UOL Notícias Internacional
 

24/02/2006

Cristãos matam dezenas em represália contra muçulmanos na Nigéria

The New York Times
Lydia Polgreen

Em Onitsha, Nigéria
Dezenas de corpos queimados enchiam as ruas deste movimentado centro comercial na quinta-feira (23/02), após três dias de tumultos no quais turbas cristãs empunhando machetes, bastões e facas investiram contra seus vizinhos muçulmanos.

Os agressores mataram dezenas de pessoas aqui, a maioria muçulmanos, após queimarem suas casas, negócios e mesquitas na pior violência já ligada às charges do Profeta Maomé, publicadas pela primeira vez em um jornal dinamarquês. A violência ocorreu após ataques semelhantes contra cristãos no norte da Nigéria, na semana passada, por muçulmanos enfurecidos por causa das charges.

Antigas tensões políticas e étnicas entre os muçulmanos do norte e os cristãos daqui do sul têm sido reacesas, com pelo menos 33 corpos visíveis nas ruas de Onitsha, na quinta-feira, e uma organização local que tentou remover os cadáveres espalhados disse já ter recolhido até 80 outros.

O ciclo de violência sectária olho por olho já elevou o número total de mortes desde a semana passada para mais de 100, tornando a Nigéria o país mais duramente atingido até o momento pela controvérsia das charges.

A via principal que leva à cidade, do outro lado do Rio Níger, estava coberta de corpos de muçulmanos hausas, que tentaram fugir dos bandos de jovens, disseram testemunhas. Muitas das vítimas pareciam ter sido espancadas até a morte; a maioria dos corpos foi encharcado de gasolina e queimado.

Os moradores reviraram as lojas e lares destruídos de muçulmanos, saqueando o que as chamam não tinham consumido.

"Estas coisas pertencem aos igbos", disse Sunday Tagbo, 25 anos, se referindo ao grupo étnico dominante desta região, mais comumente conhecidos como ibos, enquanto se apoderava de peças fuliginosas de carro deixadas para trás pelos vendedores em fuga. "Esta terra é igbo. Muçulmanos não podem mais viver aqui."

Autoridades municipais e estaduais pediram calma e uma aparência de normalidade voltou às ruas da cidade na quinta-feira, com os mercados abertos e trânsito pesado nas ruas. Mas os estragos de três dias de carnificina estavam evidentes. Os desordeiros queimaram a mesquita central e derrubaram as árvores ao redor dela.

Alguém escreveu com giz em uma parede queimada, "Jesus é o Senhor". A mensagem prosseguiu alertando que "a partir de hoje" não haveria mais Maomé. Milhares de moradores muçulmanos fugiram da cidade, alguns a pé pela ponte que leva ao Estado de Delta, se refugiando nas cidades vizinhas.

Outros milhares se refugiaram nos quartéis da polícia e do exército em Onitsha e cidades vizinhas. "O que nos tornamos?" lamentava Joseph Ezeugo, padre da Paróquia do Coração Imaculado. "Esta não pode ser a Nigéria atual. Nós temos convivido lado a lado com nossos irmãos muçulmanos há tanto tempo. Por que uma caricatura dinamarquesa nos levaria a uma guerra civil?"

Mas as charges, disseram muitos analistas políticos, foram apenas um pretexto para agir em relação a antigas queixas que voltaram à tona pelas tensões políticas.

A Nigéria está entrando em um período de grande incerteza política no qual deve eleger um novo presidente para substituir Olusegun Obasanjo, que está proibido por limitações de mandato a concorrer à reeleição. A especulação tem sido grande de que ele poderia tentar emendar a Constituição para concorrer novamente.

"No final tudo se trata de política", disse Kayode Fayemi, um cientista político e diretor do Centro para Democracia e Desenvolvimento, um grupo de defesa na Nigéria. "Tudo mais é apenas pretexto."

Conflitos entre grupos étnicos e religiosos são comuns e mortais na Nigéria. Em 2002, tumultos em torno de um concurso de beleza em Kaduna, no norte da Nigéria, resultaram em mais de 200 mortos, e milhares morreram em conflitos do gênero nos últimos dois anos.

O ciclo mais recente teve início na semana passada no Estado de Borno, onde ocorreram tumultos devido às charges dinamarquesas que resultaram em pelo menos 18 mortos. Os manifestantes muçulmanos queimaram igrejas, casas e negócios de cristãos.

No Estado de Bauchi, os tumultos foram provocados na semana passada quando um professor cristão tomou o Alcorão de um estudante muçulmano que o estava lendo sem permissão durante a aula, segundo relatos dos jornais nigerianos. Os muçulmanos ficaram irritados por terem considerado uma profanação tocar no Alcorão sem a realização dos rituais de ablução. Vinte e cinco pessoas morreram.

Os tumultos em Onitsha foram provocados quando um ônibus carregado de corpos de ibos, vítimas da violência no norte, voltou para casa nesta semana.

A violência tocou em uma velha ferida, uma provocada pela guerra civil da Nigéria no final dos anos 60, quando rebeldes liderados por ibos tentaram formar um país independente chamado Biafra. A guerra e a fome disseminada que causou mataram centenas de milhares de civis.

Alguns líderes ibo ainda nutrem a esperança de que Biafra ressuscitará e o governo prendeu recentemente os líderes de um grupo militante que defendia a recriação de um Estado ibo. Um eco de tal sentimento podia ser visto em uma pichação feita em uma parede daqui. "Esta é Biafra. Alegre-se."

A reivindicação de autogoverno dos ibo é apenas um dos muitos fios soltos na complexa colcha de 200 grupos étnicos diferentes da Nigéria. As tensões entre nortistas e sulistas, e muçulmanos e cristãos, são uma constante no cenário político contencioso da Nigéria e o país sempre teve dificuldade para assimilar sua vasta diversidade.

Sua população de cerca de 140 milhões é igualmente dividida entre cristãos e muçulmanos, e apesar da maioria dos muçulmanos viver no norte e dos cristãos no sul, grandes números de ambos os grupos estão espalhados por todo o país.

Mas os ibos nutrem ressentimentos particulares, tornando o conflito entre eles e os hausas, muçulmanos que formam o grupo dominante no norte, particularmente violentos.

"Desde 1970 os nortistas têm roubado nossa riqueza e nos governado como escravos", disse Innocent Okafor, um motorista de táxi que trouxe seu filho de 12 anos, Jindo, para ver a carnificina em Onitsha na quinta-feira, para que ele "conheça nossa história e nossa luta".

"Milhares de igbos morreram no norte", ele disse. "Então por que alguns nortistas não podem morrer aqui? Nós devemos vingar nossos irmãos." Islâmicos haviam matado cristãos em protestos contra as caricaturas George El Khouri Andolfato

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