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18/02/2006

Exibicionismo de atleta tira ouro certo dos EUA

The New York Times
Lee Jenkins

Em Bardonecchia, Itália
Faltavam cerca de 100 metros e mais um salto para Lindsey Jacobellis atravessar a linha de chegada, na sexta-feira (17/02). A segunda colocada estava 50 metros atrás.

Os técnicos americanos eram congratulados. Familiares eram cercados. Jacobellis, 20, foi o rosto de muitas campanhas de propaganda das Olimpíadas. Era a favorita na competição feminina de snowboardcross e estava prestes a ser coroada com a medalha de ouro.

Jim Davis/The Boston Globe - 17.fev.2006 
Após cair, a americana Lindsey Jacobellis (à dir.) vê a rival suíça vencer e levar o ouro

Mas Lucky Lindsey, como era apelidada, entrou no caminho de sua própria vitória. Como um jogador de basquete fazendo uma cesta reversa, Jacobellis agarrou com estilo a traseira de sua prancha no ar. E angulou-a para a direita. A manobra é chamada de Método. Talvez devesse ser batizada de Jacobellis.

No alto de seu pulo, ela sentiu um vento forte no rosto e brevemente perdeu o equilíbrio, disse ela. Ela mal conseguia controlar suas pernas, que queimavam com as demandas de uma corrida de 1.000 metros; atribuiu o gosto de sangue que sentiu em sua boca à exaustão. Ela caiu das nuvens, pousou na ponta do calcanhar de sua prancha, e caiu de costas. Rodando três vezes no chão, suas tranças louras se arrastando pelo gelo, formou o mais triste desenho de anjo na neve nos Alpes.

Jacobellis levantou-se em tempo para ver a suíça Tanja Frieden passar voando e ganhar a medalha de ouro. É a primeira Olimpíada da modalidade de snowboardcross e já tem seu primeiro vexame. Apesar de Jacobellis conquistar medalha de prata, sua participação será lembrada por sua queda. Jacobellis disse com leveza: "Abaixo a cabeça envergonhada."

Quando pediram que explicasse porque adotou o estilo livre em uma situação tão crucial, Jacobellis, de Stratton, Vermont, disse: "Eu só estava tentando segurar minha prancha no salto para me estabilizar. Não é uma questão de fazer estilo. Você está tentando criar estabilidade". Duas horas depois, durante uma teleconferência, admitiu que talvez estivesse tentando se divertir e não tenha feito a melhor escolha.

Jacobellis recusou-se a admitir exibicionismo, mas era impossível argumentar diante das imagens na tela. Depois de assistir ao vídeo no centro da mídia, o técnico americano da modalidade, Peter Foley, disse: "Ela definitivamente torceu um pouco mais do que precisava. Se ela visse, diria: 'Sim, foi um pouco demais.'"

Apesar de os juizes de snowboardcross não darem pontos para estilo, os participantes não deixam de ser esquiadores de snowboard, excêntricos e livres, e freqüentemente pontuam suas vitórias com saltos impressionantes.

Jacobellis, atleta de snowboardcross que também já foi premiada em halfpipe, fez o tipo de manobra que deu ouro para os competidores de halpipe americanos Shaun White e Hannah Teter. Seu momento, porém, não poderia ter sido pior.

Jacobellis seria a quarta competidora de snowboard americana a vencer medalha de ouro nessa Olimpíada, que até agora não correspondeu às expectativas da equipe americana.

Na reta final, duas das três outras competidoras já tinham caído. A terceira, Frieden, estava tão atrás que não conseguia mais ver Jacobellis. "Eu estava correndo para ganhar prata", disse Frieden.

Assistindo pelo monitor, Foley gritava: "Continua! Continua na competição!" Quando os técnicos de outros países vieram apertar prematuramente a mão de seu assistente, Jeff Archibald, este gritou "não!".

No momento da queda, a família de Jacobellis caiu em silêncio. Foley botou as mãos no rosto em agonia. Frieden, virando a última curva, lembra-se de gritar "Whoa!" Naquele momento, lembrou-se de uma competição dos X-Games, alguns anos atrás, quando estava confortavelmente na frente e saiu da posição agachada antes da linha de chegada. Jacobellis manteve a posição e superou-a no final.

Mas as Olimpíadas não são os X-Games, e Jacobellis admitiu que estava mais nervosa do que de costume. No comercial do cartão Visa com Jacobellis, seu técnico tenta acalmá-la dizendo: "Você consegue. Não olhe para eles, olhe para mim. Veja-se sozinha na montanha. Imagine-se no pódio. Ninguém pode tocar em você."

Foley, por outro lado, conversou com ela no alto da montanha. Ele disse que segurasse sua prancha se não se sentisse confortável com algum dos saltos. Jacobellis disse que estava particularmente insegura com o penúltimo salto da corrida.

É curioso portanto que fosse tentar uma manobra difícil no ponto que mais temia. "Algumas vezes é subconsciente, mas aquilo foi para se mostrar", disse à Associated Press Seth Wescott, que venceu a competição masculina na quinta-feira.

Wescott estava no sopé da montanha, vestindo sua medalha de ouro, quando Jacobellis saiu de cabeça baixa e ombros caídos. Jacobellis é colega de equipe de Wescott. Mas Frieden é sua namorada. Ou seja, tinha sentimentos conflitantes.

Conflitos e acidentes passaram a definir o início olímpico do snowboardcross. Na disputa final, Dominique Maltais do Canadá entrou em uma rede lateral e a colega canadense Maelle Ricker caiu com tanta violência que teve que ser levada de helicóptero para um centro de traumas em Turin. Maltais voltou para pegar a medalha de bronze e Ricker foi liberada do hospital na noite de sexta-feira.

Especialistas em esportes americanos inevitavelmente vão eviscerar Jacobellis por sua tolice, mas os radicais do esporte provavelmente vão apoiá-la, ao menos por sua espontaneidade. Aí está a diferença, ainda visível, entre os esportes extremos e os do grande público. Vencer é importante para o esquiador de snowboard. Mas o desempenho é igualmente importante. Apesar de todas as medalhas e endossos, o snowboard continua sendo um esporte baseado em risco radical.

"Se foi levada pelo momento, o que fazer?" disse Foley. "E se as pessoas acham que isso é grande coisa, ainda não entendem o sentido do snowboard." Lindsey Jacobellis liderava a final do snowboardcross com folga quando resolveu fazer uma manobra radical desnecessária e caiu Deborah Weinberg

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