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25/02/2006

Mardi Gras 2006 parece muito com o do passado

The New York Times
Adam Nossiter

Em Nova Orleans
Por muito tempo eu odiei o Mardi Gras (Carnaval) e tentava fugir da cidade nesta época.

Era o oposto do que tornava Nova Orleans divertida, ou ao menos era o que parecia para mim: barulhento e rude, o ritual de autodegradação da cidade forçava uma alegria de massa. O cotidiano de Nova Orleans, sem uma população exagerada, verde e silenciosa, era o que havia de melhor em seu respeito absoluto pelos estados individuais de alegria e tristeza.

Chang W. Lee/The New York Times - 23.fev.2006 
Turistas e foliões divertem-se em desfile em Nova Orleans
Por anos eu fracassei em entender o sentido, um desprazer reforçado pela horas de turistas do restante do país que transformavam o Bairro Francês em uma "Disneylândia para bêbados", como colocou um dono de livraria irritado.

A história do Rei Rex que remonta décadas era comemorada em algumas das maiores casas da cidade, enquanto outros segmentos sociais da cidade não recebiam atenção semelhante. Eu também sabia de algumas famílias judias do bairro Uptown que deixavam a cidade durante o Carnaval, porque não seriam convidadas para os bailes mais chiques.

Mas ao longo dos anos um aspecto diferente começou gradualmente a aparecer. Era possível ver, após os desfiles, as famílias negras pobres da cidade percorrendo as ruas do meu bairro, em Garden District, a caminho de suas casas a alguns quarteirões de distância, crianças pulando com seus espólios ao lado de foliões com suas grinaldas.

Estes eram os dias do ano, os únicos, em que os bairros se uniam, mesmo que de forma tênue Os ricos locais em suas mansões com colunas tinha que sofrer. As ordens de precedência eram invertidas. Vidas difíceis experimentavam esta liberação, ao menos. Os forasteiros surpresos com a falta de clamor interno por mudança em Nova Orleans não conseguiam dar o devido peso a estas satisfações efêmeras.

Nos últimos anos, ir aos desfiles com meus filhos pequenos abriu novamente meus olhos -recolher contas acabou se tornando um negócio sério no final- e fiz minhas pazes com o Carnaval.

Este ano tem sido um choque. Os negros estão praticamente ausentes na trajeto de volta da Saint Charles Avenue, a rota dos desfiles. Havia algumas famílias negras no desfile da Krewe of Muses na noite de quinta-feira, mas onde estavam as crianças e mães retornando para as casas surradas próximas do Rio Mississippi? A multidão encolheu, agitada apenas em parte. Era de maioria branca e principalmente local.

Os desfile das Musas apresentava alguns sinais denunciadores. Em vez de bandas de cada uma das três escolas católicas negras tradicionais de Nova Orleans, Saint Augustine, Xavier Prep e Saint Mary's, havia apenas uma pequena banda unindo as três, uma chamada "Max Band".

Outro grupo se intitulou "Banda do 9º Distrito", mas era quase que totalmente branca -claramente comemorativa, e não representativa, daquele que foi um bairro negro, agora arruinado. Eles usavam capacetes ao estilo militar com "9" estampado neles. O antes obscuro 9º Distrito agora é uma famosa zona de guerra.

Nada expôs a cruel mudança demográfica do Katrina como isto. Uma amiga -natural da cidade, diferente de mim- disse após os desfiles de domingo que isto a lembrava do Mardi Gras de sua infância, cerca de quatro décadas atrás: menor, mais homogêneo, freqüentado em grande parte apenas pela população local. A cidade ainda era de maioria branca naquela época. Pode ser que seja novamente neste momento. Todo "especialista" tem um conjunto diferente de números e projeções.

Dois anos atrás ocorreu um tiroteio no desfile das Musas: gangues de adolescentes rivais do bairro de Mid-City atiraram uma contra a outra, e uma mulher jovem, que participava do desfile, sofreu um ferimento fatal no fogo cruzado. O incidente assustou os especialistas em turismo da cidade e levou a um reforço da segurança. Neste ano, dois policiais de Nova Orleans, posicionados perto do local, pareciam entediados e sonolentos enquanto assistiam a multidão esparsa e pacífica.

O Carnaval ainda representa uma liberação neste ano, mesmo que seja um fracasso em turismo. Os refrigeradores falsos gigantes e os carros alegóricos satirizando os políticos locais extraem humor de um momento sombrio. (William Jefferson, um congressista de Nova Orleans, foi satirizado por ter comandado um caminhão da Guarda Nacional para checar sua casa durante a inundação: "Hã, General, posso pegar um (helicóptero) Black Hawk emprestado? Eu acho que esqueci o forno ligado", estava pintado em um dos carros.) Na Louisiana, líderes eleitos sempre fornecem motivo para risada quando nada mais é capaz.

Mas uma coisa que o Mardi Gras não representa neste ano é a surpreendente inversão social temporária, a mesma encontrada nos festivais populares que remontam a Idade Média -o tipo de válvula de escape para tensões sociais. Os pobres, não mais escondidos, costumavam sair às ruas.

Nos dias terríveis que se seguiram à tempestade, eles também saíram às ruas. Antes da chegada das equipes de resgate, juntamente com as tropas e hordas de repórteres de fora, Nova Orleans foi, brevemente, uma cidade quase que inteiramente de negros empobrecidos. Os bairros arrasados pertenciam a eles. Me chamou a atenção a visão de pessoas, juntas na rua, em uma zona não inundada perto do rio em um daqueles dias. Então as pessoas se foram e a cidade ficou vazia. Devastada pelo furacão Katrina, Nova Orleans celebra seu Carnaval George El Khouri Andolfato

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