UOL Notícias Internacional
 

21/02/2006

Carreira de lobista ajuda governador do Mississipi a conseguir verbas para reconstrução

The New York Times
James Dao

Em Jackson, Mississipi
Parece difícil imaginar que na era de Jack Abramoff, o fato de ser um ex-lobista seja um fator positivo para um político. Mas a valentia amigável do governador do Mississipi, Haley Barbour, um republicano que é uma figura lendária na Rua K, a grande central de fofocas de Washington, mostrou ter valor inestimável neste Estado devastado pelo furacão Katrina.

Em meados de dezembro, enquanto o Congresso se apressava para entrar no seu recesso de Natal, empacaram as negociações em torno de verbas multibilionárias para ajudar as vítimas do furacão Katrina aqui e na Louisiana. Os ânimos ficaram exaltados à medida que os conservadores na Câmara reclamavam dos custos. Era um impasse clássico, algo na medida para um lobista experiente.

Foi aí que entrou Barbour, um homem enérgico, cujo sotaque suava do delta do Rio Mississipi e as suas maneiras sulistas mascaram a sua forma cortante de abordar a política.

Em uma reunião privada que teve início em 16 de dezembro, e que se estendeu até bem depois da meia-noite, o líder da maioria na Câmara, J. Dennis Hastert, e o deputado Roy Blunt, republicano por Missouri, questionaram Barbour sobre o pacote.

O fato de as respostas de Barbour terem sido curtas e diretas pode ter ajudado. Mas provavelmente também foi benéfico o fato de Barbour, como presidente do Comitê Nacional Republicano na década de 1990, e mais tarde um lobista importante, ter arrecadado centenas de milhares de dólares para as campanhas de Hastert e outros deputados republicanos.

De qualquer forma, o impasse foi superado, e a Câmara concordou com a cifra mais elevada, aprovada pelo Senado, de US$ 29 bilhões. No decorrer do processo, Barbour ajudou a assegurar que o Mississipi conseguiria quase tanto dinheiro para moradias quanto a Louisiana, ainda que o seu Estado tivesse sofrido menos danos.

"Foi Haley que fechou o negócio", disse um congressista democrata envolvido nas negociações orçamentárias.

Os democratas ridicularizaram Barbour durante a campanha pelo governo do Mississipi em 2003, afirmando que ele era um fantoche controlado pelas indústrias do tabaco, dos produtos farmacêuticos e outras. Mais tarde, ele foi altamente criticado por ter descrito a resposta do governo Bush ao furacão Katrina como "fabulosa". E muita gente estranhou quando a AshBritt, uma companhia da Flórida que já foi cliente da firma de lobby de Barbour, ganhou um grande contrato federal para retirar os destroços deixados pela tempestade.

Mas Barbour jamais se desculpou pela sua experiência no setor de lobby, ou pelos seus vínculos com o governo federal, afirmando que as conexões com Washington só ajudariam um dos Estados mais pobres do país.

Segundo Barbour, o furacão Katrina provou que ele estava certo. "É óbvio que as minhas experiências e relacionamentos dos últimos 35 anos me ajudaram a ajudar o Estado em um momento no qual esta ajuda era mais necessária do que nunca", disse ele em uma entrevista.

Os democratas estão céticos. Embora eles elogiem a resposta de Barbour ao furacão, dizem que tal resposta parece ser brilhante devido ao fato de ser comparada ao trabalho pífio feito pelas autoridades da Louisiana, Estado que sofreu uma devastação bem maior. Eles dizem ainda que Barbour está longe de ser a única autoridade que traz dinheiro para o Mississipi.

"O verdadeiro herói nisto tudo é Thad Cochran", diz o deputado Gene Taylor, um democrata que representa a região do Estado localizada na Costa do Golfo, referindo-se ao republicano do Mississipi que chefiou o Comitê de Alocações do Senado. "Que a verdade seja dita. Se você é o presidente do Comitê de Alocações, você é o homem".

Muita gente no Mississipi argumenta que o pacote negociado por Barbour não é suficiente para os locatários de residências de baixa renda. O cerne desse pacote é uma quantia de US$ 5 bilhões para proprietários de residências no Mississipi que moravam na área da planície inundada e cujas casas foram destruídas pelas inundações.

