UOL Notícias Internacional
 

28/02/2006

Refugiados deslocados por batalhas no Sudão causam tragédia humanitária no Chade

The New York Times
Lydia Polgreen*

Em Adre, Chade
O caos em Darfur, a região devastada pela guerra civil no Sudão, onde mais de 200 mil civis já foram mortos, atravessou a fronteira para o Chade, aprofundando uma das piores crises de refugiados do mundo.

Árabes armados de Darfur atravessaram o deserto e entraram no Chade, roubando gado, queimando plantações e matando qualquer um que tentasse resistir. A falta de lei levou pelo menos 20 mil chadianos a deixarem suas casas, transformando-os em refugiados em seu próprio país.

Michael Kamber/The New York Times - 8.fev.2006 
Isto é o que sobrou da vila de Birkandje, no Chade, após violento ataque de milícias árabes

Centenas de milhares de outras pessoas nesta área, juntamente com 200 mil sudaneses que fugiram para cá em busca de segurança, agora se vêem pegos no crescente conflito entre o Chade e Sudão, dois países com uma longa história de violência e interferência nos assuntos um do outro.

"Você poderia pensar que a situação terrível em Darfur não poderia piorar, mas piorou", disse Peter Takirambudde, diretor executivo da divisão para África do Human Rights Watch, em uma recente declaração. "A política do Sudão de armar milícias e dar-lhes liberdade de ação está atravessando a fronteira e civis não têm proteção contra seus ataques, em Darfur ou no Chade."

De fato, os relatos de civis em partes do leste do Chade são terrivelmente familiares aos do oeste do Sudão. Uma mulher, Zahara Isaac Mahamat, descreveu como homens árabes em camelos e cavalos invadiram sua aldeia no Chade, roubando tudo o que encontravam e matando todos os que resistiam.

Entre os mortos estava seu marido, Ismail Ibrahim, que tentou impedir os invasores de queimarem seus campos de sorgo e painço. Como tantos outros nesta área desolada de terra arenosa, ela fugiu para o oeste com seus três filhos, assim como as pessoas em Darfur têm sido forçadas a fazer nos últimos anos.

"Eu perdi tudo exceto meus filhos", disse ela, com o rosto parecendo muito mais velho do que seus 20 anos. Ela agora é uma refugiada, assim como milhares de outros chadianos deslocados em Kolloye, uma aldeia ao sul daqui. "Só nos restam três tigelas de grãos", ela disse. "Quando isto acabar, só Deus poderá nos ajudar."

O caos é resultado de dois conflitos estreitamente ligados nos países vizinhos.

Em Darfur, os rebeldes têm enfrentado as forças do governo e os janjaweed, as milícias árabes aliadas ao governo, em uma campanha de terror que o governo Bush tem chamado de genocídio.

O Conselho de Segurança da ONU concordou com o envio de tropas para proteger os civis, mas demorarão meses para chegar. Enquanto isso, disse o presidente Bush, a Otan precisa auxiliar a missão de paz da União Africana que está fracassando lá, mas o aumento da violência tem expulsado dezenas de milhares de pessoas de suas casas nas últimas semanas.

No Chade, o governo está travando sua própria guerra contra rebeldes baseados no Sudão e dispostos a remover do poder o presidente do Chade, Idriss Deby.

Entre os rebeldes estão soldados insatisfeitos que desertaram e tribos cansadas de obedecer a membros da tribo do presidente, os zaghawa, que representam apenas um pequeno percentual da população mas que há muito dominam a política e as forças armadas.

Em um sinal de quão inseparável os conflitos se tornaram, Deby tem acusado o Sudão de apoiar a rebelião contra seu governo, e o Sudão há muito suspeita de que membros da família de Deby estão apoiando os rebeldes liderados pelos zaghawa em Darfur.

Ambos os lados concordaram em um encontro de cúpula na Líbia no início de fevereiro para colocar um fim ao apoio a rebeldes no território um do outro e para baixar o tom da conversa beligerante. Mas os rebeldes chadianos continuam no lado sudanês da fronteira, e não se sabe se Deby conta com capacidade para impedir membros de seu clã de apoiar os rebeldes em Darfur.

