UOL Notícias Internacional
 

19/02/2006

Executivos americanos recebem pagamentos obscenos

The New York Times
Gretchen Morgensom
Em Nova York
Todo mundo sabe que os honorários dos executivos de muitas companhias são obscenos. O que nem todo mundo sabe é quão obscenos eles são hoje.

Alguns acionistas têm uma idéia melhor do que a maioria, é claro. Considere os proprietários da Analog Devices, uma fábrica de semicondutores em Norwood, Massachusetts. Os que se deram o trabalho de ler o informativo da empresa, distribuído em 2 de fevereiro, viram em preto no branco que Jerald G. Fishman, seu principal executivo, encostou seu caminhão na sede da empresa no final do ano passado e carregou os US$ 144,7 milhões (cerca de R$ 320 milhões) que lhe deviam em honorários diferidos [adiados].

Adotando uma prática generalizada na América corporativa --e que a Comissão de Valores e Câmbio (SEC na sigla em inglês) pretende mudar em breve--, a empresa não havia divulgado anteriormente o saldo de honorários diferidos de Fishman conforme ele crescia a cada ano.

A revelação que chocou os acionistas da Analog Devices é conhecida no mundo executivo como o momento da "p.q.p!" --aquele instante eletrizante em que os acionistas ficam sabendo quanto de seu dinheiro está sendo sugado pelos chefes da empresa. A SEC quer que os acionistas recebam detalhes precisos de quanto os honorários diferidos estão crescendo no escuro, no porão de suas companhias, e propôs novas regras que obrigarão as empresas a esclarecer os saldos acumulados pelos executivos.

A Analog Devices merece uma medalha de ouro por revelar os honorários diferidos de seus executivos e diretores antes que os reguladores exigissem. Maria C. Tagliaferro, uma porta-voz da companhia, disse que esta fez a revelação porque quis ser completamente transparente para seus acionistas.

Mas a Analog Devices também está no meio de uma questão que foi iniciada no final de 2004 pela SEC sobre suas práticas de remuneração --especificamente, o momento da concessão de opções de ações da empresa a seus funcionários, executivos e diretores. Parece que em novembro de 1999 e em novembro de 2000 a empresa pode ter feito cessões pouco antes de divulgar seus relatórios financeiros favoráveis; ela também pode ter concedido opções nas datas erradas em 1998, 1999 e 2001.

Embora não tenha sido anunciado um acordo, a Analog Devices disse em seu informativo que espera resolver a questão pagando uma multa de US$ 3 milhões (cerca de R$ 6,3 milhões). Pela proposta de acordo, Fishman pagaria US$ 1 milhão (cerca de R$ 2,1 milhões) e faria um pagamento não especificado em devolução. Como é hábito, a companhia e seus executivos fariam o acerto sem admitir ou negar infrações.

As opções de ações também influíram nos US$ 144,7 milhões que Fishman levou da companhia no ano passado, uma montanha de dinheiro que é notável não apenas por seu tamanho, mas também pelo que incluía.

Segundo o informativo da Analog Devices, os US$ 144,7 bilhões incluiriam ganhos sobre opções de ações que ele exerceu entre 1997 e 2003. Isso é incomum; salários e bônus são o tipo de remuneração que geralmente as companhias permitem que seus executivos recebam com diferimento.

De fato, um estudo das 96 maiores companhias de capital aberto dos EUA realizado no último outono pela firma de análises Equilar Inc., de San Mateo, Califórnia, descobriu que 75 ofereciam acordos de diferimento para seus executivos. Destas, somente dez permitiam diferimento de opções de ações.

O programa de remuneração diferida da Analog Devices é notável por outro motivo: os juros acima do mercado que Fishman e outros executivos da Analog receberam sobre os pagamentos que eles preferiram adiar.

O informativo esclareceu que os juros pagos aos executivos da Analog Devices no ano fiscal de 2005 foram de 6,48% --bem acima da taxa média de longo prazo de 4,64% que os títulos do Tesouro americano pagaram no ano passado. Essa taxa simpática ajudou Fishman a ganhar US$ 8,7 milhões (cerca de R$ 18,5 milhões) no ano passado em juros sobre seu saldo de pagamentos diferidos. Os juros gerados por outros quatro altos executivos da Analog somaram US$ 5,6 milhões (cerca de R$ 11,9 milhões); três diretores também ganharam US$ 59 mil (cerca de R$ 125 mil) em juros sobre seus honorários adiados no ano passado.

Tagliaferro disse que a taxa de juros paga pela empresa se baseia no custo que a mesma paga para tomar dinheiro emprestado. A taxa é analisada pelo comitê de honorários da companhia e aprovada por todo o conselho diretor.

Itzhak Sharav, um professor adjunto de contabilidade da Escola de Economia de Columbia, disse que os juros acima do mercado pagos pela Analog são problemáticos do ponto de vista dos acionistas. "Na medida em que ela paga juros acima do mercado, alguém tem de pagar por isso, alguém sofre", ele disse. "E são os acionistas."

Tagliaferro defendeu a remuneração diferida de Fishman dizendo que ela reflete o aumento do preço das ações da Analog nos 11 anos em que seus milhões se multiplicaram, a partir de 1995.

"A Analog Devices não é um exemplo de ganância corporativa", ela disse. "Acho que a empresa demonstrou que conseguimos equiparar os honorários de nossos executivos ao mesmo sucesso que os acionistas terão e que nossos funcionários têm quando atingimos essas metas."

A Analog Devices certamente produziu ganhos para os felizardos que detiveram suas ações desde o início de 1995. De lá até o final do ano passado as ações subiram numa porcentagem anual média de 18,1%. O Índice de Semicondutores da Filadélfia aumentou apenas 12,1% ao ano nesse período.

Nos últimos cinco anos, porém, a situação mudou. A Analog Devices perdeu 6,55% ao ano, contra um declínio de 3,38% do índice.

Ao calcular o pagamento total de Fishman, o comitê de honorários da Analog disse que levou em conta sua "forte liderança ao conduzir a ADI pela recessão na indústria de semicondutores, sua posição como executivo líder na indústria de semicondutores e o desempenho da ADI no último ano fiscal em relação às empresas do setor".

Quanto a equiparar o pagamento ao desempenho, o comitê disse que o bônus de Fishman foi calculado com base no lucro operacional da empresa antes dos impostos como porcentagem de sua receita.

Mas a companhia também excluiu custos de reestruturação do número usado para calcular o bônus. Pena que os retornos dos acionistas não possam ser ajustados de maneira semelhante para excluir os custos de reestruturação que suas companhias assumem.

Fishman decidiu devolver as opções que seu conselho havia planejado lhe dar em 2006. Talvez ele tenha concluído que seus US$ 144,7 milhões em honorários atrasados, seu salário de US$ 931 mil (cerca de R$ 1,9 milhão), seu bônus de US$ 414 mil (cerca de R$ 877 mil), suas 400 mil opções ao preço de venda de US$ 37,70 (cerca de R$ 80) cada e outros US$ 2,85 milhões (cerca de R$ 6 milhões) que ele recebeu pelo exercício de 95 mil opções em 2005 são suficientes para alimentar e vestir sua família.

Como os acionistas estão percebendo, a remuneração de executivos hoje é como o iceberg que afundou o Titanic: assustador na superfície, mas muito mais assustador abaixo dela. Salários altíssimos são definidos em sigilo, sem conhecimento de acionistas Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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