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16/02/2006

Especialistas em arte protestam contra a venda de um conjunto raro de obras de Blake

The New York Times
Carol Vogel

Em Nova York
A descoberta foi pura sorte. Passeando por uma livraria poeirenta na Escócia em uma primavera há cinco anos, dois livreiros encontraram uma capa de couro vermelho com as palavras gravadas "Designs for Blair's Grave" (projetos para a tumba de Blair). Ao abri-la, depararam-se com 19 aquarelas românticas, porém macabras --de anjos, sarcófagos, cemitérios à luz da lua, espíritos-- pintados em cinza, preto e tons pastéis.

Cinco anos depois, passados um processo judicial e uma batalha para exportação, as aquarelas --ilustrações criadas em 1805 pelo poeta e artista plástico William Blake para um poema de 1743-- estão sendo recebidas por acadêmicos como a mais importante descoberta de Blake em um século.

Sotheby's via The New York Times 
"A Morte do Grande Homem Grave" está entre as aquarelas de Blake a serem leiloadas

No entanto, para consternação de muitos especialistas, os 19 trabalhos serão leiloados na primavera pela Sotheby de Nova York, que planeja dividir o conjunto e vendê-los no dia 2 de maio por US$ 12 milhões a US$ 17,5 milhões (entre R$ 24 milhões e R$ 35 milhões).

As aquarelas individuais estão estimadas entre US$ 180.000 a US$ 260.000 (R$ 360.000 e R$ 580.000) para a página título, e entre US$ 1 milhão e US$ 1,5 milhão (entre R$ 2 e R$ 3 milhões) para as cenas mais complexas e cativantes.

Que as obras acabarão espalhadas é uma amarga perspectiva para a Tate Britain, uma das mais importantes referências de trabalhos de Blake. Com a ajudada de uma proibição de exportação, a galeria tentou sem sucesso angariar verbas para comprá-las.

"Quando um grupo de obras que permaneceu unido por 200 anos é dividido por razões financeiras, isso significa que qualquer oportunidade de os estudiosos as verem se evapora", disse Nicholas Serota, diretor da Tate.

A Sotheby rebate que o conjunto de qualquer forma está incompleto, porque uma das 20 aquarelas que Blake produziu para o poema "The Grave" (A Tumba), do escritor escocês Robert Blair, foi misteriosamente separada do resto. Esse trabalho, "A Viúva Abraçando a Tumba do Marido" é de propriedade do Centro de Arte Britânica de Yale, que a recebeu como presente de seu fundador, Paul Mellon.

O conjunto "não está completo, então de certa forma já foi dividido", disse George Wachter, diretor de pinturas antigas da Sotheby's.

"Como uma delas está em Yale, faz mais sentido fazer dessa forma", disse ele sobre a decisão de leiloá-las separadamente.

Acadêmicos e marchands envolvidos na avaliação das aquarelas discordam.

Martin Butlin, estudioso proeminente de Blake que participou do processo de autenticação, disse que vendê-las individualmente em um leilão era "absolutamente filisteu".

"O vendedor não teve respeito à integridade das obras por dinheiro", disse ele. "Como grupo, contam uma história". Os títulos das aquarelas vão de "A Reunião da Alma e o Corpo" até "O Dia do Julgamento" e "A Porta da Morte".

Ricamente detalhados e ocasionalmente assustadores, são uma interpretação individual do poema gótico de Blair, uma meditação sobre mortalidade e redenção. O poema, parte de um gênero poético que veio a ser conhecido como escola do cemitério, provou-se tão popular que em 1798 já tinha 47 edições. Quanto Blake criou suas ilustrações, era um clássico nas escolas da Inglaterra.

Além de seu significado como obra de arte --criada no mesmo período que Blake estava publicando seu próprio "Canções da Inocência e da Experiência", hoje parte do cânon literário-- as aquarelas representam um doloroso episódio na carreira do artista.

Em setembro de 1805, o editor Robert H. Cromek encomendou a Blake 40 desenhos para ilustrar "A Tumba". Ele disse ao artista que pagaria 20 guines pelo trabalho e selecionaria 20 para publicação final. Apesar de Cromek ficar impressionado com as aquarelas, achou que o estilo de gravação do artista não era comercial o suficiente. Então contratou um famoso gravador italiano, Luigi Schiavonetti, para fazer 12 gravações com base nos desenhos de Blake. A decisão foi um tapa na cara do artista.

