UOL Notícias Internacional
 

23/02/2006

Explosão destrói santuário xiita no Iraque e provoca fúria sectária contra sunitas

The New York Times
Robert F. Worth*

Em Bagdá, Iraque
Uma bomba poderosa destruiu o domo dourado de um dos templos xiitas mais reverenciados do Iraque na manhã desta quarta-feira (22/02), provocando um dia de fúria sectária no qual turbas se formaram por todo o Iraque para cantar por vingança e atacar dezenas de mesquitas sunitas. O atentado, ao templo Askariyah em Samarra, a 100 quilômetros ao norte de Bagdá, não feriu ninguém, mas deixou o famoso domo dourado da mesquita em ruínas.

Reuters - 22.fev.2006 
No santuário de Askariyah, atingido em atentado, foram enterrados profetas descendentes de Maomé
O templo é central para uma das principais crenças do Islã xiita, e o atentado a bomba, dois dias após ataques sangrentos que deixaram dezenas de civis xiitas mortos, provocou uma onda nacional de revolta e pânico que pareceu conduzir o Iraque para mais perto do que nunca de um conflito civil aberto.

Membros de milícias xiitas tomaram as ruas de Bagdá, dispararam granadas propelidas por foguete e metralhadoras contra mesquitas sunitas, enquanto os soldados do exército iraquiano que foram chamados para conter a violência apenas assistiam.

No final do dia, as turbas tinham atacado ou destruído 27 mesquitas sunitas apenas na capital, matando três imãs e seqüestrando um quarto, disseram funcionários do Ministério do Interior. Ao todo, pelo menos 15 pessoas foram mortas em violência relacionada por todo o país.

Milhares de pessoas tomadas por pesar em Samarra lotaram o pátio do templo após o atentado, algumas chorando e beijando as pedras no chão, outras cantando furiosamente: "Nosso sangue e alma nós sacrificamos para vocês, imãs!"

Os principais líderes políticos e religiosos do Iraque emitiram apelos urgentes de calma, e o primeiro-ministro Ibrahim Al Jaafari pediu por um período de três dias de luto em um discurso transmitido pela televisão. O aiatolá Ali Al Sistani, o mais alto clérigo xiita do Iraque, divulgou uma declaração incomumente forte na qual disse: "Se as forças de segurança do governo não podem fornecer a proteção necessária, os crentes o farão".

A maioria dos líderes iraquianos atribuiu o ataque a terroristas dispostos a explorar as tensões sectárias, mas alguns também culparam os Estados Unidos por fracassarem em impedi-lo. Mesmo o líder da principal aliança política xiita do Iraque disse considerar Zalmay Khalilzad, o embaixador americano no Iraque, parcialmente responsável.

O líder xiita, Abdul Aziz Al Hakim, disse que a ameaça velada de Khalilzad, na segunda-feira, de retirar o apoio americano caso os iraquianos não formassem um governo não-sectário ajudou a provocar o atentado.

"Esta declaração deu luz verde para que estes grupos realizassem sua operação, de forma que ele é parcialmente responsável por ela", disse Hakim em uma coletiva de imprensa.

O atentado ao templo ocorreu enquanto os líderes políticos do Iraque continuavam lutando sob forte pressão americana para concordarem nos princípios de um novo governo de unidade nacional. Como em momentos anteriores de transição política daqui, a violência tem crescido durante a incerteza, e os ataques, a maioria contra civis xiitas, pareciam visar especificamente a criação de um maior conflito entre as populações xiita, curda e sunita do Iraque.

Tal esforço teve ao menos um sucesso momentâneo na quarta-feira, com as ruas da capital esvaziadas enquanto os iraquianos corriam para casa, temendo novos ataques de milicianos xiitas ou possíveis represálias de árabes sunitas.

Khalilzad emitiu uma declaração conjunta com o general George Casey, o alto comandante americano no Iraque, na qual condenou o atentado como um "crime contra a humanidade" e prometeu ajuda americana para reconstrução do domo.

Em Washington, o presidente Bush emitiu uma declaração dando os pêsames aos iraquianos pelo atentado. "Os Estados Unidos condenam este ato covarde nos termos mais fortes possíveis", disse Bush. "Eu peço a todos os iraquianos que exerçam moderação após esta tragédia e busquem justiça de acordo com as leis e a Constituição do Iraque."

O clérigo xiita e líder político Muqtada Al Sadr, cujo Exército Mahdi liderou muitos dos protestos violentos na quarta-feira, colocou parte da culpa pelo atentado ao que chamou de "forças de ocupação", mas não deu mais detalhes. Sadr disse para a rede árabe por satélite "Al Jazeera" que estava interrompendo sua visita ao Líbano devido ao atentado.

O ataque em Samarra teve início às 7 horas da manhã, quando uma dúzia de homens vestindo uniformes paramilitares entraram no templo e algemaram quatro guardas que estavam dormindo em um quarto dos fundos, disse um porta-voz do gabinete do governador provincial. Os agressores então colocaram uma bomba no domo e a detonaram, fazendo ruir grande parte da estrutura e danificando muito a parede adjacente.

