UOL Notícias Internacional
 

16/02/2006

Cédulas achadas no lixo ampliam revolta no Haiti

The New York Times
Ginger Thompson

Em Porto Príncipe, Haiti
Houve uma época em que não era incomum corpos serem encontrados nas vastas dunas de lixo em Trutier, a poucos quilômetros ao norte da capital do Haiti. Era o local de despejo favorito, lembram as pessoas de lá, de vítimas dos déspotas e ditadores que deixaram este minúsculo país próximo do colapso. Na noite da última terça-feira (14/02), as pessoas encontraram evidência de um tipo diferente de problema político na depósito de lixo de Trutier: dezenas de caixas contendo milhares de votos das eleições da semana passada estavam jogadas entre as pilhas abertas de refugos.

Tyler Hicks/The New York Times 
Haitianos encontram cédulas com voto em Preval em depósito de lixo na capital, Porto Príncipe
Muitas das cédulas estavam em branco. Mas algumas apresentavam voto para René Preval, o claro favorito na eleição presidencial de 7 de fevereiro.

Os organizadores da campanha de Preval disseram que as cédulas jogadas fora são prova de um esforço para roubar a vitória de seu candidato. Os resultados divulgados até o momento sugerem que Preval está 1,3% aquém dos votos necessários para conquistar a presidência imediatamente e evitar um segundo turno no próximo mês.

Os oponentes de Preval, juntamente com vários observadores eleitorais internacionais, se perguntam se os funcionários de sua campanha plantaram as caixas de votos em Trutier. Eles disseram que pode ser parte de um esforço para incitar os eleitores de Preval, cujos protestos nos últimos dias paralisaram cidades por todo Haiti, a lhe garantirem o poder à força.

Se as cédulas foram jogadas fora ou plantadas e quem o teria feito são perguntas que poderão ficar sem resposta. Mas a descoberta por si só provocou queixas de irregularidades de muitos dos partidos políticos divididos. Também lançou dúvidas aqui e no exterior sobre a credibilidade de eleições consideradas cruciais para devolver o Haiti ao caminho da democracia.

"Impensável! Inimaginável! Inacreditável!" disse Charles-Poisset Romain, um professor de sociologia e reitor de universidade que foi um dos 33 candidatos na disputa presidencial da semana passada, se referindo à descoberta em Trutier ao falar em rádio nacional na quarta-feira. "Uma investigação acelerada deve ser conduzida."

Em seus próprios comentário à nação na terça-feira, Preval fez uma acusação de "enorme fraude" na contagem dos votos. Com dezenas de milhares de seus simpatizantes marchando pela capital, o governo interino cedeu às suas exigências de revisão do processo.

Ao mesmo tempo, as negociações continuavam entre as autoridades haitianas, o chefe da Missão de Estabilização da ONU no Haiti, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos e diplomatas dos Estados Unidos, França, Canadá e vários países latino-americanos para uma saída para a mais recente crise política do Haiti.

"Todos os esforços que fizemos para uma transição democrática poderão ser perdidos", disse um defensor de direitos humanos, Jean-Claude Bajeux. "Nós estamos voltando para o ponto no qual sempre sempre estivemos -no qual multidões nas ruas, e não eleições, ficam com a palavra final. Nós estamos perto de perder uma oportunidade histórica."

Mais de uma semana após o término da votação, ainda é difícil saber exatamente qual é o resultado da eleição. Os resultados divulgados até o momento mostram Preval com 48,7% dos votos. Seu rival mais próximo, Leslie Manigat, ficou com menos de 12%.

Mas as acusações de Preval de fraude provocaram a paralisação da contagem de votos antes que terminasse. Além disso, apesar do Conselho Eleitoral Provisório do Haiti ter jurado que não houve manipulação ou irregularidades sérias, a descoberta em Trutier desferiu um golpe na confiança na eleição e na paz que ela trouxe a este país problemático.

Pessoas que vivem perto do depósito de lixo disseram à agência de notícias "The Associated Press" que as cédulas foram jogadas por um caminhão um dia depois da eleição e que alguém tentou botar fogo no material antes da chuva ter apagado o fogo. Crianças pobres que reviram o lixo encontraram as cédulas, disseram estas pessoas.

Cilius Apolon, 33 anos, passou pelas cédulas descartadas e disse: "Eu acordei bem cedo para votar na semana passada. Isto representa um desrespeito pelo povo haitiano".

Autoridades eleitorais internacionais disseram que cerca de 8% das cédulas tinham desaparecido, pelo menos metade delas roubadas ou destruídas. Outros 7% das cédulas foram anuladas por estarem ilegíveis. Mas grande parte do desafio da apuração dos votos se concentrava nos estimados 85 mil votos em branco, cerca de 4% dos 2,2 milhões de votos dados.

Segundo a lei eleitoral haitiana, os votos em branco fazem parte do número total de votos. Se não forem contados, informaram as autoridades eleitorais, Preval provavelmente venceria com mais de 51% dos votos.

As autoridades eleitorais internacionais reconheceram que pessoas que trabalharam nos locais de votação poderiam ter indevidamente registrado cédulas não usadas como votos em branco. Em pelo menos dois locais de votação, disse uma autoridade eleitoral internacional, quase 100% dos votos foram registrados como votos em branco.

Mas as autoridades eleitorais internacionais também disseram que suspeitam de alguns casos de fraude, dizendo que têm dificuldade para acreditar que alguns camponeses das áreas rurais caminhariam horas, depois permaneceriam horas na fila, para votar em branco.

Ainda assim, as autoridades eleitorais internacionais insistem que o número de irregularidades foi pequeno e longe do suficiente para colocar em dúvida ou mudar o resultado. Partidários do candidato Preval apontam fraude; a violência cresce George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h59

    -0,15
    3,274
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h05

    0,39
    63.505,86
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host