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23/02/2006

Um artista amado por ninguém exceto o público

The New York Times
Sarah Lyall

Em Londres
Para cada crítico que tem desdenhado a obra de Jack Vettriano, para cada curador que a tem desprezado ou ignorado, há alguém como Liz Davison, de Newcastle, que discorda.

"Eu considero excitante", disse Davison, 57 anos, enquanto admirava as pinturas na recém inaugurada Sala Vettriano na Portland Gallery, em Piccadilly. Ela ficou particularmente atraída por uma que examina a tensão erótica entre um homem com traje a rigor e uma mulher trajando um vestido preto, cinta liga e salto agulha vermelho. "Ele conta uma história", disse Davison, "e você se pergunta o que acontecerá depois".

Portland Gallery via The New York Times 
"The Singing Butler", uma das obras mais admiradas do pintor escocês Jack Vettriano

Vettriano é de longe o pintor contemporâneo mais bem sucedido da Escócia. "O Mordomo Cantor", sua pintura de 1992 de um casal elegante dançando em uma praia tempestuosa, foi vendida por quase 750 mil libras (cerca de US$ 1,3 milhão no câmbio atual) há dois anos, o preço mais alto já pago por uma pintura escocesa em leilão.

A imagem se tornou ubíqua em canecas, mouse pads, pôsteres e toalhas, superando em vendas reproduções de obras-primas como "Girassóis" de Van Gogh e "Ninféias" de Monet.

Outra pintura, "Dance Comigo até o Fim do Amor", será leiloada em Edimburgo em 4 de março. O preço estimado é de 300 mil libras a 500 mil libras.

Mas os críticos tendem a ignorar Vettriano ou afastá-lo com as costas de suas mãos cultas. Entre suas objeções estão a de que "ele não sabe pintar; ele apenas colore" (Sandy Moffat, ex-diretor de pintura da Escola de Arte de Glasgow); que seu trabalho é "inofensivo demais", "repetitivo, limitado e sem alma" (Duncan Macmillan, crítico de arte do "The Scotsman)"; e que ele é uma "criação da mídia", cuja "popularidade se deve às reproduções comerciais baratas de suas pinturas" (Richard Calvocoressi, diretor da Galeria Nacional Escocesa de Arte Moderna).

Talvez eles também não se importem com os temas do artista, que caem rotineiramente em duas categorias: homenagens elegíacas ao passado, exibindo casais elegantes fazendo coisas elegantes, e estudos mais sombrios de disputas de poder eróticas incômodas. A obra de Vettriano tem sido comparada, de forma variada, à de Edward Hopper e Norman Rockwell, a fotos de filme noir e artes de capas de romances comerciais dos anos 40.

Portland Gallery via The New York Times 
"Longtime Gone"; para críticos, as imagens de Vettriano são óbvias demais; para fãs, são diretas
Em uma entrevista por telefone de sua casa no sul da França, Vettriano disse que os críticos simplesmente não gostam de seu trabalho.

"Se eu pintasse sobre questões sociais, o declínio industrial ou algo mais intelectual, então seria considerado interessante", ele disse. "Por ser o que as pessoas fazem diariamente, eu não acho que os sensibiliza."

Mas certamente sensibiliza muitas outras pessoas, disse Tom Hewlett, diretor da Portland Gallery e o marchand de Vettriano.

"Ele pinta imagens que são descomplicadas, fáceis de entender, que não necessitam de explicação para o público em geral e com as quais o público em geral consegue se envolver", disse Hewlett. Entre os colecionadores de sua obra estariam Jack Nicholson, o técnico de futebol Alex Ferguson, do Manchester United, e o letrista Tim Rice.

Mas ele é um bom pintor?

"Há todo tipo de artistas onde você pode discutir se são bons desenhistas ou não, mas para ele é a atmosfera que ele evoca na página", disse Andre Zlattinger, diretor do departamento de pinturas britânicas e chefe de pinturas escocesas da Sotheby's, em Londres. "O clientes adoram o romance e a ambiência."