Se não for contida por uma intervenção internacional, esta mistura complexa e volátil de forças governamentais, milícias aliadas e pelo menos meia dúzia de grupos rebeldes em uma região remota cheia de armas quase inevitavelmente levará ao desastre, disse John Prendergast, um alto conselheiro do International Crises Group, uma organização não-partidária sem fins lucrativos, e um especialista no conflito em Darfur.

"A principal estratégia de todos estes atores, tanto os governamentais quanto os milicianos, é deslocar as pessoas para desestabilizar e minar a base de apoio do oponente", disse ele. "Nós veremos um espiral crescente de deslocamentos em ambos os lados da fronteira e um ambiente cada vez mais perigoso para os grupos de ajuda humanitária."

No Chade, o problema teve início em dezembro, quando grupos rebeldes atacaram Adre e duas outras cidades estratégicas na fronteira. O exército chadiano repeliu os rebeldes, mas retirou suas tropas de guarnições ao longo da fronteira para fortificar Adre.

A retirada deixou um vácuo de segurança que foi ocupado pelos janjaweed. A antes movimentada estrada entre Adre, uma agitada cidade de fronteira, e Kolloye se tornou um trajeto perigosíssimo, repleto de bandidos e milícias árabes. Dezenas de aldeias foram abandonadas; algumas foram incendiadas. Os poucos grupos de ajuda humanitária que trabalham nesta região sem lei evitam a estrada, usando uma rota alternativa mais a oeste para chegar a Abeche, a capital regional.

Em seis dias de viagem ao longo da fronteira, uma repórter e um fotógrafo de The New York Times viram apenas quatro policiais para manter a ordem, equipados apenas com cavalos e armados com fuzis AK-47 surrados. Fora de Adre, apenas uma patrulha militar foi encontrada.

O que parecia ser outra patrulha militar ao sul de Adre, quatro soldados comandados por um oficial idoso com óculos espessos e olhos remelentos, era na verdade um grupo de busca para o gado roubado do oficial de comando, Adoum Allatchi Gaga. Suas vacas foram roubadas por salteadores do outro lado da fronteira. Ao ser questionado sobre a situação da segurança na região, Gaga disse: "Eu não tenho nenhuma idéia. Eu só estou procurando pelas minhas vacas".

Em um hospital em Adre, o número de vítimas de tiros em dezembro e janeiro quase dobrou, para cerca de 100 por mês, disseram diretores de grupos de ajuda, um sinal sombrio da crescente falta de lei. Em uma ala estava Fatime Youma, uma menina de 13 anos com um tubo drenando o ferimento de bala que perfurou seu pulmão.

Ela foi baleada, explicou o pai dela, por janjaweed que cruzaram o caminho dela e da irmã de 16 anos, Zenab, que está no quarto ao lado com um ferimento de bala em seu braço.

"Eu estava apenas procurando lenha com minha irmã", disse Zenab. "Quando os cavaleiros nos viram, nós fugimos mas eles atirarem em nós."

O chefe de polícia de Adre, Mahamat Lony, disse que carece de policiais e armas.

"Nós temos uma situação muito catastrófica", disse ele. "Nós temos uma fronteira muito grande com o Sudão e muitos cavaleiros altamente armados no outro lado. Tem ocorrido muitas incursões e eles atacam a população. Nós temos muitos deslocados e ninguém os está ajudando."

O homem encarregado pela defesa da fronteira do Chade e pela proteção dos civis e refugiados é o general Abakar Youssouf Mahamat Itno, 38 anos, um sobrinho de Deby que foi enviado para cá no dia em que os rebeldes atacaram.

"O Sudão deseja exportar a guerra em Darfur para cá", disse Itno em seu campo nas colinas com vista para Adre. "Eles querem usar os janjaweed que armaram para aterrorizar Darfur para aterrorizar nossa população. Nós não permitiremos isto."