Blake terminou as 20 aquarelas e entregou-as a Cromek, cuja viúva as herdou depois de sua morte em 1812. Ninguém ouviu falar delas até 1836, quando foram incluídas em um leilão em Edinburgh e descritas como "Um volume de desenhos de Blake". Elas foram compradas anonimamente por meras 1,25 libras, e desapareceram da vista.

Em certa altura --não se sabe exatamente quando-- as aquarelas passaram para a família Stannard de artistas e amantes das artes em Bedfordshire, Reino Unido. Inconscientes de seu potencial valor, descendentes da família encontram-nas quando limpavam a casa de um parente falecido e levaram-nas junto com pilhas de livros para a Caledonia Books, uma loja em Glasgow especializada em livros infantis e trabalhos acadêmicos de segunda mão.

Foi ali que foram descobertas em 2001, por Paul Williams e Jeffrey Bates, dois livreiros de Yorkshire. Eles acharam que as obras pareciam importantes, mas não tinham certeza. Assim, levaram a pasta para Dominic Winter, leiloeiro de livros em Gloucestershire, que então a mostrou para Robin Hamlyn, curador da Tate, e para Butlin, o acadêmico de Blake.

Butlin e Hamlyn conheciam 12 das imagens porque tinham se tornado gravuras, mas foram as outras 7 --novas para eles-- que os excitaram.

"Estão entre suas melhores aquarelas e são muito imaginativas", disse Butlin, citando "A Tumba Personificada", uma imagem frontal de uma figura alada com braços esticados, ou "Nosso Tempo é Contado e Todos estão Numerados", que mostra oito figuras voando acompanhadas de seis querubins acima da lua crescente, segurando a linha da vida.

Os livreiros de Yorkshire decidiram leiloar as aquarelas com Dominic Winter, em junho de 2002. Ao mesmo tempo, procuraram a Tate para ver se estaria interessada em comprá-las. A galeria ofereceu 4,2 milhões de libras (cerca de R$ 12,4 milhões), estipulando que teria que levantar o dinheiro. A instituição recebeu cinco meses para isso.

Com o boato da descoberta, a Caledonia Books compreendeu que tinha se separado de um tesouro valioso. Ela então processou os livreiros de Yorkshire, alegando que Williams e Bates tinham levado as aquarelas sob aprovação, uma prática comum no mundo da arte, e que a Caledonia Books continuava sendo proprietária. O processo pedia a devolução das aquarelas, além de 15.000 libras (cerca de R$ 44.000) em danos.

Com um processo judicial, Dominic Winter cancelou o leilão. Enquanto isso, a Tate tentava angariar fundos para comprar as obras.

As partes fecharam um acordo no tribunal em novembro de 2002, concordando em vender as aquarelas e dividir os lucros. Foi aí que entrou Libby Howie, vendedor de arte londrino.

"Desde que as vi, fiquei completamente obcecada", disse ela. "Em termos de desenhos britânicos, nunca temos esse tipo de descoberta."

Howie disse que as comprou dos livreiros com a ajuda de um grupo de investidores e que por isso tinha "a responsabilidade de conseguir o melhor preço."

Serota, diretor da Tate, acredita que Howie pagou 4,9 milhões de libras (em torno de R$ 15,4 milhões) pelas obras. "Ela simplesmente entrou e comprou", disse ele. Na época, ele achou que seriam para um colecionador privado que as levaria ao exterior.

"É um desapontamento saber que agiu por si mesma e pelos investidores", disse ele.

Howie pediu licença para exportação duas vezes, mas o governo britânico segurou a aprovação para dar à Tate tempo de conseguir os fundos. No entanto, isso ficou cada vez mais difícil. Howie e seus investidores tinham aumentado o preço para 8,8 milhões de libras (cerca de R$ 27,8 milhões), mais que o dobro do acordo inicial da Tate com os livreiros.

Depois que a Tate finalmente disse que não conseguiria juntar o dinheiro, a licença de exportação foi concedida em setembro. Howie disse que passou 18 meses procurando um museu que estivesse interessado em comprá-las, inclusive o Centro de Arte Britânica de Yale, que já tinha uma original do grupo. Ela disse que concluiu que nenhum museu estava interessado em comprar o conjunto.

Como há sérios colecionadores de Blake em Nova York e Los Angeles, ela decidiu finalmente enviar os trabalhos para a Sotheby em Nova York, disse.

"É sempre mais feliz vê-las juntas, mas, no final, acho que é melhor deixar as pessoas escolherem o que mais gostam", disse ela. Aquarelas do pintor e poeta inglês serão leiloadas em 1º de março Deborah Weinberg

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