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14/02/2006

Por trás dos subentendidos, 'Justiça sem Limites" dirige uma mensagem para as massas

The New York Times
Alessandra Stanley
Em Nova York
A mais nova série de David E. Kelley, que vem sendo exibida no canal ABC à noite, às terças-feiras, é uma comédia imersa na santimônia --ou seja, que tem como alvo, sobretudo, todo tipo de devoção religiosa afetada, sendo uma obra dramática com boas fatias de sátira humorística e de auto-gozação. A série é exibida no Brasil pelo canal pago Fox, sob o título "Justiça sem Limites"

É um sitcom de uma hora de duração, exceto quando ele se transforma num programa de rádio com suas conversas liberais: em quase todos os episódios, o herói, Alan Shore (James Spader), livra-se do seu distanciamento sardônico e profere um discurso bombástico, extenso e ininterrupto sobre a guerra no Iraque, a indústria dos cartões de crédito ou a Igreja Católica romana.

Então, ele toma um conhaque e fuma um charuto junto com o seu parceiro mais velho, o "semi-senil" Denny Crane (William Shatner), e os dois advogados dão livre curso a um embate tipicamente masculino que se tornou o ponto central mais apreciado do programa e a sua maior fonte de piadas. Recentemente, Alan Shore estourou a boca do balão ao entrar no escritório do seu colega. "Ah, aqui está você", disse, gentilmente. "Eu praticamente não vi você neste episódio".

Na sua maior parte, os programas de televisão das grandes redes, que eles sejam bons ou ruins, costumam ser, sobretudo coerentes. Por sua vez, "Boston Legal" ("Boston Lícita") foge dos padrões.

Em primeiro lugar, as situações seguem mudando ao longo dos episódios. Alguns quadros --criados no sentido de chamar a atenção de espectadoras mais idosas-- têm provado que eles merecem ser vistos: Candice Bergen, no papel de Shirley Schmidt, uma protagonista de idade madura e língua afiada, e Betty White como Catherine, uma secretária malvada, andaram acrescentando certa classe e diminuindo a taxa de testosterona que predominava na série.

Outros quadros, entretanto, são menos convidativos, despontando mais como sinais de negligência no roteiro e sem acrescentar grande coisa ao conjunto.

James Spader iniciou este papel como uma derradeira tentativa de dar continuidade a "The Practice" ("O Desafio"), de 2003; a ABC havia cortado o orçamento daquela comédia dramática hesitante, e David Kelley respondeu demitindo metade do elenco e contratando Spader, um ator de cinema mais conhecido pelos seus papéis de vilões friamente inteligentes.

Inicialmente, o personagem de Shore era maravilhosamente perverso e infame, um advogado empresarial ganancioso, corrupto e sorrateiro que convenceu sua velha amiga Ellenor (Camryn Manheim) a contratá-lo depois de ter sido mandado embora pela sua própria firma por fraude. No começo da primeira temporada de "Boston Legal," Alan Shore tinha uma queda por causas perdidas, mas ele mantinha toda aparência de decência humana cuidadosamente escondida dos seus colegas e clientes.

Shore permanece até hoje glacial e cortante, mas ele deixou de lado grande parte da sua maldade para se dedicar às suas causas. Num episódio recente, ele defendia uma jovem mulher que estava processando o exército americano pela morte do seu irmão no Iraque, tripudiando a administração e a complacência e indiferença do público ("ao menos, na guerra do Vietnã, todos nós assistíamos e ficávamos revoltados"). Ele perdeu o caso, mas venceu o juiz, que concordou com o argumento de Shore segundo o qual a guerra era um "desastre".

Shore transformou-se de alguém que era desprezível até mesmo nos seus melhores momentos num herói convencional do horário nobre (a câmera continua mostrando personagens que acompanham com espanto sua eloqüência e seu fervor moral).

E isso faz com que o programa seja excessivamente parecido com "The Practice" e "L.A. Law" ("A lei de Los Angeles"), no qual Kelley deu seus primeiros passos como roteirista de televisão. Cada episódio combina questões sérias com outras absurdas, enquanto os artistas convidados acrescentam um pouco das duas: Michael J. Fox encarnou um CEO acometido de um câncer terminal; Tom Selleck foi anunciado para a próxima terça-feira no papel do ex-marido galanteador de Shirley.

Boa parte do comportamento malvado de Shore foi sugado por William Shatner, que se diverte neste que é o seu segundo ato pós-"Star Trek - Jornada nas Estrelas" (num dos episódios, depois de Shore explicar a Denny que os piolhos do mar são também conhecidos pelo nome de "grudadores" ("cling-ons"), ele olha atentamente para o seu interlocutor e diz: "Klingons? [nome de personagens da série "Jornada nas Estrelas"]").

Denny Crane é um artista de show-boats (navios fluviais usados como casas de espetáculos) libidinoso e monomaníaco que perdeu muito da sua sanidade mental, aparentemente por causa da doença da vaca louca. Ele é a alma gêmea e o conservador parceiro de treinamento de Shore, que faz contato com o vice-presidente Dick Cheney para defender, de maneira bem pouco persuasiva, a guerra no Iraque ou os poluidores. Os ambientalistas, declara ele durante uma viagem para pescar salmão, são "perpetradores do mal".

"Ontem era uma árvore, hoje é um salmão, e amanhã vai ser: `Nós não vamos perfurar o Alaska' à procura de petróleo 'porque o lugar é bonito demais'. Deixe-me dizer uma coisa", interpela Crane. "Eu vim para cá para desfrutar a natureza. Então, não venha me falar sobre meio-ambiente".

Atualmente, o movimento conservador está em franca progressão, mas um dos poucos lugares onde a ideologia liberal ainda tem uma voz portentosa é nas obras dramáticas e nos sitcoms na televisão. Kelley parece estar achando que ele carrega sozinho essa tocha.

Em março passado, Kelley obedeceu quando a ABC pediu-lhe para retirar todas as referências diretas ao canal Fox News e às suas personalidades "no ar", num episódio sobre o reitor de uma universidade que censura a difusão da Fox News em todos os televisores do estabelecimento, afirmando que o seu conteúdo está próximo demais do "discurso de ódio".

O roteiro foi alterado de modo a se referir apenas a um canal de TV a cabo de notícias conservador e sem nome. Mas Kelley, no entanto, não perdeu a oportunidade de proferir mais um escárnio dirigido à sua emissora.

"Eu não sei a qual canal de notícias você andou assistindo ultimamente, mas a Primeira Emenda da Constituição andou perdendo seu lustre nos últimos tempos", diz Shore a um colega naquele episódio. "Algumas emissoras andaram censurando até mesmo os roteiros de suas obras dramáticas".

Mas "Boston Legal" poderia gerar menos calor e mais esperteza. Na figura de Shore, Kelley criou um personagem que rivaliza com Tony Soprano ou Al Swearengen de "Deadwood" ("Galhos Secos" ou "Pessoas Inúteis"). Parece vergonhoso sacrificá-lo no altar da política. Afinal, se o propósito for de "jantar" os conservadores, esta é uma vingança que fica melhor quando servida fria. Com suas alfinetadas aos conservadores, a série "Boston Legal", da ABC, é uma completa bagunça, que pode ser o seu principal apelo Jean-Yves de Neufville

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