UOL Notícias Internacional
 

25/02/2006

Políticos e religiosos tentam conter a revolta xiita

The New York Times
Robert F. Worth

Em Bagsá, Iraque
Com as ruas da capital e outras grandes cidades esvaziadas por um extraordinário toque de recolher diurno, imames iraquianos pediram na sexta-feira (24/02) o fim dos confrontos sectários que causaram mais de 170 mortes nos últimos três dias. Enquanto isso, líderes políticos convocaram reuniões de emergência para conter a crise.

AFP - 24.fev.2006 
Guarda patrulha templo de Samarra, parcialmente destruído por ataque, razão da violenta revolta xiita
No entanto, em seus sermões e declarações públicas, líderes sunitas e xiitas também demonstraram maior hostilidade ao papel dos EUA no Iraque e uma polarização nefasta de atitudes sobre quem era culpado pela onda de violência. Líderes iraquianos e autoridades americanas pareceram agudamente conscientes de que o conflito, iniciado na quarta-feira depois que uma bomba explodiu o domo de um dos templos xiitas mais sagrados, ainda pode levar o Iraque a uma guerra civil catastrófica, com implicações para toda a região.

Em um discurso à nação na sexta-feira, o primeiro-ministro Ibrahim Al Jaafari estendeu o toque de recolher diurno por um segundo dia e proibiu todo o trânsito de entrada e saída de Bagdá, exceto de ambulâncias e veículos da polícia e do governo. Os líderes dos principais grupos políticos iraquianos também se reuniram na sexta-feira para discutir respostas, inclusive a formação de um novo comitê assessor com os comandantes militares americanos para administrar a violência, e uma possível proibição de porte de armas sem autorização.

"Tudo deve ser feito para se evitar uma guerra civil, e acho que estão profundamente conscientes do perigo", disse Zalmay Khalilzad, embaixador americano.

Na sexta-feira, Khalilzad disse que os militares americanos tinham aumentado suas patrulhas em áreas de população mista sunitas e xiitas. A medida foi um sinal que os comandantes podem estar preocupados com a incapacidade do exército e da polícia iraquiana de impedirem a volta da violência depois da suspensão do toque de recolher. A polícia iraquiana, que inclui muitos seguidores de milícias xiitas, não interveio durante os ataques a mesquitas sunitas na quarta e quinta-feira, assim como muitos soldados iraquianos.

Alguns imames xiitas soltaram o verbo contra líderes políticos sunitas, acusando-os de apoiar os terroristas que executaram o ataque a Samarra.

Na mesquita xiita de Baqiat Allah, em Bagdá, Jassim Al Jazairi disse a um grupo de fiéis que os terroristas responsáveis pela explosão em Samarra eram apoiados por "Saleh Al Mutlak, Adnan Dulaimi e Tareq Al Hashimi". Os três são os mais proeminentes líderes sunitas iraquianos, todos membros do novo parlamento.

No final do sermão, Al Jazairi disse dos confrontos após a explosão em Samarra: "Os que fizeram isso não são apenas parte do povo xiita, representam todos os xiitas, porque isso foi um ato de vingança pelos imames. Os que não reagiram devem ter algo de errado em sua fé."

Outros clérigos xiitas atacaram diretamente o papel de Khalilzad nas negociações sobre um novo governo e repetiram acusações prévias de que o embaixador era parcialmente responsável pelo atentado de Samarra. Na cidade de Basra, no Sul, onde milhares de xiitas se reuniram em protesto ao atentado de Samarra, alguns exigiam a remoção de Khalilzad.

Na mesquita de Fatimiya na cidade sagrada xiita de Najaf, Sadr Aldeen Al Qubanji observou que Khalilzad, que nasceu no Afeganistão, é muçulmano sunita. O clérigo acusou Khalilzad de tomar lado contra os xiitas por razões sectárias. Aldeen também chamou o embaixador de usurpador perigoso.

"Quero saber quem está no comando", disse Aldeen. "Onde estão as palavras americanas sobre liberdade e sobre iraquianos no controle de seu próprio país?"

Ainda houve choques na sexta-feira, com ao menos 29 corpos em Bagdá, apesar do aparente arrefecimento da maior parte dos combatentes da milícia xiita que liderou as retaliações a mesquitas e civis sunitas depois do ataque ao seu templo.

A despeito do toque de recolher, que segundo as autoridades iraquianas também serviria para manter as pessoas longe dos sermões que poderiam ser inflamatórios, muitos iraquianos caminharam ao meio dia até suas mesquitas locais, muitas das quais vigiadas por soldados iraquianos fortemente armados.

Houve alguns gestos de conciliação de líderes políticos e nos sermões semanais de sexta-feira, que as autoridades americanas viram como oportunidade crucial de acalmar a situação. Preces conjuntas sunitas e xiitas foram feitas no templo de Samarra e em outras partes. Uma declaração divulgada pela televisão estatal de Abdul Aziz Al Hakim, clérigo e líder da maior coalizão política xiita, proibiu ataques a mesquitas sunitas e disse que os atentados ao templo de Samarra "não representam os sunitas".