Barbour disse que uma das suas prioridades seria usar créditos fiscais e outros incentivos para encorajar a construção de casas de preços acessíveis próximas à costa.

Mas mesmos os críticos de Barbour dizem que o seu destino político foi fortalecido pelo palco de âmbito nacional que o furacão Katrina lhe proporcionou. Nos dias que se seguiram à tempestade, o governador e a sua mulher, Marsha, eram presenças constantes na costa e nas redes de televisão nacionais. Ele foi aplaudido por nomear uma comissão de reconstrução logo após a tempestade, e o seu papel na remessa de bilhões de dólares para o Estado foi bastante divulgado no Mississipi.

W. Martin Wiseman, diretor do Instituto John C. Stennis de Governo, da Universidade Estadual do Mississipi, diz que os índices de aprovação popular de Barbour nas pesquisas de opinião haviam caído para abaixo dos 40 pontos percentuais depois que ele tentou retirar 48 mil indivíduos idosos e deficientes de baixa renda do sistema Medicaid, mas que esses números saltaram para mais de 50 pontos percentuais após o furacão Katrina.

"Antes da tempestade, éramos criticados por eleger um lobista altamente conhecido e bem pago de Washington para o governo do Estado", conta Wiseman. "Mas agora todo mundo está satisfeito com isso".

No seu escritório no 15º andar de um prédio que fica acima da cúpula da Assembléia Estadual do Mississipi, Barbour tem uma grande fotografia da massa espiralada do furacão Katrina, tirada por satélite, rumando para a costa do Mississipi, como um lembrete da força avassaladora da tempestade.

Mas, na mesma sala, Barbour conta com um lembrete de uma força de uma natureza bem diferente: uma série de fotos que mostram o vice-presidente Dick Cheney fazendo campanha para ele em 2003.

Anos antes de Abramoff se tornar o lobista republicano bem relacionado da forma mais infame desta era, Barbour foi o homem importante em Washington. Na década de 1980, ele foi diretor político do presidente Ronald Reagan. Barbour foi presidente do Comitê Nacional Republicano de 1993 a 1997, tendo ajudado Newt Gingrich a bolar a campanha de 1994 que pôs um fim às décadas de controle democrata na Câmara.

De 1997 a 2003, a sua firma de lobby republicana, a Barbour Griffith & Rogers, tida como a mais poderosa e lucrativa de Washington, tendo arrecadado US$ 13 milhões em 2003, segundo a "Influence", uma revista que registra as tendências do setor de lobby. Entre os clientes de Barbour estavam a Microsoft, a BellSouth, a CBS e uma série de companhias dos setores de energia, farmacêutico e de tabaco.

Como lobista, Barbour era peça vital como arrecadador de verbas, posição estratégica para os republicanos. Ele organizou uma festa que arrecadou US$ 100 mil para o comitê de ação política de Hastert, logo após este ter sido eleito líder da maioria em 1999. Ele também atuou como um dos assessores da maior confiança de Hastert.

Barbour desempenhou um papel similar assessorando e arrecadando verbas para George W. Bush quando este disputou a presidência em 2000. Atualmente, Bush chama Barbour de "meu amigo". Barbour costuma chamar o presidente de "Junior".

Imediatamente após o furacão Katrina, Barbour colocou a sua rede de influência para funcionar. Desde o princípio, uma fé republicana pareceu guiar a sua abordagem e, ao contrário das autoridades de Louisiana, ele evitou criticar o governo Bush, tendo apresentado o seu Estado como autoconfiante.

Quando a delegação parlamentar da Louisiana propôs um pacote de ajuda de US$ 250 bilhões, que foi alvo de gozações, Barbour pediu a comparativamente modesta quantia de US$ 35 bilhões.

"Depois que a Louisiana pediu US$ 250 bilhões, todos no Congresso acharam que o meu pedido era razoável", diz Barbour.

Ele se concentrou em persuadir os conservadores na Câmara, que estavam preocupados não só com o custo do pacote, mas também com o precedente que isso representaria ao se utilizar dinheiro federal para ajudar proprietários de residências que não tinham seguro contra inundações.

Sentindo-se confortável com detalhes políticos misteriosos, Barbour argumentou que o governo federal teria o dever de ajudar o povo da planície inundada, porque estas pessoas confiaram nos mapas federais ao decidirem não fazer seguro contra inundações.

