UOL Notícias Internacional
 

15/02/2006

Irã enriquece urânio, mas diz que aceita negociar

The New York Times
Nazila Fathi

Em Teerã, Irã
O Irã anunciou nesta terça-feira (14/02) ter dado início a um processo de enriquecimento de urânio em pequena escala, e acrescentou que ele ainda estava disposto a prosseguir as negociações em torno da proposta russa que visa a solucionar o contencioso em torno das ambições nucleares do Irã.

Estas negociações ocorreriam na próxima segunda-feira (20) e não nesta quinta, conforme havia sido agendado inicialmente, segundo informou Javad Vaeedi, um negociador nuclear iraniano, citado pela agência de notícias estatal iraniana.

A retomada do processo de enriquecimento no centro nuclear do país em Natanz é uma conseqüência lógica da decisão que Teerã tomou no mês passado de pôr fim a uma suspensão voluntária do seu programa de pesquisas nuclear.

Mas a proposta de abrir uma nova rodada de negociações constitui mais uma reviravolta numa série de sinais contraditórios que o Irã andou emitindo a respeito do plano russo, o qual poderia consistir no envio de urânio do Irã para a Rússia, onde ele seria enriquecido, um mecanismo que conta com o apoio dos Estados Unidos, da Europa e da China.

Na segunda-feira, um porta-voz do governo iraniano, Gholamhossein Elham, disse durante um debate num programa de notícias semanal que as negociações com a Rússia haviam sido adiadas por causa da "nova situação".

Um porta-voz do ministério russo das relações exteriores afirmou na segunda-feira que não estava claro se as observações do Irã representavam uma vontade de adiar ou interromper as negociações. Mas, nesta terça, a agência de notícias estatal russa citou uma declaração de Sergei Kiriyenko, o diretor da Agência federal russa para a energia nuclear, segundo a qual ele faria em breve uma viagem a Teerã para continuar as negociações.

"Esta viagem já foi agendada, e ela precisa ocorrer no final de fevereiro ou no início de março", disse.

Em Viena (Áustria), um oficial da Agência Internacional da Energia Atômica (AIEA) disse que os cientistas iranianos haviam introduzido o gás hexafluoreto de urânio numa "quantidade extremamente limitada de centrífugas" no complexo nuclear de Natanz. O urânio é enriquecido ao passar por um processo de rotação em velocidades muito elevadas.

O funcionário da AIEA, que falou com a condição de não ter o seu nome divulgado uma vez que a agência não quer fazer nenhum comentário público, explicou que o atual processo "não teria qualquer utilidade" para a produção de armas nucleares, a qual requer um número maior de centrífugas do que as que o Irã tem construído até agora, e uma maior perícia técnica do que aquela que os seus cientistas teriam supostamente adquirido.

O porta-voz iraniano Javad Vaeedi disse aos jornalistas que o programa precisará de um certo tempo até alcançar o nível no qual o combustível nuclear para os reatores possa ser produzido. "Contudo, as fases preliminares já foram iniciadas", disse, segundo informaram agências de notícias.

O Irã insiste sobre o fato de que o seu programa nuclear tem por objetivo apenas de produzir combustível para os reatores.

O funcionário da Agência de Energia Atômica afirmou que a decisão de proceder ao enriquecimento de urânio está em conformidade com os direitos legais do Irã, estipulados no tratado de não-proliferação nuclear (do qual o país é signatário), mas que ela vai contra os apelos do diretor geral da agência, Mohammed ElBaradei, e de uma grande parte da comunidade internacional para o Irã manter a suspensão das suas pesquisas neste campo.

Além disso, é provável que o processo de enriquecimento venha a intensificar a confrontação do Irã com o Ocidente em torno das suas ambições nucleares, duas semanas depois de o conselho dos 35 países da agência ter aprovado a denúncia do Irã perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O Conselho de direção da Agência Internacional da Energia Atômica, que inclui a Rússia, aprovou a resolução de dar queixa contra o Irã no Conselho de Segurança para possíveis sanções contra o seu programa nuclear. Mas a resolução deu ao Irã até o mês de março para interromper seu programa de pesquisas e de desenvolvimento.

O funcionário da AIEA explicou que a decisão de enriquecer urânio que foi anunciada na terça-feira em Natanz significa que o Irã estaria claramente ultrapassando as "linhas vermelhas" estabelecidas pelos Estados Unidos e os seus aliados europeus, que querem impedir o país de adquirir os conhecimentos necessários para a condução do processo de enriquecimento.

Mas, para a agência, prosseguiu o funcionário, a questão é de saber se o Irã está mesmo disposto a interromper suas pesquisas "como medida própria para instaurar a confiança", enquanto a agência segue investigando violações passadas do tratado nuclear.

Em 2003, o Irã chegou a instituir uma proibição voluntária das suas pesquisas e de outras atividades nucleares, após ter admitido que ele havia ludibriado os inspetores da agência nuclear durante 18 anos.

"O que o Irã está fazendo não é ilegal - tão logo ele cumpra os acordos de salva-guarda firmados com a agência, a sua atividade é totalmente legítima", acrescentou o funcionário. "A questão é de saber o que o Irã pode fazer para responder a perguntas que ainda permanecem sem respostas no que diz respeito a problemas passados".

Os Inspetores da agência tinham agendada uma visita ao complexo de Natanz nesta terça-feira, como parte de uma turnê pelos diferentes complexos nucleares mantidos pelo Irã. As suas descobertas serão incluídas num relatório sobre as atividades do Irã que ElBaradei apresentará à mesa-diretora da agência no início do próximo mês.

Depois da apresentação deste relatório, espera-se que o Conselho de Segurança examine as possíveis sanções a serem tomadas contra o governo iraniano. Ao tomar esta decisão de maneira unilateral, o país rompeu um acordo firmado com a Agência Internacional de Energia Nuclear Jean-Yves de Neufville

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