UOL Notícias Internacional
 

14/02/2006

Americanos e israelenses estariam planejando a derrubada do Hamas na Palestina

The New York Times
Steven Erlanger*

Em Jerusalém
Os Estados Unidos e Israel estão discutindo formas de desestabilizar o governo palestino, para que as autoridades recém eleitas do Hamas fracassem e novas eleições sejam convocadas, segundo autoridades israelenses e diplomatas ocidentais. A intenção é privar a Autoridade Palestina de dinheiro e de conexões internacionais a ponto de, daqui alguns meses, seu presidente, Mahmoud Abbas, ser forçado a convocar uma nova eleição. A esperança é que os palestinos fiquem tão infelizes com a vida sob o Hamas que devolverão ao governo um reformado e disciplinado movimento Fatah.

Shawn Baldwin/The New York Times - 3.fev.2006 
Palestinos queimam a bandeira dinamarquesa em protesto organizado pelo Hamas em Gaza

As autoridades também argumentam que uma análise mais atenta dos resultados eleitorais mostra que o Hamas conquistou uma vitória menor do que antes se imaginava.

Diplomatas e autoridades, que disseram que esta abordagem está sendo discutida nas esferas mais elevadas do Departamento de Estado e do governo israelense, falaram sob a condição de anonimato por não estarem autorizados a falar publicamente sobre o assunto.

Eles dizem que será dada uma opção ao Hamas: reconhecer o direito de Israel de existir, renegar a violência e aceitar os acordos anteriores entre palestinos e israelenses --como pedido pela Organização das Nações Unidas e pelo Ocidente-- ou enfrentar o isolamento e colapso.

Pesquisas de opinião mostram que a promessa do Hamas de melhorar as vidas dos palestinos foi o principal motivo para sua vitória. Mas os Estados Unidos e Israel dizem que a vida dos palestinos ficará mais difícil se o Hamas não cumprir estas três exigências. Eles dizem que o Hamas planeja reforçar suas milícias e aumentar a violência e que deve ser privado do poder.

As autoridades que estão elaborando o plano sabem que os líderes do Hamas têm repetidamente rejeitado as exigências para mudar e não esperam que o Hamas as atendam. "A idéia é colocar esta opção nos ombros do Hamas", disse um alto diplomata ocidental. "Se fizerem a escolha errada, todas as opções levarão a uma direção ruim."

O plano de desestabilização se concentra principalmente em dinheiro. A Autoridade Palestina tem um déficit mensal de dinheiro de cerca de US$ 60 milhões a US$ 70 milhões, após receber entre US$ 50 milhões e US$ 55 milhões por mês de Israel em impostos e tarifas alfandegárias coletados por autoridades israelenses nas fronteiras em nome dos palestinos.

Israel disse que suspenderá tais pagamentos assim que o Hamas assumir o poder e colocará o dinheiro em juízo. Além disso, parte da ajuda que os palestinos recebem atualmente será suspensa ou reduzida pelos Estados Unidos e pelos governos da União Européia, que estarão impedidos política ou legalmente de fornecer dinheiro para uma autoridade dirigida pelo Hamas. O grupo está listado por Washington e pela União Européia como uma organização terrorista.

A estratégia apresenta muitos riscos, dado que o Hamas tentará obter o apoio necessário do mundo islâmico, incluindo de seus aliados, Síria e Irã, assim como de doadores privados. Ele responsabilizará Israel e os Estados Unidos por seus problemas, apelará para o mundo não punir o povo palestino por sua livre opção democrática, apontará para o verdadeiro problema que a falta de dinheiro trará e poderá até optar por um confronto militar aberto com Israel, de certa forma iniciando uma terceira Intifada.

Israel também conta com outros instrumentos de pressão sobre a Autoridade Palestina: o controle da entrada e saída de bens e pessoas da Cisjordânia e Faixa de Gaza, o número de trabalhadores autorizados a entrar diariamente em Israel e até mesmo a moeda usada nos territórios palestinos, que é o shekel israelense.

Oficiais militares israelenses têm discutido o isolamento total de Gaza da Cisjordânia e a transformação da fronteira entre Israel e Gaza em uma internacional. Eles também dizem que não permitirão que os parlamentares do Hamas, alguns dos quais procurados pelas forças de segurança israelenses, viagem livremente entre Gaza e a Cisjordânia.

No domingo, Ehud Olmert, o primeiro-ministro em exercício, anunciou após uma reunião de Gabinete que Israel considerará o Hamas empossado no dia da posse do novo Parlamento: neste sábado.

Assim, a partir do próximo mês, a Autoridade Palestina enfrentará um déficit de dinheiro de pelo menos US$ 110 milhões por mês, ou mais de US$ 1 bilhão por ano, que precisará para pagar salários aos seus 140 mil funcionários, que são o sustento de pelo menos um terço da população palestina.

O número de funcionários inclui cerca de 58 mil membros das forças de segurança, a maioria afiliado ao derrotado movimento Fatah.

Se um governo do Hamas for incapaz de pagar os trabalhadores, importar bens, transferir dinheiro e receber quantidade significativa de ajuda externa, Abbas, o presidente, terá autoridade para dissolver o Parlamento e convocar novas eleições, disseram as autoridades, apesar de tal poder não estar explícito na lei básica palestina.

