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27/02/2006

Exposição celebra imagens de espíritos, fantasias góticas e sexo no Reino Unido

The New York Times
Alan Riding

Em Londres
O poeta Philip Larkin foi o autor da famosa afirmação de que os ingleses descobriram o sexo em 1963, mas uma nova exposição na galeria de arte Tate Britain sugere que tal descoberta se deu bem antes, em 1782, o ano no qual londrinos curiosos se aglomeraram na exposição de verão da Real Academia para examinar com assombro, confusão e deleite a pintura "The Nightmare" ("O Pesadelo"), de Henry Fuseli.

No local, em meio aos usuais retratos e paisagens, o quadro de Fuseli mostrava o corpo prostrado de uma moça adormecida, com um ogro ou íncubo de aparência depravada sentado sobre o seu peito, e a cabeça de um cavalo cego aparecendo ameaçadoramente através de cortinas de veludo vermelho. O que isso poderia significar?

Detroit Institute of Arts/The New York Times 
O emblemático quadro "The Nightmare", de Fuseli, obra central da arte gótica

Demorou uma década até que o chefe da Igreja da Inglaterra procurasse esclarecer as coisas ao denunciar Fuseli como um dos "libertinos da pintura". Fuseli, naturalmente, repeliu a acusação, insistindo que jamais criaria obras para "a multidão excitável".

Mas a verdade é que "The Nightmare" tinha tudo a ver com sexo: com a sua cabeça jogada para trás, e os braços pendendo frouxamente e de forma sensual para fora da cama, a moça certamente sonhava com sexo.

Fuseli também parece ter acrescentado o seu próprio trocadilho. O "mare" de "nightmare" ("pesadelo") é derivado do alemão "mara", que significa um espírito atormentador que aplica pressão sobre o peito de um indivíduo que dorme.

Assim, Fuseli pode ter tido a intenção de fazer uma espécie de gracejo ao retratar juntos o "mara" - o demônio que aparece na pintura - e uma "égua" ("mare", em inglês) na forma de uma cabeça de cavalo. Ah, o material onírico.

"The Nightmare" logo se transformou em uma imagem popular, sendo copiado por outros artistas e reproduzido em pinturas. De fato, uma cópia do quadro foi pendurada na parede do consultório de Freud em Viena. E, atualmente, o original --que foi emprestado para a mostra pelo Instituto de Arte de Detroit-- está atraindo novamente multidões como a peça central da exposição "Gothic Nightmares: Fuseli, Blake and the Romantic Imagination" ("Pesadelos Góticos: Fuseli, Blake e a Imaginação Romântica"), que ficará no Tate Britain até 1º de maio.

Mesmo assim, não se trata de uma exposição de sexo, ainda que algumas imagens mais picantes estejam isoladas por um véu (ou será que o véu foi colocado exatamente para garantir que ninguém deixe de dar uma espiada?)

Em vez disso, trata-se de uma exploração do mundo da fantasia, do misticismo, do horror e da perversidade sexual que encontrou expressão na arte e na literatura na Grã-Bretanha entre 1770 e 1830 e que, alimentado por romances, filmes e mesmo música popular, ficou mais tarde conhecido como gótico.

Na literatura, o trabalho icônico foi o "Frankenstein", de Mary Shelley, em 1818. Nas artes visuais, a tendência se traduziu em pinturas e desenho com temas fortes, homens musculosos inspirados nas figuras de Miguelangelo e ninfas nuas, assim como em uma miríade de fadas e demônios. De uma certa forma, esses trabalhos foram uma reação contra o racionalismo do Iluminismo. E, por um outro lado, eles representaram uma busca por uma mitologia unicamente britânica.

O contexto político foi relevante. O Reino Unido havia acabado de perder a sua colônia americana, enquanto a Revolução Francesa disseminava agitação pela Europa. A ferocidade --e até a vulgaridade-- dos quadros exibidos nesta exposição revelam as batalhas políticas que estavam sendo travadas na própria Grã-Bretanha durante o instável reinado de George 3º.

O fato estranho é que o homem que veio a personificar o gótico na arte inglesa tenha sido Fuseli, um artista autodidata nascido em Zurique, que tinha entre 30 e 40 anos de idade ao se mudar para Londres, e que jamais falou inglês fluentemente.

