UOL Notícias Internacional
 

24/02/2006

Violência varre Iraque após ataque a templo xiita

The New York Times
Edward Wong*

Em Bagdá
Um maremoto de fúria sectária continuava a varrer o Iraque após o ataque a bomba da última quarta-feira a um santuário xiita, deixando pelo menos 138 iraquianos mortos nos últimos dois dias, e destroçando as negociações para a formação de um novo governo. A ameaça de uma guerra civil de grandes proporções pairava sobre o Iraque, enquanto políticos sunitas criticavam os líderes xiitas na quinta-feira (23/02), acusando-os de incitar represálias anti-sunitas. Os parlamentares sunitas também criticaram as forças armadas norte-americanas, que segundo eles teriam ficado de braços cruzados quando a violência irrompeu.

AFP - 23.fev.2006 
Corpo de militante xiita, morto em conflito com sunitas, é transportado com honras militares

O mais poderoso grupo político árabe sunita anunciou que estava suspendendo as conversações com políticos xiitas e curdos para a formação de um novo governo.

Os assassinatos e agressões ocorridos em todo o Iraque se constituíram no pior episódio de violência sectarista desde a invasão norte-americana. Eles geraram dúvidas quanto ao papel apropriado das forças armadas norte-americanas, à sua capacidade de controlar as poderosas milícias xiitas, que muitos iraquianos acusam de terem atacado os sunitas, e aos planos do governo Bush de retirar as tropas do país.

Por todo o Iraque, milhares de xiitas enfurecidos, alguns vestidos de preto e chorando de pesar, invadiram as ruas em um segundo dia de protestos contra o atentado a bombas contra o santuário Askariya, cuja característica cúpula dourada foi reduzida a escombros por explosivos na manhã da última quarta-feira em Samarra.

As manifestações foram em sua maioria pacíficas, e grande parte da violência parecia ter diminuído na quinta-feira, embora xiitas armados tenham invadido várias mesquitas sunitas em Bagdá e ateado fogo a pelos menos duas delas.

No ataque mais letal, 47 pessoas que retornavam de uma manifestação foram retiradas de ônibus ao sul de Bagdá, na quarta-feira, e baleadas na cabeça, informou na quinta-feira um funcionário do Ministério do Interior.

Três jornalistas da Al Arabiya, a rede árabe de televisão por satélite, foram seqüestrados e mortos na quarta-feira em Samarra, nas proximidades do santuário atacado. Sete soldados norte-americanos também foram mortos na quarta-feira em ataques artefatos explosivos instalados em estradas, que não tiveram relação com a violência sectarista,.

Líderes políticos e religiosos, incluindo o presidente Jalal Talabani e Muqtada al-Sadr, o clérigo xiita cujos seguidores estariam envolvidos em grande parte dos episódios de violência anti-sunita, pediram moderação.

O governo baixou um toque de recolher das 20h de quinta-feira às 16h da sexta-feira, em uma tentativa extraordinária de impedir que a população participasse da Oração da Sexta-Feira. As cerimônias religiosas semanais são tidas como potenciais focos de agitações, já que os imames podem pedir ataques retaliatórios.

As autoridades cancelaram as licenças de todos os soldados e policiais, os escritórios governamentais ficaram fechados, e a polícia instalou postos de revista ao longo das avenidas da capital. Acima da cidade, helicópteros norte-americanos trovejavam no céu.

Na quinta-feira oficiais militares norte-americanos insistiam em afirmar que as forças de segurança iraquianas são capazes de restaurar a ordem, e que colocar as tropas norte-americanas na liderança das operações só enfraqueceria o governo iraquiano. "Estamos vendo um governo iraquiano confiante usar forças de segurança capacitadas para acalmar a tempestade", declarou o general Rick Lynch, porta-voz do comando norte-americano.

