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13/02/2006

O momento tinha que chegar até para aqueles jovens dos anos 70

The New York Times
David Hochman
No final, nem todos os broches de sorrisos na terra poderiam tê-lo impedido. Depois de oito temporadas com músicas de Cheap Trick e roupas de poliéster, os jovens de "That ´70s Show" logo terão seu encontro mais alucinante - com os anos 80.

Divulgação 
O elenco clássico de "That '70s Show", que tem sua última temporada
A festa de Ano Novo, que marcará o grande final da série, será transmitida em maio. Assim chegam ao fim 200 episódios de muita diversão entre adolescentes de Wisconsin na época de Jimmy Carter. Apesar de raramente entrar para os 20 mais do ibope, a série foi uma das comédias mais longas da televisão (na Fox, vem em segundo lugar depois de "Married With Children"). Nesse tempo, gerou uma série de atores populares, inclusive Ashton Kutcher e Topher Grace.

Mas com esses dois astros hoje ausentes do elenco regular e outros parecendo maduros demais para as reuniões no porão da casa do pai, o programa tem vivido ultimamente sua própria crise de energia. Mark Hudis, produtor executivo, disse: "Um de nossos autores chegou no começo da temporada com um lápis em que estava escrito: 'That 70's Show - Já fizemos isso.'"

Por um bom tempo, porém, a série assumiu riscos inesperados, ao menos para os padrões do horário nobre. O episódio inaugural mostrava Eric (Topher Grace), um rapaz cursando o ensino médio com cabelo de Tom Snyder, e seus amigos sentados em uma roda, filosofando em uma nuvem de fumaça de maconha, uma cena que acontece em quase todo episódio. "O truque era estar um passo na frente, de forma que não dava para ver o baseado na televisão", disse Dean Batali, produtor executivo. E seqüências fantasiosas freqüentes faziam os jovens fazerem interpretações de "Guerra nas Estrelas", "Grease", "As Panteras" e, inevitavelmente, "Reefer Madness".

A série captura o absurdo da adolescência suburbana e faz lembrar "Wayne's World" e "The Brady Bunch Movie"; Terry e Bonnie Turner, o casal que criou "That '70s Show" com Mark Brazill, também foram autores desses filmes.

"Lembro-me de assistir 'Friends' e não me identificar", disse Turner. "Era tão limpo e diferente do que foi a adolescência para mim. Dissemos: 'Por que não escrever algo diferente?'"

O show nunca teve o alto perfil de "Friends", "Frasier" ou "Seinfeld", mas isso talvez tenha sido a causa de sua vida prolongada. A série nunca teve as demandas absurdas de remuneração por parte do elenco, e seus jovens fãs a adotaram como uma alternativa mais desgrenhada da programação padrão.

"O programa era um prazer secreto do público central da Fox, da faixa de 18 a 34 anos", disse Jim Kraus, presidente de distribuição doméstica da Carsey-Werner Productions, que produziu a série. "Não importava em que noite ia ao ar -e mudava sempre- os telespectadores a encontravam e acompanhavam". Como o público era jovem e contava com um raro equilíbrio entre homens e mulheres, o programa vendia bem, acrescentou Kraus.

Ajudou o fato de "That '70s Show" ser bastante divertido. Em um episódio clássico, a parceira de laboratório de Eric flerta com ele, o que não incomoda sua namorada com jeito de garoto Donna (Laura Prepon); ou seja, até Donna encontrar a calcinha de outra mulher no Vista Cruiser de Eric. A peça ofensiva de fato pertencia à mãe de Donna, que teria usado o banco de trás com o pai.

"Se você viveu nos anos 70 ou sobreviveu à adolescência, um desses personagens pode ser você", disse Grace que, como Kutcher, deixou a série na última temporada para fazer cinema. (Com Eric fora do roteiro, outro romance teve que ser encontrado para Donna, e foi Randy, interpretado por Josh Meyers). Grace recebeu boas críticas em 2004 por "Em Boa Companhia" e está fazendo um vilão de cabelo de platina em "Homem Aranha 3". Kutcher está gravando ao lado de Kevin Costner no filme de ação "The Guardian".