Vettriano, 54 anos, o filho de um mineiro, tem um retrospecto heterodoxo. Nascido Jack Hoggan em Fife, Escócia, ele mudou seu nome para o mais artístico Vettriano assim que sua carreira decolou, um versão alterada de Vettrino, o nome de solteira de sua mãe. Ele deixou a escola aos 15 anos e trabalhou indiferentemente como, entre outras coisas, engenheiro de minas e funcionário público.

Ele foi autodidata na pintura, primeiro com um jogo de aquarela que uma namorada lhe deu e posteriormente com visitas obsessivas a galerias de arte e se debruçando sobre livros de arte e catálogos, copiando as técnicas de outros pintores. Ele se inscreveu em uma escola de arte mas não entrou.

Sua falta de treinamento formal se destacou proeminentemente em um miniescândalo na Escócia no ano passado ("Jackgate", disse Hewlett carrancudamente), quando uma investigação de jornal revelou que as figuras em "O Mordomo Cantor" tinham vindo de fotografias de um livro de 16,99 libras chamado "Manual de Referência de Figuras do Ilustrador".

Mas Vettriano explicou que usou o livro porque na época não podia pegar pela contratação de modelos. De qualquer forma, ele disse, ele misturou e recombinou as figuras, criando o ambiente e a narrativa.

"O sentido é ajudar os artistas", ele disse sobre o livro, "mas o artista precisa apresentar a idéia".

O primeiro sucesso de Vettriano veio quando duas de suas pinturas foram aceitas na exposição de verão de 1988 da Academia Real Escocesa, mas foi a popularidade dos pôsteres, reproduções e coisas do gênero que lhe rendeu dinheiro de verdade.

Seus trabalhos não estão expostos em nenhum dos grandes museus britânicos ou galerias e podem ser vistas publicamente na Grã-Bretanha apenas em sua cidade natal, Kirkcaldy, Escócia, cujo museu tem dois Vettrianos, e na Portland Gallery.

Por ora, "Dance Comigo até o Fim do Amor", o quadro romântico de um casal dançando nas brumas que será leiloado em Edimburgo no próximo mês, está exposto no andar térreo da Harvey Nichols em Edimburgo.

"Nós fizemos isto por dois motivos: a Harvey Nichols é uma loja de departamentos de alta qualidade, com estilo, e a clientela dela é atraente para nós na tentativa de vender o quadro", disse Richard Longwill, diretor da Shapes Fine Art Auctioneers, que está cuidando da venda. "Além disso, as galerias de Edimburgo têm relutado em expor o trabalho de Vettriano."

Uma galeria que ele contatou lhe disse que "não há nenhuma chance", disse Longwill; várias outras não retornaram seus telefonemas.

Vettriano, que é divorciado, disse que suas obras menos atraentes refletem mais precisamente suas obsessões pessoais do que as fantasias iniciais mais alegres. Tendo deixado a Escócia e seus detratores para trás, ele não pinta mais tão vorazmente, febrilmente quanto antes.

"As críticas que recebi não chegaram a sugar meu espírito", ele disse, "mas tiraram parte do prazer que antes sentia".

Sua condição muito cultivada de alguém de fora não apreciado -"eu não sou convidado para suas festinhas", ele disse sobre o establishment de arte de Edimburgo- pode irritá-lo, mas também tem sido uma dádiva. O público lê os comentários desdenhosos, disse Hewlett, e pensa, "Como este idiota pomposo ousa nos passar sermão sobre arte?"

Admirando os Vettrianos sensuais dentro da Portland Gallery, Davison e sua amiga Sue Whittaker, 54 anos, disseram que não gostam que lhes digam o que é bom e o que não é. "As pessoas poderiam pensar: 'Se eu gosto deles, pode ser que eu não seja muito inteligente'", disse Whittaker. Davison acrescentou: "Mas sabemos que somos". Quadros de Vettriano são desprezadas pela crítica; fãs colecionam George El Khouri Andolfato

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