UOL Notícias Internacional
 

11/02/2006

Ex-diretor da Fema desmente Bush e diz que o alertou rapidamente sobre furacão Katrina

The New York Times
John O'Neil e Maria Newman

Washington
Michael D. Brown, ex-diretor da Agência de Administração de Emergência Federal (Fema), testemunhou nesta sexta-feira (10/02) que, assim que soubera da inundação em Nova Orleans, avisou à Casa Branca, no dia em que o furacão Katrina chegou a terra.

Brown também disse que as alegações das autoridades do Departamento de Segurança Interna de que não sabiam dos rompimentos das comportas até o dia seguinte eram "furadas". Brown disse que as autoridades de segurança interna estavam recebendo relatórios regulares por vídeo conferência e que ele pessoalmente contatara autoridades da Casa Branca.

"Minha obrigação era com a Casa Branca, era assegurar que o presidente sabia o que estava acontecendo", disse ele, "e fiz isso". O testemunho de Brown foi a primeira descrição detalhada da comunicação entre a administração de emergência e a Casa Branca.

A tempestade atingiu Nova Orleans e a Costa do Golfo na manhã de segunda-feira, dia 29 de agosto. Brown disse na sexta-feira que soube por Marty Bahamonde, um funcionário da Fema em Nova Orleans, que as comportas haviam se rompido. Bahamonde enviou-lhe um relatório na manhã de segunda-feira, em torno das 10h, que acusava um alagamento severo, até o segundo andar de casas em muitas partes da cidade.

Brown, que estava em Baton Rouge, disse ter alertado a sede da Fema, pedindo que contatasse Bahamonde diretamente para confirmar a informação.

"Eu também liguei" para membros da Casa Branca, disse Brown. Ele disse que falou ao menos duas vezes naquele dia com o subchefe de gabinete da Casa Branca, Joe Hagen, e também com o chefe de gabinete Andrew Card.

Brown disse que enviou mensagem eletrônica para Card no dia 29 para dizer que "era o grande" e que Card respondeu-lhe que tinha sido informado da situação por Hagen. "Eles sabiam" sobre o episódio, disse ele.

Naquela noite, Brown fez um relato mais completo dos problemas em uma ligação para Hagen, que estava com o presidente Bush em sua fazenda em Crawford, Texas.

"Acho que disse a ele que era nosso pior pesadelo, que tudo que tínhamos planejado e temido, que a Fema, honestamente, vinha se preocupando há 10 anos, estava se tornando realidade", disse ele.

Brown disse que talvez tivesse falado brevemente com Bush na noite do dia 29, mas não tinha certeza. "Sabia que ao falar com Joe, estava falando diretamente com o presidente", disse ele.

Antes do furacão, Brown conversou cerca de 30 vezes com membros da Casa Branca em relação aos preparativos, disse ele. Duas conversas foram com Bush, inclusive uma ligação na qual ele pediu ao presidente que ligasse para a governadora Kathleen Blanco de Louisiana e o prefeito Ray Nagin de Nova Orleans para persuadi-los a impor evacuação obrigatória.

Tanto Bush quanto Michael Chertoff, chefe do Departamento de Segurança Interna, disseram que souberam do rompimento das comportas na terça-feira e que foi uma surpresa. Membros do governo disseram que a situação tinha sido obscurecida pelo que um porta-voz da Casa Branca chamou de "névoa de guerra" e que os relatos foram confirmados pela primeira vez na terça-feira.

Brown disse que mesmo após sua agência ter sido absorvida pelo Departamento e Segurança Interna, ele manteve o hábito de ligar diretamente para a Casa Branca durante desastres como os furacões da Flórida de 2004. Ele acha que assim tem resultados mais rápido, em vez de passar pela cadeia de comando do departamento.

Segundo Brown, a prática mudou depois do Katrina. Em certa altura, quando ligou para Card, este disse, pela primeira vez: "Mike, você vai ter que passar as informações pela cadeia de comando", disse ele.