Mesmo assim, ele reconheceu sua incapacidade de patrulhar as áreas de fronteira. "É uma longa fronteira", ele disse. "Nós não podemos estar em toda parte ao mesmo tempo."

Não há dúvida de que os rebeldes chadianos encontraram refúgio no Sudão. Geneina, a capital de Darfur Ocidental, lembra uma cidade-guarnição; homens armados de pelo menos seis forças podem ser vistos nas ruas, assim como árabes à paisana carregando fuzis AK-47. Os moradores locais os identificam como janjaweed.

No mercado ao anoitecer, desertores do exército chadiano usando seus turbantes característicos se sentam para beber chá, com submetralhadoras ao seu lado. Trincheiras de metralhadora recém cavadas cercam os postos da polícia e do exército, e os grupos de ajuda humanitária estão cercando seus escritórios com sacos de areia. Os rebeldes chadianos contam com novas armas, uniformes e veículos, disseram diretores de ajuda humanitária em Geneina, o que leva muitos a concluir que estão recebendo apoio do governo sudanês.

Com tanto poder de fogo no lado sudanês da fronteira, os moradores de aldeias como Ade, ao sul de Adre, têm enfrentado ataques quase diários.

"Não há segurança aqui, disse Hisseine Kassar Mostapha, secretário-geral do governo local em Ade. "Nós estamos aqui completamente por nossa própria conta, sem ninguém para nos proteger."

A falta de segurança significa pouca ajuda de grupos de ajuda internacionais. Em Kolloye, 10 mil chadianos, refugiados como Mahamat, vivem em cabanas de mato sem teto que fornecem pouca proteção contra o ar frio noturno e nenhum abrigo para o sol castigante do deserto. A água é escassa e os estoques de alimentos estão baixos, disseram os aldeões. A única assistência é uma clínica móvel dos Médicos Sem Fronteiras que opera três vezes por semana.

Uma refugiada, Kaltam Abdullah, carregava seu filho de um ano no colo; sua cabeça pendia no pescoço, seus olhos estavam vitrificados e seus membros magros.

"Ele está doente do estômago há 10 dias", disse Adbullah. "Ele está tossindo. Mas não há médico."

Enquanto isso, refugiados sudaneses continuam chegando ao Chade. No mês passado foram 1.500, um aumento em comparação aos 1.000 dos três meses anteriores, disse Claire Bourgeois, a vice-representante do Alto Comissariado da ONU para Refugiados em Abeche. Ela disse que todos os campos estavam cheios exceto um, mas que está enchendo rapidamente.

Vários campos com dezenas de milhares de refugiados serão deslocados mais para oeste, disse Bourgeois, para proteger os refugiados da violência. Mas a segurança continua sendo um problema sério, ela acrescentou, e "se não há segurança, os responsáveis pela ajuda humanitária partirão".

Os refugiados sudaneses que chegaram nas últimas semanas recontam histórias sombrias de assassinato, estupro e pilhagem.

Ibrahim Suleiman Mahamat, um vaqueiro da tribo de Masalit que vivia ao longo da fronteira, disse que os janjaweed roubaram seus animais: 40 vacas, 20 cabras e ovelhas, dois camelos e dois cavalos.

Sem dinheiro e assustado, ele teve pouca escolha a não ser cruzar para o Chade com suas duas esposas e seis filhos. Ele disse que dezenas de parentes que ficaram para trás planejam se juntar a ele. Mesmo na relativa segurança do Campo de Refugiados de Gaga, a uma certa distância da fronteira, ele disse não se sentir seguro.

"Nós estamos em uma situação muito perigosa", disse Mahamat. "O que acontecerá se houver uma guerra no seu país de origem e no país para o qual fugiu? Nós não estamos em lugar nenhum. Não há lugar nenhum para irmos."

*Michael Kamber contribuiu com reportagem em Geneina, Sudão. Milícias árabes que já mataram cerca de 200.000 civis de etnia negra cruzam a fronteira e perseguem negros chadianos George El Khouri Andolfato

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