O clima tenso causado pelo atentado contra o santuário Askariya, que abriga as tumbas de dois imames xiitas reverenciados, e os ataques retaliatórios que se seguiram eram o assunto principal de discussão na quinta-feira, fosse nas conversas entre vizinhos, fosse nas reuniões nervosas de lideranças iraquianas.

O embaixador norte-americano, Zalmay Khalilzad, passou o dia conversando com políticos, procurando pedir calma e manter o processo político em movimento, apesar do ódio mútuo entre sunitas e xiitas, e do ódio de ambos contra os norte-americanos.

Mahmoud al-Mashhadany, autoridade graduada da Frente Iraquiana de Consenso, o principal bloco político árabe sunita, disse em uma entrevista por telefone que o bloco se retirou das conversações com os principais partidos xiitas e curdos para a formação de um governo de quatro anos, acusando o governo provisório dominado pelos xiitas de instigar a violência anti-sunita.

Mashhadany disse que o seu grupo não voltará a negociar até que o governo puna os responsáveis pelos ataques contra os árabes sunitas, embora outros políticos iraquianos tenham afirmado que o grupo está apenas fazendo cena, e que em breve retornará à mesa de negociações.

"Não estamos prontos para negociar com os assassinos", disse Mashhadany. "Acreditamos que aquilo que ocorreu ontem foi uma ação organizada. Tudo foi organizado na noite anterior".

Mashhadany também acusou as forças armadas norte-americanas de terem permanecido de braços cruzados enquanto os xiitas massacravam os sunitas. "A responsabilidade pela segurança está nas mãos dos norte-americanos, mas ontem nós não vimos nenhum veículo Humvee do exército dos Estados Unidos" criticou Mashhadany. "Não presenciamos nenhuma reação militar".

Os comandantes norte-americanos têm dito que esperam retirar uma parcela significativa dos 130 mil soldados norte-americanos do Iraque até o final deste ano, e que um número suficiente de soldados e policiais iraquianos poderá ser treinado até lá para assumir a responsabilidade pela segurança em várias áreas.

Mas as forças de segurança iraquianas pouco fizeram no sentido de conter a violência. Em pelo menos um dos casos ocorridos em Bagdá, testemunhas iraquianas afirmaram que os policiais na verdade participaram do ataque a uma mesquita.

Khalilzad tem tentado persuadir os líderes sunitas a manter negociações integrais com xiitas e curdos. Ao agir desta forma, ele denunciou líderes xiitas que foram acusados de apoiar grupos governamentais de extermínio.

Os dois dias de ataques sectaristas fizeram com que os políticos sunitas e xiitas se distanciassem ainda mais dos norte-americanos. Os árabes sunitas dizem que os norte-americanos não os protegeram, e os xiitas de linha dura culpam as tropas dos Estados Unidos por tentarem conter o uso da força dos xiitas contra os insurgentes.

O ataque ao santuário parece ter fortalecido autoridades xiitas conservadoras como Abdul Aziz al-Hakim, um clérigo proeminente, permitindo que estas justificassem o uso das milícias que os norte-americanos vinham tentando desmontar.

Embora os líderes xiitas, incluindo o primeiro-ministro Ibrahim al-Jaafari, tenham condenado a violência anti-sunita na quinta-feira, nenhum deles censurou a ação do Exército Mahdi, a milícia de al-Sadr.

Al-Sadr divulgou uma declaração pedindo à milícia que protegesse os locais sagrados em Samarra e outras cidades, e exigindo que os norte-americanos estabeleçam um prazo para se retirarem do país, de forma que o Iraque possa funcionar como um país plenamente soberano, responsável pela sua própria segurança.

No Irã, país dominado pelos xiitas, o presidente Mahmoud Ahmadinejad culpou Israel e os norte-americanos pelo ataque ao santuário em um discurso transmitido ao vivo pela televisão estatal. "Esses atos atrozes são cometidos por um grupo de sionistas, e pelos ocupantes que fracassaram", disse ele. "Eles fracassaram frente à lógica e à justiça muçulmanas".