Brown testemunhou para o Comitê de Assuntos do Governo e de Segurança Interna do Senado, depois de a Casa Branca recusar a possibilidade de impedir seu testemunho alegando privilégio executivo.

Brown disse que Harriet Miers, assessora da Casa Branca, tinha escrito para ele na quinta-feira pedindo que continuasse respeitando a confidencialidade das discussões entre assessores de alto nível do presidente.

A senadora Susan Collins, republicana do Maine e diretora do comitê, disse que tinha falado com Miers na quinta-feira à noite e que esta tinha recusado seu convite para que declarasse privilégio executivo. Então, Collins pediu a Brown que respondesse uma questão sobre quem especificamente ele havia informado de suas frustrações nos meses anteriores ao Katrina sobre o efeito da submissão da Fema ao Departamento de Segurança Interna.

Brown disse que tinha discutido os problemas com Hagen e sua predecessora, a atual assessora de segurança interna da Casa Branca, Frances Townsend, além de seu predecessor e, ocasionalmente, com Card.

Ele disse que tinha conseguido fundos para dois estudos sobre problemas causados pelo que ele chamou de "falha fatal" do papel da Fema dentro do Departamento de Segurança Interna, mas não conseguiu traduzir suas conclusões em um plano de ação.

"Nunca tínhamos fundos, nunca tínhamos recursos; nunca tivemos a oportunidade de implementar as recomendações", disse ele.

O governo negou os pedidos de investigadores da Câmara e do Senado de entregar mensagens eletrônicas e outras correspondências de altas autoridades da Casa Branca envolvidas na resposta ao furacão. Aparentemente, quando Bush foi perguntado se Brown deveria testemunhar sobre suas discussões na Casa Branca, pareceu instá-lo a não fazê-lo.

Um porta-voz da Casa Branca, Trent Duffy, disse que não tinha nada a acrescentar sobre esse comentário.

Brown, que tem sua residência no Colorado mas continua morando em Washington, abriu uma firma de consultoria para alívio de desastres. Ele não quis citar seus clientes, mas disse que tem uma série de empresas, inclusive firmas que vendem equipamentos de comunicações e trabalham na reconstrução da costa do Golfo.

Em uma discussão impaciente com o senador Norm Coleman, republicano de Minnesotta, Brown ficou defensivo e irritado com as críticas sobre sua liderança durante o Katrina.

"O que você quer que eu diga? Admiti erros publicamente", disse ele.

Coleman disse que estava abismado que Brown, durante a sessão de sexta-feira, parecia culpar a "estrutura" das agências responsáveis pelos problemas da resposta à emergência. Mas Coleman disse que o histórico, inclusive alguns das próprias mensagens eletrônicas de Brown, parecia sugerir que os problemas não eram tanto sistêmicos, mas da liderança dos responsáveis, inclusive Brown.

Ele disse que, em certa altura, depois de saber que os hotéis estavam expulsando as pessoas e que pacientes estavam morrendo, "sua resposta foi: 'Obrigado pelas informações."

"Sinceramente, estou cansado dessas mensagens eletrônicas fora de contexto", disse Brown. "Com todo o respeito, não tiro conclusões dos e-mails."

Quando Coleman sugeriu que Brown "não forneceu a liderança" necessária, Brown contra-atacou: "Isso é fácil para você dizer, sentado atrás do palanque."

"Ofende-me você ficar aqui sentado dizendo que não tenho capacidade de liderança, porque eu estava lá fazendo tudo que podia", disse Brown, quase gritando. "Admiti os erros. E se você quiser mais alguma coisa de mim, coloque na mesa, me diga o que você quer que eu admita ter feito."

O senador disse: "Mais candura será o suficiente." Michael Brown depõe no Senado sobre falhas da ajuda às vítimas Deborah Weinberg

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