UOL Notícias Internacional
 

16/02/2006

Suplementos de cálcio não previnem fraturas ósseas em mulheres, aponta pesquisa

The New York Times
Gina Kolata

Em Nova York
Os suplementos de cálcio e de vitamina D aumentam o risco de formação de cálculos renais, mas não previnem fraturas ósseas ou o câncer colorretal em mulheres de meia idade e idosas, segundo um estudo extenso cujos resultados serão divulgados nesta quinta-feira (16/02).

O único efeito positivo dos suplementos na população que foi alvo do estudo --36.282 mulheres normais e saudáveis com idades entre 50 e 79 anos-- foi um aumento de 1% da densidade óssea no quadril.

O estudo de US$ 18 milhões foi parte da Iniciativa para a Saúde das Mulheres, um grande projeto federal que, na semana passada, anunciou a descoberta de que dietas pobres em gordura não conferem proteção contra o câncer colorretal ou da mama, e tampouco contra as cardiopatias.

Poucos anos atrás, um estudo feito pela instituição sobre o tratamento hormonal após a menopausa demonstrou que a técnica causava mais riscos do que benefícios à saúde.

Em todos os casos analisados, a Iniciativa para a Saúde das Mulheres estava testando hipóteses derivadas de estudos que envolviam a observação de populações e a análise da relação entre certas práticas supostamente saudáveis e os resultados sob o ponto de vista médico.

Mas os estatísticos concordam que tais estudos, baseados em observações, proporcionam menos evidência concreta do que os testes clínicos, como aqueles feitos pela própria Iniciativa para a Saúde das Mulheres, que escolhe aleatoriamente mulheres que são submetidas a estratégias preventivas, como os hormônios, as dietas ou os suplementos e, a seguir, procuram identificar resultados concretos --um osso fraturado, um caso de câncer, um ataque cardíaco.

Os resultados do novo estudo sobre o cálcio e a vitamina D, assim como outros, abalaram as crenças populares e geraram dúvidas quanto às mensagens relativas à saúde pública que têm sido dirigidas a toda a população.

Neste caso, as participantes foram escolhidas aleatoriamente para ingerirem mil miligramas de cálcio e 400 unidades internacionais de vitamina D diariamente, ou para tomarem placebos, e tiveram a saúde acompanhada durante sete anos. Os pesquisadores procuraram efeitos sobre a densidade óssea, fraturas e câncer colorretal.

A ausência de efeitos sobre o câncer colorretal em um período de sete anos foi tão nítida que tal descoberta gerou pouca controvérsia. Mas o efeito sobre os ossos é uma outra história.

Especialistas em osteoporose dizem que o estudo, a ser publicado nesta quinta-feira no periódico "The New England Journal of Medicine", deverá causar modificações naquilo que se transformou em uma prática médica generalizada de recomendar que todas as mulheres tomem suplementos de cálcio e vitamina D após o início da menopausa, ou até antes dela, como se isto fosse uma de espécie de seguro contra a osteoporose.

Mas, além disso, não se chegou a um acordo quanto ao que as mulheres saudáveis devem fazer para evitar a osteoporose, se é que há algo a ser feito.

Os pesquisadores responsáveis pelo estudo enfatizaram as pistas encorajadoras e a plausibilidade biológica contidas nos dados. Ao se debruçar somente sobre as mulheres que tomaram 80% das suas pílulas, descobriram que os suplementos reduziram as fraturas de quadril em 29% delas. A taxa anual de fraturas de quadril em mulheres que tomaram o suplemento é de dez por dez mil, comparada a 14 por dez mil entre as que ingeriram placebos.

Em uma análise separada por subgrupo, feita com todas as mulheres com mais de 60 anos de idade que foram objeto do estudo, eles identificaram uma redução de 21% das fraturas de quadril no grupo que tomava os suplementos. O índice foi de 19 por dez mil para mulheres com mais de 60 anos que tomavam suplementos, contra 24 por dez mil para as mulheres de mais de 60 anos que ingeriam placebos.