O potencial para crise econômica é real. O mercado de ações palestino já caiu cerca de 20% desde a eleição em 25 de janeiro e a Autoridade já esgotou sua capacidade de empréstimo junto aos bancos locais.

O Hamas obtém até US$ 100 mil por mês em dinheiro do exterior, disseram autoridades israelenses e ocidentais. "Mas é difícil transferir milhões de dólares em malas", disse uma autoridade ocidental.

Os Estados Unidos e a União Européia em particular querem que qualquer fracasso de liderança do Hamas seja julgado como fracasso do Hamas, não como algo causado por Israel e pelo Ocidente.

As autoridades disseram que muito agora depende de Abbas, um presidente afiliado do Hamas que convocou as eleições de janeiro, tem mais quatro anos de mandato e insiste que o Hamas tem o direito democrático de governar.

Mas Abbas também já ameaçou renunciar caso não tenha um governo que possa executar suas políticas fundamentais -que incluem, ele disse, negociações com Israel para um tratado de paz final baseado em um solução permanente de dois Estados. Os Estados Unidos e a União Européia têm pedido a ele para que permaneça no cargo e assuma suas responsabilidades, disseram as autoridades.

Diplomatas ocidentais disseram esperar que Abbas repita tais posições em seu discurso no sábado, quando o novo Parlamento for empossado, preparando o caminho para um futuro confronto com o Hamas.

Em preparação para um governo liderado pelo Hamas, Abbas também estaria insistindo em reforçar sua posição de comandante-em-chefe de todas as forças palestinas, apesar do primeiro-ministro e do ministro do Interior também terem controle sobre elas por meio de um conselho de segurança presidido pelo primeiro-ministro.

Na segunda-feira, o Parlamento de saída fez um esforço para reforçar os poderes de Abbas ao aprovar uma legislação lhe dando a autoridade para nomear um novo tribunal constitucional, com poder de vetar legislação que considere violar a lei básica palestina.

Abbas nomearia os nove juizes do novo tribunal sem a necessidade de aprovação parlamentar. O Hamas imediatamente fez objeção. "O Parlamento não tem mandato e nem autoridade para emitir qualquer nova legislação", disse um porta-voz do Hamas, Said Siyam, acrescentando que o Hamas tentará derrubar as decisões assim que o novo Legislativo se reunir no sábado.

O Hamas controlará pelo menos 74 cadeiras das 132 do Parlamento, e provavelmente contará com o apoio de outros seis membros em votações chaves. Só que mais de 10% dos novos legisladores já estão em prisões israelenses: 10 do Hamas, três do Fatah e um da Frente Popular pela Libertação da Palestina.

Os Estados Unidos e o Fatah acreditam que a vitória do Hamas foi menos esmagadora do que o número total de cadeiras faz parecer, disse Khalil Shikaki, um pesquisador e diretor do Centro Palestino para Pesquisa e Estudo Político.

Em uma entrevista em Ramallah, Shikaki disse que se o Fatah tivesse forçado membros a retirarem suas candidaturas independentes em distritos onde dividiam os votos com candidatos oficiais do Fatah, ele poderia ter ganho a eleição. Metade das 132 cadeiras foram decididas pelo voto na lista do partido e a outra metade pelo voto separado no candidato local.

O Hamas conquistou 44% do voto popular mas 56% das cadeiras, enquanto o Fatah conquistou 42% do voto popular mas apenas 34% das cadeiras. O motivo? "O Fatah fez uma péssima campanha", disse Shikaki, e Abbas "não forçou suficientemente os candidatos independentes do Fatah a se retirarem".

Se apenas 76 candidatos "independentes" do Hamas não tivessem concorrido, disse Shikaki, o Fatah teria ficado com 33 cadeiras e o Hamas com 33. Nos distritos, o Hamas conquistou em média apenas 39% dos votos e ficou com 68% das cadeiras, disse Shikaki.

"O Fatah agora está obcecado em desfazer esta eleição o mais cedo possível", disse ele. "Israel e Washington também querem desfazê-la. A Autoridade Palestina poderá entrar em colapso em seis meses."

Os novos legisladores do Hamas não ficaram impressionados. Farhat Asaad, um porta-voz do Hamas, e Nasser Abdaljawad, que conquistou uma cadeira em Salfit, onde dois candidatos do Fatah dividiram os votos, deram aos Estados Unidos "um ano ou dois" para aceitarem a idéia de negociar abertamente com o Hamas.

Assad, um ex-prisioneiro israelense, disse: "Nós esperamos que não seja a política americana. Porque aqueles que tentarem nos isolar serão isolados na região".

O Hamas encontrará o dinheiro que precisa no mundo muçulmano, disse Abdaljawad, que passou 12 anos na prisão e conseguiu um Ph.D. lá. O Hamas economizará dinheiro acabando com a corrupção e promovendo a eficiência. O Hamas romperá a dependência palestina de Israel, ele disse.

Asaad riu e acrescentou: "Primeiro, eu agradeço aos Estados Unidos por terem nos dado esta arma da democracia. Mas não há como recuar agora. Não é possível para os Estados Unidos e ao mundo darem as costas a uma democracia eleita". Informação é de autoridades israelenses e diplomatas ocidentais George El Khouri Andolfato

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