Na quinta-feira, os sentimentos antiamericanos eram manifestados por sunitas e xiitas em Bagdá. "Posso dizer qual é o motivo principal de todos os nossos problemas --os Estados Unidos", esbravejou Abdul-Quader Ali, um vendedor de roupas em Adhamiya, um reduto sunita da cidade. "O culpado por todos os problemas atuais entre sunitas e xiitas são os Estados Unidos".

Algumas autoridades no Pentágono disseram que o fracasso em impedir o ataque ao santuário e a onda de violência que se seguiu, durante a qual dezenas de mesquitas sunitas foram atacadas e alguns imames assassinados, foi responsabilidade das novas unidades policiais iraquianas, que são consideradas altamente sectárias, tendo sido recrutadas nas milícias xiitas.

O Ministério do Interior, que controla a polícia, abriu uma investigação interna para determinar se há oficiais chefiando esquadrões da morte. E, em várias cidades, muitas unidades policiais demonstraram ser mais leais às lideranças religiosas e políticas locais do que ao governo central.

As autoridades também observaram que as decisões quanto a aumentar ou não a visibilidade das patrulhas norte-americanas no país varia de região para região, com base nas negociações dos comandantes com as lideranças tribais e cívicas locais.

Relatos da violência indicaram que a carnificina ocorrida nos dois últimos dias foi selvagem, até mesmo para os padrões desta guerra.

Os 47 iraquianos mortos ao sul de Bagdá eram civis que foram arrancados de seus ônibus em um falso posto policial de revista na área agrícola de Nahrawan, na qual militantes árabes sunitas e milícias leais a al-Sadr têm travado lutas violentas, disse um funcionário do Ministério do Interior. A filiação religiosa das vítimas, que retornavam de uma manifestação, não foi ainda identificada.

A Al Arabiya, a rede televisiva, disse que os jornalistas assassinados nas proximidades de Samarra na quarta-feira são Atwar Bahjat, 30, uma correspondente da rede; Khalid Mahmoud al-Falahi, 39, operador de câmera; e Adnan Khairullah, 36, engenheiro de som.

Bahjat estava em meio a uma multidão e anunciava o ataque ao santuário quando um homem armado a seqüestrou juntamente com os seus dois colegas. Os corpos foram encontrados na manhã de quinta-feira, próximos aos seus veículos e equipamentos.

Em Baquba, 48 quilômetros a nordeste de Bagdá, uma bomba explodiu às 12h30 próxima a uma patrulha do exército iraquiano em um mercado, matando pelo menos 16 pessoas, metade delas soldados, e ferindo outras 20, segundo informou o funcionário do Ministério do Interior.

Os sete soldados norte-americanos vitimados na quarta-feira morreram em dois ataques separados realizados com bombas instaladas em estradas - quatro nas proximidades do foco de insurgência em Hawija, ao norte de Bagdá, e três próximos a cidade de Balad, dominada pelos xiitas.

Pelo menos 57 corpos encontrados no final da quarta-feira e na quinta-feira estavam em Bagdá. Muitas das vítimas pareciam ser árabes sunitas que moravam em enclaves xiitas no leste da cidade.

Nos últimos dois dias, a fumaça das mesquitas sunitas incendiadas podia ser vista subindo a partir de alguns bairros, especialmente aqueles próximos à paupérrima Cidade Sadr, o reduto do Exército Mahdi. Enquanto isso, alguns xiitas que moram em bairros de árabes sunitas organizaram às pressas grupos de vigilância noturna, chegando a designar crianças como guardas.

*Contribuíram Abdul Razzaq al-Saiedy e Khalid al-Ansary, em Bagdá, e Thom Shanker e Eric Schmitt, em Washington. Pelo menos 138 pessoas morreram devido às retaliações a sunitas Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h49

    0,96
    3,182
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h53

    -0,38
    64.901,26
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host