UOL Notícias Internacional
 

21/02/2006

Autoridades investigam se a Alemanha ajudou na prisão e tortura de alemão inocente

The New York Times
Don Van Natta Jr.*

Em Munique, Alemanha
Por mais de um ano, o governo da Alemanha tem criticado os Estados Unidos por seu papel na abdução de um alemão que foi levado para uma prisão americana em Cabul, Afeganistão, onde ele disse que foi mantido e torturado por cinco meses após ter sido confundido com um suspeito de terrorismo. As autoridades alemãs disseram não saber de nada sobre a abdução do homem e pressionaram repetidamente Washington por informações sobre o caso, que provocou ultraje aqui. Em um encontro em Berlim em dezembro, a chanceler Angela Merkel da Alemanha exigiu uma explicação da secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, sobre o incidente.

Dieter Mayr/The New York Times - 16.dez.2004 
Khaled el-Masri com a família; o alemão de origem árabe foi confundido com terrorista e ficou preso no Afeganistão
Mas nesta segunda-feira (20/02), em Neu-Ulm, perto de Munique, a polícia e os promotores abriram uma investigação sobre se a Alemanha serviu como parceira silenciosa dos Estados Unidos na abdução do homem, Khaled El Masri, um cidadão alemão descendente de árabes que foi preso na véspera de Ano Novo de 2003 na Macedônia, antes de ser levado para a prisão em Cabul.

A ação ocorreu após um encontro de duas horas e meia na sede da polícia, onde Masri disse que tinha "90%" de certeza de que um alto oficial policial alemão foi o interrogador que o visitou três vezes dentro da prisão em Cabul, identificando-se apenas como "Sam".

Os promotores alemães disseram na segunda-feira que também estavam investigando se a embaixada alemã em Skopje, Macedônia, foi notificada sobre o seqüestro de Masri dias após sua captura lá, não fazendo nada para tentar ajudá-lo.

O caso de Masri passou a simbolizar a prática da CIA conhecida como rendição extraordinária, na qual suspeitos de terrorismo são enviados para interrogatório em outros países onde a tortura costuma ser usada. Ao ampliar sua investigação criminal da abdução de Masri para incluir as atividades de seu próprio governo, os promotores alemães estão tentando determinar se o governo alemão trabalhou secretamente com os Estados Unidos na prática.

"Eu me sinto enganado e traído pelo meu próprio país", disse Masri, um vendedor de carros desempregado de 42 anos de Neu-Ulm, em uma entrevista.

O policial alemão identificado como "Sam" negou ter visitado Masri no Afeganistão e disse que estava "em férias" na época na Alemanha, mas que não conseguia se lembrar exatamente onde. O homem esteve presente na sede da polícia na segunda-feira, onde Masri o apontou em uma fila de 10 pessoas. Após falar com ele, Masri disse que a voz dele era semelhante, mas o corte de cabelo estava diferente.

Martin Hofmann, um promotor de Munique, disse na segunda-feira que seu gabinete não "presumirá que este homem é Sam" mas "prosseguirá com a investigação".

Um alto funcionário alemão familiarizado com o caso disse que Masri estava "equivocado" e que o policial "não pode ser Sam".

O New York Times não divulgará o nome do policial a pedido dos serviços de inteligência da Alemanha porque ele freqüentemente realiza trabalho de inteligência secreto. Ele freqüentemente recebe tarefas "sensíveis" e ajuda a limpar o "trabalho sujo" para o serviço de inteligência estrangeira alemão, disse um colega dele de longa data, que falou sob a condição de anonimato.

Um alto funcionário do governo macedônio que esteve diretamente envolvido na detenção de Masri, disse ao "Times" que, pouco depois da captura de Masri, as autoridades macedônias notificaram a embaixada alemã em Skopje. Agentes da CIA na Macedônia realizaram o interrogatório de Masri, segundo as autoridades macedônias.

August Stern, o promotor federal baseado em Munique que está liderando a investigação criminal alemã do seqüestro de Masri, disse que seus investigadores estão tentando determinar se a embaixada alemã foi avisada sobre a captura de Masri e então enviou um agente alemão para a prisão americana em Cabul para entrevistá-lo. Stern e outros policiais e promotores disseram que tentarão entrevistar os funcionários da embaixada alemã na Skopje nas próximas semanas.