O templo é um dos quatro grandes templos xiitas no Iraque e local de significado especial, pois dois dos 12 imãs reverenciados pelos xiitas estão enterrados lá: Ali Al Hadi, que morreu em 868 d.C., e seu filho, o 11º imã, Hassan Al Askari. Além disso, segundo a lenda, o 12º imã, Muhammad Al Mahdi, conhecido como o "imã oculto", se encontrava no templo antes de seu desaparecimento.

Estas figuras são importantes para os xiitas iraquianos, cujas tradições há muito foram moldadas pela violência com a seita rival sunita. Em um momento anterior de aumento das tensões, o 10º imã foi forçado a deixar seu lar em Medina pelo poderoso califa sunita em Bagdá e foi enviado para viver em Samarra, onde poderia ser mantido sob maior supervisão. Acredita-se que tanto ele quanto seu filho tenham sido envenenados pelo califa.

Temendo tal perseguição, Muhammed Al Mahdi, que era apenas uma criança quando se tornou o 12º imã, foi escondido em uma caverna, de onde pregou por meio de intermediários por cerca de 70 anos. Então ele teria supostamente entrado no que os xiitas chamam de ocultamento, uma espécie de estado de animação suspensa do qual acreditam que ele retornará antes do Dia do Juízo para promover a justiça durante o período de caos.

Nenhum grupo reivindicou a responsabilidade pelo ataque, mas algumas autoridades iraquianas apontaram rapidamente o dedo para a Al Qaeda na Mesopotâmia, o grupo terrorista que acreditam ser responsável por muitos dos ataques contra civis e mesquitas xiitas nos últimos dois anos.

A população de Samarra é composta na maioria de árabes sunitas e era um santuário para os rebeldes até 2004, quando tropas americanas e iraquianas realizaram uma grande operação para retomar a cidade e a Mesquita Dourada dos guerrilheiros. Mas de lá para cá os rebeldes se infiltraram novamente e os soldados americanos na cidade e arredores têm sido regularmente atacados.

O comércio rapidamente fechou as portas por todo o país tão logo as turbas começaram a encher as ruas. No extremo norte, em Kirkuk, cerca de 1.000 xiitas marcharam nas ruas, cantando slogans contra os Estados Unidos, membros do Partido Baath de Saddam Hussein e os Takfiris, uma palavra usada para descrever militantes islâmicos que condenam outros muçulmanos como infiéis. Manifestações semelhantes ocorreram em Baquba, Najaf, Karbala e outras cidades.

Em Basra, uma cidade xiita no sul, milicianos xiitas danificaram pelo menos duas mesquitas sunitas, matando um imã e lançando um ataque contra o quartel-general do mais conhecido partido político sunita do Iraque. Um homem morreu no tiroteio que se seguiu e 14 ficaram feridos, disse a polícia.

Posteriormente, a polícia de Basra retirou das celas 10 árabes estrangeiros que estavam presos por ligação a ataques terroristas e os fuzilou sumariamente, em um aparente ato de retaliação pelo atentado ao templo, disse um policial.

Sistani emitiu outra declaração na quarta-feira alertando os fiéis a não atacarem locais sagrados sunitas, apontando duas grandes mesquitas sunitas em Bagdá. Mas era tarde demais: turbas enfurecidas já tinham começado a dar tiros e a disparar granadas propelidas por foguete, assim como a incendiar algumas mesquitas. Os imãs de três mesquitas de Bagdá -Al Sabar, Al Yaman e Al Rashidi- foram mortos, disseram funcionários do Ministério do Interior. Um quarto imã, o xeque Abdul Qadir Sabih Nori da mesquita Amjed Al Zahawi, foi seqüestrado, disseram os funcionários.

A violência não ficou confinada às grandes cidades, Em Salman Pak, uma cidade ao sul de Bagdá, milicianos xiitas evacuaram uma mesquita sunita e uma escola religiosa, alertando o imã que ele seria morto se não deixasse a cidade em dois dias.

Líderes políticos árabes sunitas misturaram sua condenação ao atentado ao templo com revolta pelos ataques contra mesquitas sunitas. Tareq Al Hashimi, o líder do Partido Islâmico do Iraque, o mais conhecido grupo político sunita do país, pediu aos iraquianos que "enfrentassem os criminosos e colocassem um fim a estes crimes antes que seja tarde demais".

Adnan Dulaimi, outro líder sunita, disse à "Al Jazeera" que achava que os ataques contra as mesquitas sunitas tinham sido planejados antes do atentado em Samarra, como parte de uma vingança maior contra os sunitas.

Em Sadr City, a vasta favela xiita em Bagdá, caminhonetes rodavam cheias de milicianos vestidos de preto carregando armas. Homens com lançadores de granadas se reclinavam para fora das janelas dos carros, os apontando ameaçadoramente.

"Se eu pudesse encontrar os responsáveis por isto, eu os cortaria em pedaços", disse Abdel Jaleel Al Sudani, um funcionário de 50 anos do Ministério da Saúde, que disse ter participado de uma manifestação. "Eu preferiria ter ouvido sobre a morte de um amigo do que esta notícia."

*Sabrina Tavernise, Mona Mahmoud, Khalid al Ansary, Omar al Neami e Qais Mizher, em Bagdá; funcionários de The New York Times em Basra, Kirkuk, Najaf e Karbala; e John Kifner, em Nova York, contribuíram com reportagem. Aiatolá incita xiitas a "fornecer a proteção necessária" para templos George El Khouri Andolfato

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