UOL Notícias Internacional
 

23/02/2006

ONU corta remessa de alimentos e deixa refugiados pasando fome na África

The New York Times
Michael Wines

No campo de refugiados Nangweshi, Zâmbia
Centenas de refugiados da guerra civil de Angola deixaram esta remota instalação da Organização das Nações Unidas (ONU), na qual viveram durante anos. Vários deles seguiram a pé até a fronteira com a Namíbia, a 137 quilômetros. A jornada não foi uma escolha deles. Os refugiados procuravam por comida. Em janeiro, a fim de ampliar a sua reserva de suprimentos, que diminuía de tamanho, a ONU reduziu as suas já básicas rações alimentares para os refugiados de guerra em Zâmbia em quase 40% --não apenas para os 15,1 mil residentes do campo de Nangweshi, mas também para 57 mil refugiados do Congo em quatro outros campos.

Jeffrey Barbee/The New York Times - 7.fev.2006 
Refugiados da guerra civil de Angola procuram trabalho perto do campo Nangweshi

As reduções foram feitas depois que o mundo desenvolvido não respondeu aos repetidos apelos da ONU por ajuda para alimentar os refugiados. Assim como ocorreu no caso de apelos similares, este não foi objeto de muita atenção em um ano repleto de desastres, e daquilo que os especialistas em ajuda humanitária chamam de uma má-vontade crescente por parte dos doadores quanto a tais emergências.

Pode parecer surpreendente o fato de milhares de refugiados de guerra que estão sob responsabilidade da ONU passarem fome por falta de cerca de US$ 8,5 milhões, o equivalente aos erros de aproximação matemática dos orçamentos das nações ricas. Mas o sistema internacional que deveria proteger os refugiados da fome e das privações está sujeito a problemas como este, que deixou 72 mil vítimas de guerra em Zâmbia famintas por semanas a fio.

As reduções de alimentos nos campos impediram que o Programa Mundial de Alimentos da ONU ficasse totalmente sem reservas alimentares. Mas até mesmo uma breve visita a Nangweshi, uma rede de estradas de terra e de milhares de choupanas de barro às margens do Rio Zambezi, faz com que o custo da medida se torne dolorosamente evidente.

Apenas um mês após a redução das rações, os refugiados partiram em busca de comida e dinheiro para alimentarem as suas famílias. A desnutrição em meio às crianças remanescentes no campo aumentou em mais de um terço.

Depois que a sua ração mensal acabou, uma família de dez pessoas em Nangweshi passou os últimos dias de janeiro comendo folhas arrancadas das plantas que cresciam do lado de fora de sua choupana. Outras famílias recorreram à mendicância nas vilas próximas ao campo, mas a seca do ano passado deixou os moradores locais tão carentes que a comida e o dinheiro que poderiam fornecer aos refugiados que passam necessidades ficaram escassos.

"Para a comunidade internacional é uma questão de prioridades", disse em uma entrevista, em Lusaka, a capital, David Stevenson, o canadense que lidera as operações em Zâmbia do Programa Mundial de Alimentos. "O que poderia ser uma prioridade mais óbvia do que os campos de refugiados?".

Stevenson disse que as interrupções do auxílio alimentar internacional para os refugiados têm sido um problema recorrente em Ruanda, e que depois do terremoto no Paquistão, em outubro do ano passado, o Programa Mundial de Alimentos por muito pouco não suspendeu as suas remessas aéreas de alimentos, já que as verbas acabaram.

As interrupções dos auxílios são geralmente temporárias. Na semana passada, quase quatro meses após o Programa Mundial de Alimentos ter procurado pela primeira vez auxílio emergencial para os refugiados de Zâmbia, os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha se comprometeram a contribuir com US$ 2,3 milhões, para ajudar a contornar a carência de US$ 8,5 milhões. Este dinheiro cedo ou tarde permitirá que o programa cancele várias, embora não todas, as reduções impostas em 1º de janeiro.

Porém, mesmo as faltas temporárias de verbas têm conseqüências. Os mesmos campos zambianos que sofreram cortes nas rações em janeiro ficaram sem comida no final de 2004, dizem as autoridades locais. Naquela época, algumas mulheres dos campos recorreram à prostituição para alimentarem os seus filhos.