Mas Al Hakim também disse que "era direito dos xiitas expressarem sua raiva" depois do atentado de Samarra. Ele não se desculpou pelas dezenas de ataques a mesquitas e imames sunitas -uma exigência dos líderes políticos sunitas que se retiraram em protesto de negociações para a formação do governo na quinta-feira.

De sua parte, alguns clérigos e líderes políticos sunitas acusaram raivosamente os xiitas de provocarem ataques a mesquitas sunitas e os oficiais americanos por não impedi-los. A intransigência renovada dos dois lados foi um mau presságio para o esforço americano de criação de um governo de união nacional. Apesar de líderes sunitas participarem dos encontros de emergência para lidar com a crise, as conversas sobre a formação de um governo estão suspensas indefinidamente, e o requerimento legal para o novo parlamento se reunir até sábado parece esquecido.

"Todo mundo está preso em suas próprias afiliações, políticas ou sectárias. Eles não parecem capazes de se erguer acima dessas coisas", disse Adnan Pachachi, ministro de relações exteriores de 82 anos e atual membro do parlamento, que participou de todas as principais reuniões desde o início da crise.

Khalilzad vem tentando convencer árabes sunitas a entrarem para o governo de união nacional. Com isso, criticou os abusos do Ministério do Interior xiita e insistiu que fosse chefiado por pessoas sem conexões com as milícias xiitas.

No entanto, depois do atentado de Samarra, seus comentários parecem ter se voltado contra ele, e muitos xiitas passaram a acusar Khalilzad de enfraquecer o governo e tentar remover sua única forma de autodefesa. Apesar de grande parte da violência retaliatória ter sido executada por membros da milícia rebelde xiita Exército de Hamdi, a crise parece ter apoio reforçado das milícias em geral. Depois do atentado, o grande aiatolá Ali Al Sistani, clérigo muito mais moderado, emitiu declaração sugerindo que as pessoas comuns começassem a proteger as mesquitas, na ausência de ações do governo.

Membros do Ministério do Interior disseram que 29 corpos mortos a tiros foram encontrados em Bagdá na sexta-feira, a maior parte em bairros xiitas. Não foram divulgados detalhes, mas algumas testemunhas disseram que as vítimas em muitos casos pareciam ser sunitas que moravam em bairros de maioria xiita, em uma continuação dos assassinatos sectários que ocorreram na quarta e na quinta-feira.

Em Al Ameen, uma área xiita a sudeste de Bagdá, testemunhas descreveram gangues de homens armados indo de casa em casa caçando homens sunitas. Em Ur, outra área xiita, quatro homens de uma tribo sunita foram assassinados na sexta-feira, disseram as testemunhas.

Outro aspecto ameaçador do recente conflito sectário tem sido a possibilidade de que atraia outros países do Oriente Médio e espalhe a violência para além das fronteiras do Iraque. No vizinho xiita Irã, líderes políticos e religiosos, inclusive o presidente Mahmoud Ahmadinejad, expressaram revolta com o ataque e ecoaram os comentários de alguns líderes xiitas radicais iraquianos em culpar os extremistas sunitas e a presença americana.

Na sexta-feira, Harith Al Dhari, clérigo sunita radical que lidera a influente Associação de Acadêmicos Muçulmanos, emitiu um apelo pela rede de televisão Al Jazeera para que outras nações árabes interviessem e protegessem os sunitas no Iraque de ataques de xiitas.

Para muitos iraquianos ordinários, o caos dos últimos dias ressaltou a relativa impotência do governo iraquiano e da influência muito maior dos clérigos, que em geral emitiram pedidos urgentes para o fim da violência.

"O aiatolá Sistani é uma válvula de segurança para todo o Iraque, e não apenas para os xiitas", disse Ali Hussein Najim, 35, xiita que conserta armas no oeste de Bagdá. "Sem ele e sua sabedoria, estaríamos todos mergulhados em sangue. Não haveria nada além de assassinos e suas vítimas."

Muhammad Younis, empresário sunita, passou a quinta e a sexta-feira dentro de casa, com medo de encontrar xiitas armados em busca de vingança pelo atentado ao templo. Ele tem pouca confiança na capacidade do governo ou das forças de segurança dominadas pelos xiitas de protegê-lo.

"Graças a Deus pelos clérigos xiitas e sunitas", disse ele. "Eles impediram o que poderia ter sido uma tragédia muito maior."

Mona Mahmoud, Ali Al Adeeb, Thaier Al Daami e funcionários do New York Times em Najaf e Basra contribuíram para este artigo. Mais 29 corpos foram encontrados nesta sexta-feira em Bagdá Deborah Weinberg

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