August Hanning, secretário de Estado do Ministério do Interior, negou em uma entrevista que qualquer membro dos serviços secretos da Alemanha tenha visitado Masri enquanto era mantido prisioneiro. "Ele nunca esteve no Afeganistão", disse Hanning sobre o policial alemão.

Dois altos funcionários alemãos, que falaram sob a condição de anonimato devido à natureza sensível do caso, negaram que a embaixada alemã em Skopje foi avisada da captura de Masri. "A embaixada alemã em Skopje não foi informada pelas autoridades macedônias enquanto o cidadão alemão El Masri estava sob custódia na Macedônia", disse um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.

Um segundo funcionário disse que a Alemanha só soube da detenção de Masri em 31 de maio de 2004, quando o embaixador americano na Alemanha na época, Daniel Coats, informou as autoridades alemãs sobre a captura e libertação de Masri.

"Segundo nossa investigação, eu estou convencido de que as autoridades alemãs não tinham qualquer conhecimento antes da libertação dele", disse o funcionário.

Mais adiante nesta semana, o governo alemão deverá entregar um relatório ao Parlamento sobre o caso de Masri.

Enquanto isso, os investigadores do Conselho da Europa, liderado por Dick Marty, um legislador suíço, estão investigando se houve uma cooperação silenciosa entre a CIA e seus pares nos países europeus, incluindo Alemanha, Itália e Suécia, onde suspeitos de terrorismo foram seqüestrados e enviados para outros países para interrogatórios.

Em junho, as autoridades na Itália acusaram 23 agentes da CIA pela abdução de um suspeito de terrorismo nas ruas de Milão. As autoridades do governo italiano insistem que não sabiam do procedimento, mas algumas autoridades eleitas na Itália disseram que os americanos devem ter passado o serviço para seus pares na agência de inteligência italiana.

As autoridades européias têm sido altamente críticas do programa de rendição da CIA. Em particular, as autoridades alemãs têm censurado os Estados Unidos por terem participado na abdução de um de seus cidadãos e o transportado para o Afeganistão em um avião fretado da CIA.

"Eu não tenho nenhuma explicação para o caso", disse um alto funcionário alemão. "Levar um homem como El Masri da Europa para o Afeganistão para ser interrogado e, seis meses depois, vir a explicação de que foi um erro terrível não é muito convincente. Para mim ainda há muitas perguntas."

Manfred R. Gnjidic, o advogado de Masri, disse estar convencido de que a Alemanha "ficou assistindo como um garotinho de escola o que estava acontecendo com meu cliente sem fazer nada". Após mais de cinco meses em cativeiro, os Estados Unidos libertaram Masri sem impetrar acusações. Seu caso foi revelado pelo NYT em janeiro de 2005.

Em um encontro em Berlim, em dezembro passado, entre a chanceler alemã e a secretária Rice, o seqüestro de Masri foi discutido privativamente mas posteriormente as duas pareciam discordar sobre o conteúdo da conversa.

Merkel disse que o governo Bush reconheceu que abduziu erroneamente Masri. Mas Rice se recusou a discutir com os repórteres qualquer coisa sobre o caso. Ela disse apenas que prometeu a Merkel: "Quando e se erros são cometidos, nós trabalhamos árdua e o mais rapidamente possível para corrigi-los".

Em Washington, um alto funcionário do Departamento de Estado disse na segunda-feira que o departamento não comentará o caso de Masri, notando que é uma questão de litígio tanto na Alemanha quanto nos Estados Unidos.

No final de 2003, Masri deixou sua família em Neu-Ulm para uma viagem à Macedônia. Autoridades alemãs e macedônias disseram que Masri foi preso em um posto de fronteira em 31 de dezembro de 2003, porque seu nome estava em uma lista de suspeitos de terror da Interpol. Mas ele disse que o nome era de outro Khaled El Masri.

Masri foi mantido em um hotel próximo na Macedônia por várias semanas, onde foi interrogado pela CIA, segundo altos funcionários macedônios e americanos. Um alto funcionário macedônio disse que a embaixada alemã foi notificada sobre Masri dias após sua captura. "Não oficialmente, eles sabiam", disse o funcionário sobre os alemães.

Um porta-voz da CIA se recusou a comentar.