Pouca gente diria que o auxílio mensal fornecido à maioria dos refugiados africanos é muito generoso. Antes das reduções impostas em janeiro, a refeição média de um residente de Nangweshi consistia de 133 gramas de farinha de milho enriquecida com nutrientes, 56 gramas de feijão, 14 gramas de óleo vegetal e um pouquinho de sal.

Três porções ao dia fornecem 2.207 calorias, o mínimo recomendado pelo Programa de Alimentação Mundial para proporcionar uma nutrição adequada aos refugiados zambianos.

Mas, em janeiro, a dieta foi reduzida a 1.400 calorias --algo mais ou menos equivalente a sobreviver diariamente comendo um sanduíche Big Mac, uma porção de batatas fritas, ketchup e uma Coca-Cola.

A maior parte das 4.100 famílias de Nangweshi reagiu de forma previsível às reduções. Para aproveitar mais a ração reduzida, elas passaram a comer apenas duas refeições por dia, eliminando o café-da-manhã. Mas isto ainda não foi suficiente. Todas as famílias viram as rações terminar uma semana antes da chegada da remessa de alimentos de fevereiro.

Na clínica médica do campo, uma tabela mostra os resultados desastrosos das reduções: quadros de desnutrição moderados foram diagnosticados em 106 crianças em janeiro, contra 69 em dezembro. Duas outras crianças sofreram de desnutrição aguda em janeiro. Em dezembro não foi registrado nenhum caso deste tipo. A clínica registrou um salto similar ao final de 2004, a última ocasião em que as rações haviam sido reduzidas.

Do lado de fora, em meio às choupanas de barro, praticamente todas as famílias têm uma história a contar sobre a fome.

"Antes mesmo das reduções, aquilo que normalmente recebíamos não era suficiente", conta Gabriel Vunonge, o patriarca de 62 anos, e que só possui uma perna, de uma família de 13 pessoas. "As rações reduzidas não foram suficientes".

Segundo um programa de repatriação da ONU, praticamente todos os refugiados de guerra de Angola retornaram para suas casas. Os restantes, todos eles em Nangweshi, são em sua maioria ex-apoiadores dos rebeldes e dos guerrilheiros, como Vunonge, que teme vingança e espera o resultado das eleições angolanas deste ano para decidir quando regressará.

Na família Vunonge, as rações de janeiro terminaram uma semana antes do início da distribuição de fevereiro. Assim, Vunonge pegou as suas muletas e, com a sua mulher, caminhou por vários quilômetros fora do campo de refugiados procurando trabalho.

Após capinar uma plantação de milho durante três dias - Vunonge trabalhou com uma das mãos apoiada na muleta e a outra segurando a enxada - o casal conseguir comprar um balde com 12 quilos de trigo. Foi isto o que alimentou a família até a chegada das rações de janeiro.

Muitos homens foram bem mais longe. Em janeiro, a ONU distribuiu 176 passes permitindo que moradores de Nangweshi saíssem do campo. A maioria caminhou até Sesheke, uma cidade a 137 quilômetros do campo, onde uma serraria há muito tempo atrai refugiados em busca de trabalho.

"Ainda há um número muito grande de refugiados na área, e a preocupação no momento é com a alocação de alimentos", diz a princesa Nakatindi Wina, que representa Sesheke no parlamento zambiano. "Esperamos que o governo aja e os envie em breve de volta para as suas casas, para Angola, para o Congo ou para qualquer outro país de onde tenham vindo".

O fato de haver interrupções na ajuda para os refugiados e outros grupos igualmente vulneráveis é embaraçoso. O sistema que canaliza alimentos para os necessitados do mundo se baseia quase que inteiramente na generosidade dos ricos - e o impulso de cada doador está sujeito a forças diferentes.

"O sistema é basicamente imprevisível", criticou em uma entrevista recente pelo telefone Larry Minear, chefe do Instituto sobre Humanitarismo e Guerra da Universidade Tufts. "Flutuações nos preços dos alimentos, o tamanho das colheitas excedentes nas nações doadoras, as políticas nos países doadores e recebedores, assim como as ineficiências da burocracia encarregada do auxílio global, são fatores que desempenham um papel para gerar aquilo que os especialistas da área chamam de forma eufemística de 'cortes na tubulação'".

A falta de comida se tornou tão regular em partes da África que alguns governos passaram a considerar este um fenômeno normal, não mais vendo no problema uma emergência - uma atitude que, segundo os funcionários das agências de auxílio, pode ser a razão básica da resposta vagarosa no ano passado à fome generalizada no Níger.

