UOL Notícias Internacional
 

18/02/2006

Bush quer expansão do papel da Otan no Sudão

The New York Times
David E. Sanger*

Em Orlando, Flórida
O presidente Bush sinalizou um novo compromisso americano na sexta-feira (17/02) ao tratar da crise em Darfur, dizendo que ele apoiaria uma expansão do papel da Otan para apoiar a fracassada missão de paz africana lá. Bush disse que também é favorável à duplicação do números de soldados da força de paz que estão operando em Darfur sob controle da ONU, como proposto pelo Conselho de Segurança no mês passado. Ele discutiu Darfur, no oeste do Sudão, enquanto respondia a uma pergunta sobre o destino das crianças no norte de Uganda devastado pela guerra.

Michael Kamber/The New York Times - 1.fev.2006 
Mulheres e crianças aguardam ajuda humanitária no campo de refugiados de Kalma, em Darfur, sul do Sudão
"Eu conversei com Kofi Annan sobre este assunto nesta semana", disse Bush, referindo-se ao encontro com o secretário-geral da ONU. "Mas isto exigirá, eu acho, administração, planejamento, facilitação e organização da Otan, provavelmente com a duplicação do número de soldados da força de paz atualmente presente, para começar a fornecer algum senso de segurança. É preciso haver conseqüência para as pessoas que cometam abusos contra seus conterrâneos."

Funcionários do governo disseram que os comentários de Bush refletem as discussões entre os Estados Unidos e seus aliados, que pedem por um maior papel interino da Otan em Darfur até que uma maior operação de força de paz da ONU possa ser estabelecida.

Os combates entre os grupos rebeldes e as milícias apoiadas pelo governo têm destruído aldeias inteiras, matando mais de 200 mil e deslocando cerca de 2 milhões de pessoas. Tanto os Estados Unidos quanto a ONU têm sido criticados pela lenta resposta às evidências de que a força de paz da União Africana tem tido pouco efeito.

Cristãos evangélicos têm sido particularmente veementes em seus pedidos para um papel americano mais ativo, e os comentários de Bush, em uma sessão de perguntas e respostas em Tampa, pareciam dar mais atenção ao assunto.

A Otan tem exercido um pequeno papel logístico até o momento, basicamente transportando os soldados africanos. Até recentemente, funcionários do governo diziam que a Otan poderia fazer mais, mas toda a discussão girava em torno do fornecimento de equipamento, comunicações e outros apoios logísticos.

Após a palavra do presidente Bush na sexta-feira, um alto funcionário do Departamento de Estado disse que a proposta americana continua sendo de "fortalecer a União Africana" até que as forças da ONU chegarem no final deste ano.

Apesar de Bush ter falado de uma "administração" da Otan, os funcionários americanos alertaram que a Otan comandaria apenas operações logísticas, não os soldados da União Africana.

Eles reiteraram que Washington não enviará soldados americanos. Em um depoimento no Congresso nesta semana, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, disse: "Nós estamos preparados para conversar com nossos pares da Otan sobre o que mais podemos fazer para apoiar" as forças da União Africana "até a chegada das forças da ONU" em Darfur.

Um porta-voz do Pentágono, o tenente-coronel Joe Carpenter, disse em Washington que nenhuma decisão foi tomada sobre o papel da Otan, mas a "Otan poderia ser potencialmente uma líder significativa" no trabalho de força de paz da ONU.

Nos últimos dois anos, sob os auspícios da Otan, os Estados Unidos têm transportado toneladas de suprimentos e vários milhares de soldados da União Africana para o oeste do Sudão. Os Estados Unidos também forneceram US$ 190 milhões para o treinamento e construção de campos para os soldados, disse o Pentágono.

Os comentários de Bush na sexta-feira foram muito mais específicos do que suas palavras na Casa Branca no início desta semana, quando se encontrou com Annan para discutir Darfur.

Um funcionário que descreveu a sessão no Escritório Oval disse que Annan notou que qualquer nova força da ONU necessitaria de equipamento mais pesado e unidades de inteligência bem melhores do que as fornecidas para a União Africana. "Só alguns poucos lugares podem fornecer isto", disse o funcionário, "a Otan ou os Estados Unidos".

Bush reconheceu que os soldados da União Africana têm sido incapazes de "dar algum senso de segurança àquelas pobres pessoas que estão sendo expulsas de suas aldeias e sendo terrivelmente maltratadas".

"O esforço foi nobre", ele disse, "mas não conseguiu atingir o objetivo".

Em uma reunião da Otan na semana passada em Taormina, Sicília, um porta-voz da aliança, James Appathurai, disse que o representante especial da ONU para o Sudão, Jan Pronck, informou aos ministros da defesa sobre o debate do Conselho de Segurança a respeito de Darfur. Nenhuma decisão foi tomada sobre a expansão do papel da Otan, ele disse.

"Por ora a Otan fará o que lhe foi pedido para fazer, que é oferecer nossa capacidade de transporte aéreo e construção", ele disse.

Ao longo do ano passado, cerca de 7 mil soldados da força de paz da União Africana foram posicionados em Darfur para monitorar e assegurar o cessar-fogo entre as tropas do governo e os rebeldes. Em janeiro, o Conselho de Segurança iniciou um plano para o envio de soldados de força de paz ao Sudão, que prevê uma força de até 20 mil operando sob um amplo mandato.

Mas as autoridades da ONU reconheceram que obter o compromisso por parte dos países membros para o envio de tantos soldados provavelmente será difícil. Os Estados Unidos declararam claramente que tropas de combate americanas não seriam enviadas para lá e outras nações fizeram alertas semelhantes.

Obter o compromisso de cessão de soldados e o envio deles deverá levar até um ano.

Nos últimos dias, alguns membros do Congresso e outros começaram a dizer que esperam que as forças da Otan possam trabalhar com os soldados da União Africana até a chegada das forças da ONU.

"Neste ínterim, vamos envolver a Otan neste processo, porque cada dia de espera resulta na morte de mais pessoas", disse o senador Sam Brownback, republicano do Kansas, em uma entrevista na quinta-feira para o programa "The Newshour with Jim Lehrer".

Bush notou na sexta-feira, como fez no mês passado quando perguntado sobre Darfur por um estudante no Kansas, que seu governo foi o primeiro a usar a palavra "genocídio" para descrever o que estava acontecendo no Sudão.

"Nosso país foi o primeiro país a chamar o que estava acontecendo de genocídio, o que importa", ele disse diante de uma platéia de cerca de 400 pessoas, que pareciam apoiar Bush em peso. "Palavras importam."

Os comentários de Bush ocorreram após ele ter recebido um briefing sobre o Iraque na Base MacDill da Força Aérea, em Tampa, o quartel-general do Comando Central dos Estados Unidos e do Comando das Operações Especiais.

Os repórteres foram conduzidos até a sala de briefing, que possui um grande mapa do Oriente Médio projetado na parede, mas Bush não comentou sobre o Iraque enquanto estava lá e nem discutiu o conteúdo do briefing.

Posteriormente, em Orlando, no Contemporary Resort da Disney, ele falou sobre o Iraque, em uma festa para arrecadação de fundos do Partido Republicano da Flórida, que levantou US$ 3 milhões. "Não é engraçado assistir a um governo ser formado por algumas das mesmas pessoas que viviam ameaçadas sob Saddam Hussein?" Bush perguntou às pessoas que faziam contribuições.

*Colaboraram Joel Brinkley e David S. Cloud com reportagem em Washington. Região de Darfur vive guerra civil, com crimes contra a humanidade George El Khouri Andolfato

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