim.

Mas enquanto a economia americana estiver crescendo em uma taxa mais rápida do que a da maioria de seus parceiros comerciais e os preços de energia permanecerem em patamares elevados, os economistas esperam pouca melhoria e talvez até um ligeiro crescimento do desequilíbrio comercial do país para este ano.

"Seria necessária uma desaceleração drástica no consumo doméstico americano para reduzir o déficit comercial americano, o que achamos ser improvável", disse Dean Maki, economista chefe para Estados Unidos da Barclays Capital, em Nova York.

Isto significa que o país afundará ainda mais na dívida com o restante do mundo enquanto os americanos continuarem contando com o forte afluxo de capital estrangeiro, particularmente dos bancos centrais da Ásia, para financiar o déficit comercial. China, Japão e outros governos estrangeiros são alguns dos principais detentores de títulos do governo, emprestando dinheiro para cobrir o substancial déficit orçamentário federal e ajudando a manter as taxas de juros e as hipotecas residenciais americanas relativamente baixas.

Em conseqüência, os consumidores americanos podem gastar mais e poupar menos.

Muitos economistas dizem que esta situação é insustentável a longo prazo, argumentando que os Estados Unidos poderão no final enfrentar uma severa correção que deprimirá os gastos, aumentará o custo dos empréstimos e desvalorizará profundamente o dólar.

"Certamente haverá um afluxo, mas a questão é a que preço?" disse James O'Sullivan, um economista da investidora UBS. "A medida que o tempo passar, ficará cada vez mais difícil atrair fundos estrangeiros. Esta é outra forma de dizer que o dólar cairá."

Mas outros economistas argumentam que o enorme déficit comercial reflete em grande parte o crescimento mais forte dos Estados Unidos e que dinheiro está entrando no país a taxas relativamente baixas, devido a atração dos Estados Unidos como local para investimento. Eles vêem pouco motivo para temer uma crise do dólar.

"Enquanto os estrangeiros estiverem dispostos a colocar seu capital nos Estados Unidos, nós poderemos suportar um déficit comercial de 6% ou mais" na atividade econômica geral, disse Phillip L. Swagel, um estudioso do conservador Instituto Empresarial Americano, em Washington, que serviu como economista do Conselho de Conselheiros Econômicos do Presidente.

"Seria melhor se poupássemos mais por conta própria", acrescentou Swagel, "mas dado que não o fazemos, é preferível que continue o investimento do capital estrangeiro".

Como participação do Produto Interno Bruto do país, o déficit comercial aumentou para 5,8%, em comparação a 5,3% em 2004 e 4,5% em 2003.

Apesar de a maioria dos economistas negar a importância de desequilíbrios comerciais bilaterais, é o déficit com a China que tem provocado mais estardalhaço político. A China foi o país que apresentou a maior diferença comercial com os Estados Unidos, de US$ 201,6 bilhões no ano, um aumento de 24,5% em comparação a 2004. Em dezembro, o déficit com a China caiu cerca de 12%, para US$ 16,3 bilhões.

Após grande pressão da Casa Branca, o governo chinês permitiu que o yuan valorizasse cerca de 2% em julho e permitiu flutuação de sua moeda em uma faixa estreita. De lá para cá, o yuan, também conhecido como renminbi, valorizou mais 0,7%. Um dólar vale cerca de 8,0505 yuan.

Uma moeda chinesa mais forte tornaria as importações para os Estados Unidos mais caras e as exportações americanas para aquele país mais baratas. A maioria dos analistas concorda que o yuan se valorizaria significativamente se fosse liberado, mas muitos especialistas também temem que muitas instituições financeiras na China não são fortes o bastante para sobreviver ao choque que poderia acompanhar uma plena liberalização do câmbio.

No Senado, Charles E. Schumer, democrata de Nova York, e Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, propuseram a imposição de uma sobretaxa de 27,5% sobre as importações chinesas se o país não permitir que sua moeda flutue livremente em relação ao dólar. No final do ano passado, os senadores concordaram em adiar a medida após o Senado ter votado em peso contra impedir sua votação no plenário.

Na sexta-feira, Schumer disse que "há uma forte probabilidade de darmos andamento ao nosso projeto de lei em março caso os chineses não tomem nenhuma medida".

"Se você acredita em livre comércio, você joga dentro das regras", ele disse quando questionado se uma tarifa protecionista prejudicaria a economia americana. "O estrago a longo prazo provocado pelo atrelamento da moeda chinesa ultrapassa em muito qualquer benefício imediato e quase todos os economistas concordam com isto. Eles podem não concordar apenas com nossa metodologia."

Mas os especialistas notam que grande parte do déficit comercial com a China reflete seu crescente papel como centro para montagem final de bens, já que fabricantes asiáticos transferiram sua produção para lá para economizar dinheiro. O déficit comercial geral com a Ásia mudou pouco nos últimos anos.

Funcionários do governo Bush disseram que também gostariam de ver uma maior valorização do yuan, mas argumentaram que duras sanções como uma tarifa seriam contraproducentes e prejudicariam os consumidores. No início deste mês, o Departamento do Tesouro pediu ao Fundo Monetário Internacional para melhorar seu policiamento das manipulações cambiais pelos governos, sem se referir diretamente à China.

O secretário do Tesouro, John W. Snow, deverá levantar a questão das taxas de câmbio em uma reunião dos ministros das finanças do Grupo dos 8, que será realizada em Moscou neste fim de semana.

Mas mesmo alguns antigos defensores do livre comércio estão ficando cada vez mais frustrados com a intransigência da China na questão da moeda, alertando que a repetida rejeição aos pedidos de Washington poderá provocar uma legislação protecionista.

"O governo", disse C. Fred Bergsten, diretor do Instituto de Economia Internacional, um grupo de pesquisa em Washington, "precisa deixar os chineses cientes de que não poderá impedir isto mesmo contra sua vontade".

Apesar da China atrair muita atenção, talvez o fator mais importante por trás do inchaço do déficit no ano passado seja o crescente custo da importação de petróleo e outros suprimentos de energia. O comércio de derivados de petróleo cresceu 39%, para US$ 251,6 bilhões, após aumentarem em 39% em 2004.

No geral, o déficit saltou quase 18% em 2005 em comparação ao ano anterior. Excluindo o petróleo e seus derivados, o déficit comercial cresceu 10%.

Após a China, o segundo maior déficit comercial dos Estados Unidos foi com o Japão, em US$ 82,7 bilhões, um aumento de 9,4%, seguido do Canadá, um grande fornecedor de petróleo e gás natural, em US$ 76,5%, um aumento de 15,1%. O déficit com os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) aumentou em 29%, para US$ 92,7 bilhões.

Em dezembro, o déficit comercial aumentou em 1,5% em comparação ao mês anterior, para US$ 65,7 bilhões, à medida que a importação de computadores, carros e aviões aumentou e a exportação de aeronaves, que tinha aumentado acentuadamente em novembro, caiu. Foi o terceiro maior déficit comercial mensal já registrado.

E com os preços do petróleo subindo novamente, disse Ashraf Laidi, analista chefe de câmbio do MG Financial Group, em Nova York, "nós podemos esperar uma piora destes números". O número é recorde e deverá subir devido ao crescimento do país George El Khouri Andolfato

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