Com freqüência, como ocorreu no Níger, o dinheiro só chega com muito atraso, depois que os doadores ricos são abordados pela ONU ou se sentem embaraçados com a cobertura das massas de famintos pela mídia.

Segundo vários especialistas, este é o cerne do problema. O auxílio em situações de emergência globais, como vários terremotos e ondas de fome, é puramente voluntário, o que obriga as agências de auxílio humanitário a saírem de pires na mão procurando os governos, não apenas para darem continuidade a programa como o dos campos de refugiados, mas também para lidar com novas emergências, como o tsunami de 2004.

"Somos pedintes profissionais", disse uma autoridade da ONU que trabalha na Europa, solicitando que o seu nome não fosse divulgado por temer que as nações doadoras ficassem irritadas. Ele acrescentou: "Em se tratando de algumas atividades, dá para decidir quanto ao fornecimento voluntário ou não de verbas. Mas em situações como a de Darfur, e como a dos refugiados, precisaríamos de um sistema que oferecesse dinheiro mais rapidamente".

A interrupção de quatro meses na remessa de auxílio para os refugiados em Zâmbia tem muitas explicações. Autoridades da Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (Usaid, na sigla em inglês) - que é de longe a maior doadora de alimentos, tanto para o mundo quanto para os refugiados de Zâmbia - dizem que 2005 foi um ano excepcionalmente complicado.

"Estivemos envolvidos com a crise do Sahel ocidental em meados de setembro", conta Michael Hess, administrador assistente da agência, referindo-se à seca no Níger. "Quando a ONU começou a procurar comida para Zâmbia, creio que algumas pessoas estavam com a atenção voltada para outras regiões".

No entanto, Hess sugere um outro problema - a relutância de alguns outros doadores para "jogar o dinheiro no pires", deixando o grosso do trabalho de auxílio para os Estados Unidos e um punhado de outros países, incluindo o Canadá, o Japão, a Holanda, o Reino Unido e outros governos europeus. Estiveram notavelmente ausentes os governos dos países ricos em petróleo do Oriente Médio e da própria Angola, que agora está em um período de paz e faturando bilhões de dólares com a venda de petróleo e diamantes.

Seja devido a uma falta de percepção da urgência da situação, à impaciência com outros doadores, ou àquilo que Hess chama de "falhas periódicas no sistema", os refugiados em Zâmbia não estavam nos planos norte-americanos ou europeus quando a ONU solicitou auxílio alimentar em outubro do ano passado. O resultado foi que uma dieta já estabelecida para atender somente às necessidades básicas foi reduzida até abaixo do nível mínimo para se evitar a desnutrição.

No centro nutricional de Nangweshi, uma mulher de 36 anos que é mãe de oito filhos senta-se em uma saleta úmida com o filho mais novo, um menino de dois anos que padece de diarréia. Ela conta que em janeiro a comida acabou oito dias antes da chegada da remessa de fevereiro.

Guillermina Ngeve diz que saiu do campo em busca de comida. "Mas não foi fácil", conta ela. "Lá fora também não existe comida". A seca do ano passado deixou a maior parte da população desta região faminta, e apesar das chuvas deste ano, ainda faltam meses para as colheitas.

De vez em quando Ngeve encontra um trabalho temporário. Dois dias capinando uma plantação lhe renderam cerca de dois quilos de trigo, que ela ferveu, dividiu em pequenos copos e serviu à família, sem acrescentar nenhum outro ingrediente. O trigo durou quatro dias.

Depois, a família procurou obter o seu sustento na pequena plantação de abóbora e feijão ao lado da casa, mas a cultura ainda estava longe do ponto de ser colhida. "Assim, durante os quatro dias que faltaram para a chegada das rações de fevereiro, comemos as folhas", conta Ngeve.

As doações feitas na semana passada pelos Estados Unidos e pelos governos europeus permitiram que as rações fossem aumentadas para 1.700 calorias diárias, o que ainda está abaixo das diretrizes do Programa Mundial de Alimentos.

Ao lhe perguntarem o que fará caso as rações terminem novamente, Ngeve responde: "Ficarei aguardando. E se eu ouvir falar de algum lugar onde haja trabalho, irei até lá". Países ricos deixam de contribuir para programa que alimenta 57 mil Danilo Fonseca

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