UOL Notícias Internacional
 

19/02/2006

Hamas e Abbas entram em choque em torno do caminho para os palestinos

The New York Times
Steven Erlanger e Greg Myre*
Em Ramallah, Cisjordânia
Um novo Parlamento palestino dominado pelo grupo militante Hamas foi empossado aqui no sábado, e, imediatamente, o presidente Mahmoud Abbas e os legisladores do Hamas entraram em rota de colisão em torno da necessidade de cumprir os acordos existentes com Israel e da condução das negociações para o estabelecimento de um Estado palestino.

Em um discurso em sua sede presidencial aqui, onde alguns legisladores se reuniram para a posse, Abbas alertou o novo Legislativo de que não pode desonrar acordos e compromissos assumidos pela liderança palestina desde o final dos anos 80.

AFP/Pedro Ugarte - 18.fev.2006 
O presidente palestino, Mahmoud Abbas, durante posse do novo Parlamento neste sábado

"Para se chegar a uma solução pacífica e justa, nós devemos retomar as negociações de acordo com as iniciativas árabes e internacionais", disse Abbas.

Mas na Cidade de Gaza, onde se reuniu o restante do Legislativo devido a Israel não ter autorizado que os legisladores viajassem até a Cisjordânia, os líderes do Hamas deixaram prontamente sua oposição clara.

"Há muitos pontos de desacordo", disse Ismail Haniya, um alto líder do Hamas que deverá se tornar o candidato do grupo ao cargo de primeiro-ministro. Abbas "foi eleito segundo seu programa e nós fomos eleitos segundo um programa diferente".

A sessão foi conectada por um link de videoconferência, algo que tem se tornado a norma para o Parlamento palestino nos últimos anos.

Mas a divisão geográfica também reflete as diferenças políticas internas palestinas. Ramallah é uma fortaleza do partido Fatah de Abbas e tem sido o centro da política palestina nos últimos anos, especialmente quando Iasser Arafat ficou confinado ao seu complexo daqui por três anos, até sua morte em 2004.

Do outro lado, a liderança do Hamas, e o maior apoio ao grupo, se encontra em Gaza. Com a probabilidade de Israel aumentar as restrições de viagem aos palestinos, a política palestina terá que ser conduzida à longa distância pelo futuro próximo.

O Gabinete israelense tem agendada uma sessão para o domingo e deverá impor restrições adicionais em resposta à posse do Hamas no Legislativo. As medidas provavelmente incluirão a retenção da receita dos impostos cobrados por Israel em nome dos palestinos e a proibição da entrada dos palestinos em Israel para trabalhar, ou viajarem entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

Israel e os Estados Unidos consideram o Hamas uma organização terrorista. Ele sempre se recusou a reconhecer Israel e tem realizado dezenas de atentados a bomba suicidas.

O Hamas também terá que lidar com Abbas e seu derrotado movimento Fatah, porque parecem dispostos a impedir que o Hamas reverta políticas antigas na Autoridade Palestina.

Abbas passou grande parte de seu discurso recontando a história das resoluções da ONU e dos planos de paz internacionais que pedem por negociações de um acordo de paz abrangente e a criação de um Estado palestino vizinho a Israel.

Em particular, ele citou os acordos de Oslo de 1993, um acordo interino com Israel que serviu de base para as negociações que fracassaram após o levante palestino iniciado em 2000.

"Nós aceitamos e respeitamos o direito de cada indivíduo, grupo ou facção política de expressar suas objeções aos acordos de Oslo, mas não aceitamos e nem aceitaremos qualquer questionamento da legitimidade dos acordos", disse Abbas. "De fato, desde o momento em que os acordos foram endossados, eles se tornaram parte da realidade à qual devemos nos manter comprometidos."

O Hamas disse que os anos de negociações entre Israel e a Autoridade Palestina foram fúteis. Ele em geral tem acatado a trégua do último ano, mas diz que não baixará suas armas.

O grupo militante conquistou 74 das 132 cadeiras nas eleições de 25 de janeiro, obtendo o comando da política palestina e enfraquecendo Abbas.

Mas Abbas permanece no cargo e ainda possui uma série de poderes. O primeiro grande confronto poderá ocorrer nas próximas semanas, quando o Hamas apresentar o novo governo para aprovação do presidente. Se Abbas rejeitar o novo primeiro-ministro e seu Gabinete, isto poderá provocar um impasse.

Ainda não está totalmente claro como tal confronto seria resolvido, porque o cargo de primeiro-ministro foi criado há apenas três anos e a Lei Básica palestina, que na prática atua como uma Constituição, não fornece instruções detalhadas.

Rawhi Fattouh, o presidente de saída do Parlamento, disse que a sessão parlamentar de sábado deixou claras as linhas de combate.

"Este é o ponto mais crítico em nossas relações", disse Fattouh, um membro do Fatah, em Ramallah. "A crise já teve início na esfera política."

Haniya e outros líderes do Hamas disseram acreditar que podem trabalhar com Abbas para resolver as diferenças.

Após a posse do novo Parlamento, Abbas pediu ao Hamas para que formasse o novo governo. "Da minha parte, vocês encontrarão toda a cooperação e encorajamento que precisarem", ele disse, "porque nosso interesse nacional é nossa meta principal e final e está acima de qualquer facção individual".

Mas ele também disse: "Nós, como presidência e governo, manteremos nosso compromisso com o processo de negociação como a única opção estratégica, política e pragmática pela qual colheremos o fruto de nossa luta e sacrifícios ao longo de décadas".

O Hamas tem três semanas para formar um governo, apesar do período poder ser prorrogado em mais duas semanas. Os líderes do Hamas também já indicaram que poderão apresentar uma iniciativa que pediria por uma trégua de longo prazo com Israel caso se retire do território capturado na guerra entre árabes e israelenses de 1967.

Mas Israel tem dito que o Hamas deve reconhecer Israel, renunciar a violência e aceitar os acordos existentes antes que as conversas possam ter início, prometendo considerar a Autoridade Palestina como "hostil" caso o grupo não aceite todas as três condições.

Abbas buscou apelar para Israel dizendo: "Nós temos certeza de que não há solução militar para este conflito".

"Há um parceiro palestino pronto para se sentar com Israel na mesa de negociação", acrescentou Abbas. Mas ele também culpou as ações unilaterais de Israel, como a construção de uma barreira de separação na Cisjordânia e a continuidade da expansão de alguns assentamentos judeus ali, por minarem os esforços de paz.

Apesar dos pedidos de Abbas de retomada das negociações, não há progresso. Israel tem dito que a Autoridade Palestina deve desbaratar todas as facções armadas, como especificado no dormente plano de paz.

O Hamas diz que a abordagem de Abbas não resultou em nenhum ganho e deve ser abandonada.

*Reportagem de Steven Erlanger, em Ramallah; Greg Myre, na Cidade de Gaza. O grupo extremista tomou posse no novo Parlamento palestino George El Khouri Andolfato

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