Porém, mais do que qualquer um dos seus contemporâneos, ele se debruçou sobre Shakespeare e Milton em busca de material para o seu trabalho, atraído em ambos os casos pelos elementos sobrenaturais presentes nas obras destes escritores.

Entre os 50 quadros e desenhos de Fuseli nesta exposição está "The Weird Sisters" ("As Irmãs Sobrenaturais"), o seu retrato das bruxas de "Macbeth", que é por si só uma imagem bastante copiada e parodiada.

Vários outros são mais eróticos. Por exemplo, os seus dois quadros baseados em "A Midsummer Night's Dream" ("Sonho de Uma Noite de Verão") - "Titania and Bottom With the Ass' Head" ("Titânia e Bottom com a Cabeça de Burro") e "Titania Awakening" ("Titânia Despertando") --mostram Titânia gloriosamente nua.

Fuseli certamente gostava de seus sonhos, fantasmas e espíritos. Em "Queen Katherine's Dream" ("O Sonho da Rainha Catarina") , retirado do "Henry VIII" ("Henrique 8º") de Shakespeare, a rainha deposta e moribunda é visitado por "espíritos da paz".

Os seus contemporâneos foram inspirados de maneira similar: uma pintura de Robert Thew mostra Hamlet se encontrando com o fantasma do pai, e William Blake retrata Ricardo 3º assombrado pelos espectros das suas vítimas.

Fuseli também buscou inspiração no "Paraíso Perdido", de Milton, para criar "Satan Starting at the Touch of Ithuriel's Lance" ("Satã Reagindo ao Toque da Lança de Ithuriel"), apresentando Adão e Eva nus, unidos em um abraço feliz. E, como suíço, ele tinha vínculos com as lendas e o folclore alemães. De forma geral, ele era um devoto das coisas banais.

O teólogo suíço do século 18 Johann Casper Lavater escreveu a respeito de Fuseli: "Espectros, demônios e fantasmas de homens insanos, exterminando anjos; assassinatos e atos de violência --tais são os seus objetos favoritos; e, ainda assim, eu repito, ninguém ama com mais suavidade".

Mas Fuseli foi também um bom pintor? De certa forma, a pergunta é injusta, já que ele pertence àquele grupo de artistas mais preocupados com aquilo que dizem do que com a forma como dizem. Certamente, a sua imaginação fantástica estimulou os surrealistas a retomarem o interesse pelo seu trabalho na década de 1920.

Blake também se interessava pelo sobrenatural. A Tate Britain exibe 25 das suas aquarelas, desenhos e pinturas, incluindo vários da sua série do Apocalipse. Outros usam temas bíblicos, como "God Writing on the Tables of the Covenant" ("Deus Escrevendo nas Tábuas da Lei").

Sem dúvida, o seu trabalho mais estranho e, certamente, o mais gótico, é "The Ghost of a Flea" ("O Fantasma de uma Pulga"), que mostra uma figura musculosa e vampiresca e que, segundo se diz, resultou da conversa de Blake com uma pulga.

Porém, talvez o mais surpreendente seja a forma como o gótico ainda atrai os britânicos, pelo menos a se julgar pelos críticos de arte dos jornais daqui, que responderam à exposição com uma mistura peculiar de deleite e embaraço.

"Ao terminar de ver esta exposição, passei a sentir que Fuseli é um artista de segunda, sendo, mesmo assim, um grande artista desta categoria", escreveu Richard Dorment no jornal "The Daily Telegraph".

Na edição de domingo do mesmo jornal, Suzi Feay escreveu, a respeito de "The Nightmare": "A obra é ridícula, de mau-gosto e tola. É bem Fuseli". Mas, depois, ela confessou: "A arte gótica, assim como o romance gótico, é um prazer repleto de culpa: tão prazerosa, mas você sente que ela não lhe traz nada de bom".

Rachel Campbell-Johnston escreveu para o NYT: "Esta é uma exposição estimulante, que gera emoções extravagantes". Mas a mostra também fala de um momento importante na história britânica. "À medida que passamos por salas repletas de imagens, vemos uma nação observando pela primeira vez os recessos mais profundos da sua psique, explorando os seus sonhos, as suas memórias e os seus desejos, sondando os seus medos e as suas fobias", acrescentou Campbell-Johnston. E tudo isso começou em um dia de verão em 1782. "The Nightmare", obra do pintor Henry Fuseli é destaque da mostra Danilo Fonseca

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