UOL Notícias Internacional
 

15/02/2006

A arma da democracia

The New York Times
Thomas L. Friedman

Em Ramallah, Cisjordânia
NYT Image

Colunista Thomas Friedman
Eu decidi que antes de escrever sobre a vitória do Hamas nas eleições parlamentares palestinas, eu tinha que primeiro conversar com as pessoas na Cisjordânia. Eu fico muito feliz por tê-lo feito. Agora tudo está claro para mim: que bagunça!

A posse dos novos parlamentares do Hamas ocorre neste sábado (18/02) e ninguém sabe o que acontecerá depois. Quatorze dos novos legisladores palestinos estão em prisões israelenses, incluindo 10 do Hamas. Isto representa mais de 10% de todo o Parlamento.

A única coisa que está clara para mim é o sentimento radical tanto dos eleitores israelenses quanto palestinos. Pense nisto: Israel realizará sua eleição nacional em 28 de março e o partido de direita Likud, liderado por Bibi Netanyahu, iniciou sua campanha com propagandas acusando o centrista Partido Kadima, liderado pelo primeiro-ministro em exercício, Ehud Olmert, de planejar devolver Israel a suas fronteiras de 1967.

Mas o Likud rapidamente mudou de estratégia, ao perceber que tantos eleitores israelenses atualmente gostam da idéia de um recuo para algo próximo da fronteira de 1967 que alguns até acharam que a propaganda fosse do Kadima, em vez de um ataque do Likud contra ele.

Yossi Beilin, que chefia o esquerdista Partido Meretz, iniciou sua campanha com uma propaganda que diz: "Beilin dividirá Jerusalém". Novamente, se você visse tal propaganda há uma década, você acharia se tratar de um ataque difamatório. Hoje é uma promessa de campanha! Após o fracasso do processo de paz e da campanha de homens-bomba do Hamas, muitos israelenses apenas querem uma separação total dos palestinos --e uma barreira.

"Ideologicamente, os israelenses nunca foram tão pacifistas", disse Ari Shavit, um ensaísta do jornal "Haaretz". "Mas tal pacifismo é baseado na condição de que haja um parceiro em que possamos confiar. Se for o caso, as pessoas estão prontas a devolver tudo. A maioria esmagadora agora é favorável à solução de dois Estados. Mas nos tornamos mais sensíveis no momento em que os palestinos perderam seu juízo."

Os palestinos trocaram o antigo Partido Fatah de Iasser Arafat pelo Hamas, que deseja eliminar Israel e formar um Estado islâmico em toda a Palestina. Assim, quando a maioria em Israel opta por dois Estados, acrescentou Shavit, os palestinos elegem um partido que defende apenas um.

Ou não? É óbvio que o Partido Fatah e seus aliados, liderados pelo presidente palestino, Mahmoud Abbas, realizaram uma campanha incompreensivelmente estúpida. Não havia disciplina, de forma que em muitos distritos o Fatah e seus aliados seculares-nacionalistas concorreram com quatro candidatos, enquanto o Hamas sempre concorria com um. Assim, os eleitores do Fatah ficaram divididos e os do Hamas não.

O resultado, disse o pesquisador Khalil Shikaki, é que "o Hamas conquistou apenas 44% do voto popular, mas ficou com 56% das cadeiras. O Fatah e seus aliados conquistaram 56% dos votos populares, mas apenas 43% das cadeiras".

O Hamas foi claramente eleito para fornecer um governo limpo e ordem. Mas também foi eleito devido à sua campanha suicida ter sido vista como decisiva para tirar Israel de Gaza, conseqüentemente dando aos palestinos uma certa dignidade, algo que o Fatah fracassou em conseguir.

Israel, com apoio dos Estados Unidos, diz que cortará todos os acordos e fundos para uma Autoridade Palestina dominada pelo Hamas --a menos que o Hamas renuncie a violência, reconheça Israel e aceite todos os acordos entre Israel e a OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Alguns israelenses prevêem que um governo liderado pelo Hamas carente de dinheiro levará ao caos e que Abbas será obrigado a convocar novas eleições.

Eu não acho que será tão simples.

A sensação que obtive dos dirigentes do Hamas é que o grupo será discreto e paciente, tentando governar o máximo possível sem dinheiro do exterior, trabalhando para melhorar a governabilidade palestina e esperando que a sociedade palestina permaneça firme --e que o mundo árabe e a Europa de alguma forma intervenham para impedir Israel e os Estados Unidos de privarem o Hamas de seu mandato legítimo.

Como notou Farhat Assad, o porta-voz local do Hamas: "Eu agradeço aos Estados Unidos por nos terem dado esta arma da democracia. Mas não há como recuar agora. Não é possível para os Estados Unidos e o mundo darem as costas a uma democracia eleita".

Mas o Hamas estará bastante ocupado administrando plenamente a Cisjordânia, onde não conta com tantas pessoas ou armas quanto o Fatah. Como colocou o estrategista israelense Gidi Grinstein, o Hamas "é como uma cobra que engoliu um elefante". Ele terá muito o que digerir antes que possa se mover em qualquer direção.

Hisham Abdullah, o repórter da "Agência France-Presse" na Cisjordânia, me disse que quando foi até a principal livraria em Ramallah no outro dia e perguntou o que estava vendendo, o proprietário disse que notou que o pessoal do Hamas estava comprando livros de administração de Dale Carnegie. Embora desagrade Ocidente, Hamas foi eleito democraticamente, o que tira a legitimidade de eventuais iniciativas para desestabilizá-lo George El Khouri Andolfato

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