UOL Notícias Internacional
 

17/02/2006

Seca e temperatura de 40 graus matam africanos

The New York Times
Marc Lacey

Em Wajir, Quênia
Halima Muhammad está enfrentando a pior seca que atingiu o leste da África em décadas. Mas quando um grande lago de água fresca apareceu diante dela no outro dia, no meio da terra seca, esta mulher sedenta com oito filhos com sede fez algo notável: ela não saiu do lugar.

A água, entregue duas vezes por semana por um caminhão-tanque aos assentamentos remotos no nordeste do Quênia, não é suficiente para a comunidade de 6 mil pessoas de Halima. Os anciões a dividem, exigindo que almas sofredoras como a dela aguardem na fila até seus nomes serem chamados antes que possam se aproximar do lago e retirar o suficiente para encher um cântaro de 20 litros.

Parecia uma miragem, tanta água no meio da areia quente. E em pouco tempo ela desapareceu; mesmo as gotas remanescentes secaram como toda a terra ao redor.

Um período prolongado de pouca ou nenhuma chuva e a falta de planejamento do governo para esta situação são responsáveis por esta crise humanitária, que está afetando um grande trecho do norte do Quênia, passando pela Etiópia e Somália, até Djibuti. Dezenas de pessoas morreram devido ao calor impiedoso desde dezembro passado, disseram diretores de hospital e grupos de ajuda humanitária, apesar de não se saber ao certo o número total de mortos.

Os animais já estão morrendo em grande número, com suas carcaças em putrefação enchendo a paisagem e devastando a economia local. Os grupos de ajuda estimam que 70% das 260 mil cabeças de gado no distrito de Wajir, perto da fronteira com a Somália, morreram. Cabras e ovelhas também estão morrendo. Até mesmo os camelos estão caindo na areia.

Os relativamente poucos poços estão distantes dos poucos trechos de vegetação remanescentes para os animais se alimentarem. Assim as famílias se vêem diante da terrível escolha de permitir que seus animais, que são seu sustento, morram de fome ou de sede.

As organizações de ajuda estão trabalhando para impedir que os povos nômades sofram um destino semelhante. A Oxfam, que levou repórteres em uma visita à região nesta semana, está fazendo entregas de água para duas dúzias de locais remotos, fornecendo ao menos algum alívio. Mas dois recipientes de 20 litros por semana estão longe de ser suficientes para uma família; a cota normal nos campos de refugiados é de 15 litros por dia por pessoa.

As entregas iniciais da Oxfam foram ações caóticas, com os moradores correndo na direção da água com seus cântaros na cabeça, desesperados para pegar sua cota. Mas a maioria das pessoas agora obedece a abordagem mais organizada.

"Eu não sei se conseguirei algo", disse Halima, com aspecto frágil enquanto permanecia no fim da longa fila. Se não sobrar água quando chegar sua vez, ela disse, ela terá que pedir aos amigos por um pouco. Eles dividirão, ela disse, porque da próxima vez poderão ser eles que ficarão sem.

Aguardar ociosamente a chegada da água não é o costume aqui. As mulheres, cujo trabalho é pegá-la, geralmente vão até poços distantes, onde carregam seus animais com cântaros plásticos e então voltam para casa. Mas os animais estão fracos demais para isto agora, dizem as mulheres. As mulheres também estão fracas demais para realizar a jornada, que costuma ser de mais de 60 quilômetros de ida e volta, elas dizem.

"Imagine que você está com sede e sem conseguir encontrar água, deixando seus filhos em casa passando fome", disse Ubai Made, que furou a fila para conseguir ao menos água suficiente para sua filha pequena, que estava pendurada como uma boneca de pano em seus braços.

Muhammad Dahar, um funcionário da Oxfam que estava lendo os nomes, disse que é difícil ficar bravo com quem fura a fila. Então outra apareceu, uma idosa que estava caminhando lentamente para o lago. "Ei!" ele gritou, sinalizando para que um dos líderes comunitários interviesse.

"Às vezes eles furam quando estão com sede", ele disse. "Mas a maioria espera sob as árvores."

Cruzando a fronteira para a Somália, a situação é igualmente preocupante. As famílias de lá também estão sobrevivendo com dois cântaros de 20 litros por semana, que representam cerca de três copos de água por dia por pessoa, para beber, cozinhar e lavar.

Isto é tão obviamente insuficiente, especialmente dadas as temperaturas de até 40 graus, que algumas pessoas começaram a beber a própria urina para continuarem vivas, disseram membros da ajuda humanitária.

"Não estão sendo atendidas as necessidades básicas de comida e água das pessoas", disse Aydrus S. Daar, um queniano que faz parte das equipes de ajuda humanitária que recentemente participou de um levantamento do sul da Somália patrocinado pela Oxfam. "A situação é ruim."

Comprar água de vendedores privados não é uma opção realista, disse Daar, porque o preço saltou de cerca 3 centavos por um cântaro de 20 litros em tempos normais para cerca de um dólar, mais do que a maioria das pessoas ganha em um dia.

Desesperados para saciar sua sede, aqueles com energia agora caminham o equivalente a duas maratonas para pegar água, disseram os grupos de ajuda, porque as fontes próximas de água agora possuem apenas terra rachada. Quênia enfrenta crise humanitária após estiagem intensa e longa George El Khouri Andolfato

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