"É fácil convencer aqueles que já estão convencidos", diz o deputado Bobby Jindal, republicano pela Louisiana. "É muito mais difícil convencer os céticos. E ele tem muito impacto junto a estas pessoas".

Começando em 12 de dezembro, Barbour montou uma base no Congresso, no gabinete de Cochran, tendo visitado parlamentares e presidentes de comitês. Mas quando os negociadores da Câmara se recusaram a ampliar o valor da verba que haviam combinado, cerca de US$ 23 bilhões, mesmo após Cochran reduzir o seu pedido de US$ 35 bilhões para US$ 29 bilhões, Barbour recorreu diretamente a Hastert para conseguir ajuda. E a tática funcionou.

"Não sabemos o que se falou naquela sessão", diz um funcionário parlamentar democrata, referendo-se à reunião entre Barbour e Hastert em 16 de dezembro. "Mas o que quer que tenha sido falado, funcionou". O parlamentar não quis ter o seu nome divulgado, já que não tem autorização para falar publicamente.

Após a superação do impasse, Barbour usou a sua influência para modelar a quantia. Embora o pedido original de Cochran por US$ 13 bilhões em doações parceladas tivesse sido reduzido para US$ 11,5 bilhões, Barbour e Cochran se asseguraram de que a parcela destinada ao Mississipi permaneceria mais ou menos a mesma: mais de US$ 5 bilhões. Eles conseguiram isso estabelecer um teto de 54% para a porção da Louisiana, de cerca de US$ 6,2 bilhões.

Esse limite enfureceu os democratas da Louisiana, que argumentaram que o seu Estado teve um número de casas destruídas três vezes maior do que o Mississipi. Eles elogiaram publicamente Barbour por ter contribuído para a aprovação do pacote, mas reservadamente ficaram furiosos com o fato de sua governadora, Kathleen Babineaux Blanco, uma democrata, ter siso desprezada pela Casa Branca, e tratada de forma bem mais ríspida nas audiências sobre o furacão, lideradas pelos parlamentares republicanos.

(Na quinta-feira passada o presidente Bush enviou ao Congresso um pedido de US$ 19,8 bilhões em auxílio adicional para a Costa do Golfo, que inclui US$ 4,2 bilhões para a reconstrução ou a compra de casas altamente danificadas na Louisiana. Autoridades estaduais disseram que o dinheiro compensará a parcela desproporcional recebida pelo Mississipi no ano passado).

Apesar de todos os elogios recebidos por Barbour, o furacão Katrina pode ter reduzido as suas ambições políticas. Outrora mencionado como um possível candidato a presidente em 2008, ele agora diz que está muito ocupado com a reconstrução do Mississipi para se concentrar em uma campanha nacional. Em fevereiro, ele jurou que não disputará a presidência em 2008, e declarou a sua intenção de tentar a reeleição em 2007.

Na entrevista, Barbour disse que o furacão proporcionou uma oportunidade para reconstruir de forma "maior e melhor". Ele enxerga uma costa revitalizada na qual cassinos, maiores e em maior quantidade, serão o centro de uma economia centrada no turismo, que contará com campos de golfe, complexo hoteleiro e edifícios altos, como aqueles que margeiam a Costa do Golfo na Flórida. Segundo uma legislação promovida por Barbour na Assembléia Legislativa do Estado, os cassinos terão permissão para se expandirem pela costa.

Demonstrando sempre uma inquietude enérgica, Barbour também começou a planejar uma campanha para atrair investidores de outros Estados, enfatizando aquilo que chama de "forma forte, flexível e autoconfiante" como os moradores do Mississipi responderam ao furacão Katrina. E ele está preparando o seu próximo pedido ao Congresso, que incluirá bilhões de dólares para a recuperação dos mangues e ilhas que estão desaparecendo.

"Nenhum de nós previu que enfrentaríamos algo como o Katrina, e que iríamos a Washington pedir algo desta magnitude", explica Barbour. "Mas mesmo durante a campanha em 2003, a população achava que seria bom contar com um governador que compreendesse Washington". Barbour trabalhou no financiamento de campanhas de deputados republicanos que, agora, liberam mais recursos para o seu Estado Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,97
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,99
    64.389,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host