Mas, é claro, a mensagem que tem sido transmitida às mulheres é que todas as que têm mais de 50 anos devem tomar os suplementos. Portanto, a questão a ser levantada relativa à saúde publica deve ser: o que acontecerá àquelas mulheres que realmente tentarem se submeter a tal tratamento?

A resposta derivada do estudo é: elas ficarão mais sujeitas a cálculos renais, sem que haja redução das fraturas.

Alguns médicos dizem que o que querem saber é como aconselhar uma mulher que insiste em dizer que, ao contrário das outras, tomará as pílulas em anos intercalados. E, em tal caso, a análise dessas mulheres gera informações úteis, afirma a médica Rebecca Jackson, da Universidade Estadual de Ohio, a principal autora do trabalho publicado nesta quinta-feira.

Mas tais análises de subgrupos são questionadas por vários estatísticos, que observam que sempre haverá subgrupos em um estudo de grande magnitude, revelando diversos efeitos baseados apenas na coincidência.

Alguns subgrupos, conforme ocorreu neste estudo, revelarão um efeito positivo, e outros, como também ocorreu neste trabalho, indicarão um efeito negativo. Mas a hipótese testada dizia respeito ao grupo como um todo. Segundo os estatísticos, vasculhar os dados após o término do estudo a fim de localizar subgrupos que embasem certas hipóteses pode induzir a erros.

Jacques Rossouw, um dos envolvidos no estudo, explicou as limitações envolvidas em tais casos. "Estas são análises secundárias, e, até certo ponto, têm um caráter exploratório", disse ele.

"Não obstante, o estudo de fato indicou o valor da ingestão adequada de cálcio e vitamina D", afirmou a diretora da pesquisa, a médica Elizabeth G. Nabel.

"Com base em todos os resultados, as mulheres --particularmente aquelas com mais de 60 anos-- deveriam cogitar em ingerir cálcio e vitamina D para a saúde dos ossos", disse ela.

Outros não estão tão seguros quanto a isso.

Ethel Siris, presidente da Fundação Nacional da Osteoporose, afirma que o novo estudo fez com que ela questionasse o conselho dado por vários médicos no sentido de que as mulheres tomem suplementos de cálcio independentemente dos ingredientes de suas dietas. "Não acreditávamos que isso causasse problemas, e foi por este motivo que os médicos recomendavam rotineiramente este procedimento", explica ela.

Segundo Siris, o novo estudo demonstra que a ingestão dos suplementos pode causar problemas: no grupo que tomava os suplementos houve uma média de cinco casos adicionais de cálculos renais por 10 mil mulheres. Assim, Siris sugere que os médicos só prescrevam os suplementos para as mulheres que não estão ingerindo uma quantidade suficiente de cálcio --algo entre 1.200 a 1.500 miligramas diários-- em suas dietas.

"Existe um limite", alerta Siris. "Ingerir uma quantidade excessiva de uma substância saudável é uma prática prejudicial à saúde".

Clifford J. Rosen, diretor do Centro de Maine para Pesquisa e Educação sobre a Osteoporose, em Bangor, no Estado de Maine, diz que doravante reservará os suplementos para as mulheres de mais de 70 anos - a faixa etária na qual é maior o risco de fraturas do quadril - que não estão ingerindo uma quantidade suficiente de cálcio e vitamina D.

"Isto é uma intervenção no campo da saúde pública", opina Rosen. "Temos recomendado este procedimento para todo mundo, mas ele provavelmente não surte resultados para a maioria das mulheres, ou então o efeito é muito pequeno. E existe o aumento dos casos de cálculos renais. Não se trata de uma intervenção benigna".

Outros vão além, questionando se mulheres saudáveis deveriam tomar quaisquer suplementos.

Cynthia Pearson, diretora-executiva da Rede Nacional de Saúde das Mulheres, um grupo de defesa dos direitos da mulher, sabe o que a sua organização dirá: "O fato de este método não ser efetivo não significa que tenhamos que procurar um outro método", afirma ela. "Se você se considera razoavelmente similar às mulheres que fizeram parte do estudo, algo que é o desejo da maioria de nós, então o melhor é não se preocupar. A vida é boa".