Como "Happy Days", "That '70s Show" mistura comédia inteligente com crítica social. A década foi generosa na geração de temas, fornecendo piadas sobre Luke Skywalker, republicanos corruptos ou carros econômicos da crise do petróleo. Em um episódio, o pai de Eric, Red, um veterano mal-humorado da Segunda Guerra interpretado com perfeição por Kurtwood Smith, diz de seu novo Toyota: "A última vez que estive perto de uma máquina japonesa, ela estava atirando contra mim."

"Os anos 70 foram a última era em que a televisão era o centro da família", disse David Trainer, que dirigiu todos os episódios, exceto o piloto. "Sem computadores pessoais, videogames ou vídeos, as crianças viviam como diz o tema de abertura":

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Edward Albee, famoso crítico da condição moderna descobriu recentemente "That '70s Show" em reapresentações e se tornou fã: "Os personagens são estereótipos absurdos e ao mesmo tempo doces e plausíveis. Estranhamente, o esperado (no programa) sempre nos surpreende."

Uma das surpresas foi a abordagem incomum ao amor. "Diferentemente de muitas séries cômicas que se concentram em triângulos amorosos ou na possibilidade dos personagens principais dormirem juntos, víamos as nuances de um relacionamento entre dois vizinhos -Eric e Donna- apaixonados desde a infância", disse Grace. E o texto era extraordinariamente afiado. Quando Eric acidentalmente rasga o vestido de Donna, às vésperas de seu casamento, Donna diz impassível: "Por favor, me diga que esse ruído foi um rasgão na dimensão de tempo e espaço."

A série, porém, algumas vezes foi criticada por sua visão branca de uma década de suposta harmonia racial. "Eu gosto de dizer que 'That '70s Show' deu aos EUA o equivalente a série 'Raízes'", disse Tommy Chong, que fez o papel de Leo, um hippie mais velho, antes e depois de sua prisão na vida real por vender cachimbos de maconha, há dois anos. "Se você vem de um subúrbio branco, provavelmente pode traçar suas origens a pessoas como Red e Kitty" (mulher de Red).

Em um episódio, Billy Dee Williams fez o papel de um pastor. Ele começou pregando de uma forma revivalista, quando Trainer, o diretor, interferiu. "Eu disse: 'Billy, olhe para essa igreja. Olhe para essas pessoas. Você acha que um pastor revivalista teria alguma chance aqui? Ele me olhou e disse: 'Saquei'. Daí se tornou um episcopal de Wisconsin tranqüilo."

Peter Roth, executivo que colocou "That '70s Show" na grade da Fox, disse que nunca vai se esquecer do almoço no qual ouviu a proposta. "Topher Grace literalmente nunca tinha trabalhado com televisão ou cinema", disse Roth, que hoje é presidente da Warner Brothers Television. "Bonnie Turner descreveu-o como um amigo de sua filha que fez teatro em uma produção escolar." O programa era "um risco", disse Roth, "mas sabíamos que o público da Fox ia responder a algo ousado e distinto."

Do ponto de vista da indústria, o final da série é outra espécie de marco. "That '70s Show" é a última comédia produzida por Marcy Carsey e Tom Werner, dois ex-executivos da ABC que começaram sua própria empresa de produção no início dos anos 80, e cujos sucessos incluíram "The Cosby Show" e "Roseanne".

É claro, apesar de "That '70s Show" estar terminando, as piadas em torno do psicodelismo e Farrah Fawcett vão continuar (nas reapresentações). "Graças ao Nickelodeon e ao mercado internacional, esses programas podem viver outros 10 a 20 anos", disse Trainer. Depois disso, quem sabe o que as pessoas pensarão dos anos 70?" Deborah Weinberg

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