Dois altos funcionários macedônios disseram que os americanos pediram a detenção de Masri na Macedônia por 23 dias. "Nós consideramos os americaos como nossos aliados", disse um alto funcionário macedônio. "Nós não podemos recusar um pedido deles."

Masri disse implorou para que seus captores o soltassem. "Liguem para a embaixada alemã", Masri lembrou de ter dito repetidas vezes. "Sou um cidadão alemão; por favor, avisem eles que estou aqui!"

"Eles não querem conversar com você", Masri disse que um de seus captores respondeu.

Em uma recente entrevista, disse Masri, "eu achei estranho ficarem me dizendo que os alemães não se importavam comigo. Agora eu sei por que diziam aquilo -porque era verdade".

No hotel, disse Masri, ele foi perguntado se era membro da Al Qaeda. Mas ele ficou impressionado com as muitas perguntas feitas sobre seu tempo na Alemanha. Masri disse que as perguntas o levaram a suspeitar que os alemães estavam cooperando com os macedônios.

Uma autoridade alemã contestou tal afirmação, dizendo que a Alemanha freqüentemente compartilhava informação com seus pares americanos sobre suspeitos de terrorismo. Mas a autoridade reconheceu que Masri não era considerado um suspeito "importante" pela polícia alemã.

Publicamente, a Macedônia tem negado que Masri foi detido ilegalmente. "Não há nada que o ministério tenha feito ilegalmente", disse Hari Kostiv, o ministro do Interior na época e posteriormente primeiro-ministro, em uma entrevista. "O homem está vivo e de volta para casa com sua família. Alguém cometeu um erro. Tal alguém não foi a Macedônia."

No final de janeiro de 2004, Masri foi enviado ao Afeganistão, onde disse que ficou preso e foi espancado por cinco meses.

Para Masri, um dos maiores mistérios era a identidade do interrogador que se identificava como "Sam", que falava alemão fluentemente. O homem o visitou três vezes durante o último mês de Masri na prisão em Cabul.

Durante o primeiro encontro entre eles, Masri disse que perguntou ao homem se era da Alemanha, mas o homem se recusou a responder. Masri lembrou de ter perguntado: "Os alemães sabem que estou aqui?"

"Ele disse que não queria responder", lembrou Masri. "Eu lhe perguntei se minha esposa sabia que eu estava lá. Sam disse que ela não sabia. Ele então disse que eu não devia fazer perguntas, apenas respondê-las."

Durante o segundo encontro entre eles, o homem não estava mais beligerante, disse Masri, lhe trazendo biscoitos, chocolates e uma cópia da revista alemã "Focus". O homem também perguntou se Masri queria "algo da Alemanha".

"Eu disse: 'Nada, obrigado'", lembrou Masri.

No último encontro entre eles, uma semana antes da libertação de Masri, o homem lhe disse que ele retornaria para casa em breve. A última vez que Masri viu "Sam", o interrogador estava falando com um homem que ele acreditava ser americano. Logo depois, Masri foi libertado.

Em 12 de dezembro de 2005, Gnjidic, o advogado de Masri, recebeu um e-mail de um jornalista alemão chamado Frank Kruger, que sugeriu que "Sam" poderia ser um policial alemão. No início deste mês, Gnjidic disse que obteve uma fita de vídeo do policial que convenceu Masri de que se tratava de Sam. Hoje, após encontrar o homem na sede da polícia, Masri disse ter 90% de certeza de que o policial era Sam.

"O homem estava muito nervoso e não conseguia me olhar nos olhos", disse Masri. "O cabelo está diferente, mas a voz soava muito semelhante."

Masri acrescentou: "Para mim, é muito importante sabermos quem era aquele homem."

Gnjidic disse achar difícil de acreditar que fora os promotores em Munique, ninguém no governo alemão tenha pedido o depoimento de Masri sobre sua provação. "O escândalo para mim é os alemães não terem feito nada quando souberam que um alemão tinha sido capturado", ele disse. "Eles deveriam ter protestado seriamente e tentado impedir aquilo."

*Reportagem de Don Van Natta Jr, em Munique; Souad Mekhennet, em Neu-Ulm e Munique; e Nicholas Wood, em Skopje, Macedônia; e artigo escrito por Van Natta Jr. Cidadão do país foi confundido com terrorista e enviado para Cabul George El Khouri Andolfato

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