"É desapontador", lamenta Susan Ellenberg, estatística e ex-funcionária da Administração de Alimentos e Remédios (FDA, na sigla em inglês), e que atualmente trabalha no Centro de Clínica Epidemiológica e Bioestatística da Universidade da Pensilvânia.

"Gostaríamos que houvesse uma forma simples e barata de prevenir fraturas de quadril em mulheres idosas. Mas creio que ficou bem claro que o efeito dos suplementos, se é que há algum efeito, é extremamente modesto. Ainda quando fazemos aquelas questionáveis análises de subgrupos, encontramos um efeito de pouquíssima significância. E estamos lidando com um grupo bastante grande".

O estudo teve início para analisar uma crença popular tão enraizada que se tornou quase um dogma da saúde pública: considerando que doses adequadas de cálcio e vitamina D são necessárias para ossos saudáveis, e levando-se em conta que os ossos das mulheres normalmente começam a ficar frágeis após a menopausa, as mulheres deveriam tomar suplementos a fim de se protegerem das devastadoras fraturas que podem ocorrer devido à osteoporose.

E poderia haver também um outro benefício: os estudos que observaram pessoas que ingeriam suplementos de cálcio indicaram que estes suplementos podiam também reduzir os riscos de câncer colorretal.

O estudo constituiu-se na chance única para que a ciência médica analisasse de maneira rigorosa se tais crenças sobre o cálcio e a vitamina D eram verdadeiras. Segundo os investigadores, estudos de tamanha magnitude não costumam ser repetidos.

É claro que os investigadores também perceberam que lançariam a fria luz da ciência sobre mensagens populares que estimularam uma explosão de crescimento da indústria de suplementos de cálcio. Segundo Joel S. Finkelstein, pesquisador da osteoporose do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, esta indústria arrecadou US$ 993 milhões em 2004.

"Os suplementos de cálcio são o produto mais vendido em uma indústria multibilionária de suplementos dietéticos", escreveu Finkelstein no editorial da edição do periódico "The New England Journal of Medicine" que será lançada nesta quinta-feira.

Segundo Finkelstein, essas mensagens podem ter assegurado falsamente a muitas mulheres que os suplementos as protegeriam.

"As pacientes me procuram a toda hora dizendo que não correm o risco de sofrer de osteoporose porque fazem exercícios e tomam cálcio e vitamina D", conta o pesquisador. "As propagandas de cálcio deram a muitas mulheres a impressão de que estão protegidas contra a osteoporose. A mensagem do estudo é de que o cálcio e a vitamina D, em si, não são suficientes. Como terapia para proteger as pacientes da osteoporose, os suplementos são 'bem fraquinhos'".

Ele explica que as mulheres que sofrem de osteoporose devem pensar em tomar um dos sete medicamentos aprovados pela FDA, e que estão disponíveis no mercado, que demonstraram, em rigorosos testes clínicos, a capacidade de prevenir fraturas. Seis desses medicamentos inibem a fragmentação óssea, e um deles estimula o crescimento de novo tecido ósseo.

Mas alguns especialistas em osteoporose estão dizendo que o estudo apresentou falhas, que ele deveria ter se concentrado em mulheres mais velhas, que deveriam ter sido utilizadas doses mais elevadas de vitamina D, ou que ele deveria ter excluído aquelas mulheres que já contam com bastante cálcio nas suas dietas.

Siris diz que entende tais reações. Quando ela viu os resultados do estudo, o seu primeiro instinto foi o de rasgá-lo. Mas conta que já havia aprendido a lição com os ataques àquele estudo da Iniciativa para a Saúde das Mulheres que revelou que existiam riscos reais nos tratamentos com hormônio para mulheres na menopausa. Ela diz que no caso do estudo sobre os hormônios, acreditou que os resultados da pesquisa estavam corretos.

"Neste caso, me vi acreditando que havia algo de errado com o projeto da pesquisa porque não gostei dos resultados". Siris decidiu resistir à tentação de atacar o portador das más notícias. Consumo da substância pode fazer mal, ao provocar cálculo renal Danilo Fonseca

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