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01/03/2006

Indústria de petróleo e gás do Golfo luta para se recuperar dos furacões Katrina e Rita

The New York Times
Jad Mouawad

A bordo do MSV Botnica, Golfo do México

À altura da Louisiana
Deslizando graciosamente a 800 metros baixo do nível do mar, dois submarinos robóticos são parte de um trabalho de reparo incomum, que visa devolver os muito necessários recursos de petróleo à rede de energia no limite do país. Após dois meses gastos cavando, cortando e arrastando equipamento pesado por controle remoto, o trabalho deles poderá estar concluído no início de março.

Mas a grande tarefa de consertar o eixo de energia mais importante do país está longe de terminar. Seis meses após o furacão Katrina ter atingido o golfo com ventos de 280 km/h e ondas maiores do que prédios de oito andares, mais de um quarto da produção de petróleo da região ainda está suspensa.

Chang W. Lee/The New York Times - fev.2006 
Plataformas da Shell no Golfo do México estão entre as instalações a serem reparadas

A suspensão na produção, que representa 6% da produção doméstica do país, agravou o quadro global de margens minúsculas de oferta, tendo um papel central na manutenção dos preços do petróleo por volta de US$ 60 o barril.

Os furacões Katrina e Rita destruíram ou danificaram 167 plataformas marítimas e 183 oleodutos e gasodutos, suspendendo a produção por semanas e pressionando os preços para os níveis mais elevados desde que a queda do xá do Irã provocou um choque no petróleo no início dos anos 80. Dezenove plataformas móveis foram arrancadas de suas amarras e ficaram à deriva, algumas se afastando até 100 quilômetros.

Em comparação, o furacão Ivan, considerado uma das tempestades mais fortes no golfo quando o atingiu em 2004, destruiu apenas 7 plataformas em águas rasas e danificou outras 24 estruturas e 102 oleodutos e gasodutos.

"As tempestades atingem uma área imensa", disse Allen J. Verret, o presidente do Offshore Operators Committee, um grupo setorial. "Nós ainda estávamos nos recuperando do furacão Ivan quando as terríveis irmãs chegaram."

Agora, ele disse, "nós todos estamos preocupados com quanto tempo levará para colocar tudo novamente em funcionamento". Poucos dirão abertamente, mas as companhias de petróleo estão correndo contra o tempo. Em menos de quatro meses a próxima temporada de furacões terá início.

As tempestades severas do ano passado forçaram os Estados Unidos e seus aliados a usarem estoques estratégicos de petróleo reservados para emergências como guerras ou embargos. Mais de 32 mil quilômetros de oleodutos e gasodutos submarinos e 3 mil plataformas marítimas estiveram no caminho das tempestades.

Atualmente na região marítima do golfo, 362 mil barris de petróleo por dia, de um total de 1,5 milhão de barris, continuam sem ser extraídos, juntamente com 15% da produção de gás natural da região, ou 1,5 bilhão de pés cúbicos por dia.

Restaurar a produção tem sido um trabalho árduo devido ao impacto das tempestades nas comunidades na Louisiana, Mississippi e Texas. As companhias de petróleo tiveram que lidar com trabalhadores que perderam suas casas, prestadoras de serviços que perderam seu equipamento e uma ampla destruição na infra-estrutura básica da região.

"Todos os componentes do sistema precisam estar no lugar" antes que a produção possa ser retomada, disse Melody Meyer, que chefia a unidade de produção da Chevron no Golfo do México.

A Shell, a maior produtora de petróleo no golfo, estimou o custo em US$ 250 milhões a US$ 300 milhões. A empresa disse que três quartos de sua capacidade total de 450 mil barris por dia voltaram à produção.

Mas uma de suas maiores estruturas, Mars, que produzia cerca de 140 mil barris de petróleo por dia antes da tempestade, não deverá retomar as atividades antes do segundo semestre. A plataforma foi seriamente danificada quando uma perfuratriz tombou na tempestade, danificando equipamentos, dormitórios e a rede complexa de equipamentos eletrônicos e dutos que rodeiam todas as plataformas.

Além disso, dois dutos que transportam o petróleo e o gás natural da Mars para a costa foram severamente danificados. Sem uma opção realista de rebocar a plataforma ao estaleiro, os reparos tiveram que ser feitos no mar. Quase 500 trabalhadores estão morando em um hotel flutuante ao lado da plataforma, ligados por uma ponte enquanto completam o trabalho tedioso de consertar a estrutura.

Outros grandes produtores, como BP e Chevron, têm sofrido de forma semelhante. A Chevron, que perdeu uma grande plataforma durante a tempestade, disse que sua produção voltou a dois terços de sua capacidade pré-tempestade de 300 mil barris por dia. A empresa indicou que uma capacidade de produção de até 20 mil barris de petróleo por dia provavelmente nunca será restaurada. Ao todo, ela colocou os custos da tempestade em US$ 1,4 bilhão, um número que inclui a perde estimada de produção.

"Nós estamos lutando por recursos, como todo mundo", disse John R. Sherwood, executivo-chefe da Anglo-Suisse Offshore Partners, uma pequena produtora de petróleo que perdeu 5 de suas 30 plataformas de águas rasas. "Há uma tremenda pressão no setor de serviços, que já estava pressionado pelos altos preços de energia e que foi multiplicado pelas duas tempestades."

A indústria já estava enfrentando uma escassez de navios e pessoal qualificado, técnicos e especialistas marítimos antes dos furacões. Mergulhadores que inspecionam as plataformas estão particularmente em demanda. Equipes especiais tiveram que ser trazidas do Canadá.

O trabalho é especialmente lento quando se trata de encontrar e consertar oleodutos e gasodutos nas profundezas do golfo, onde a água é tão opaca que os mergulhadores precisam tatear o solo com suas mãos até encontrarem o pedaço que está faltando do duto.

"Definitivamente tem sido um trabalho ininterrupto dia e noite", disse Graig Reynolds, diretor administrativo da Specialty Diving, em Hammond, Louisiana. Pela primeira vez, ele teve que colocar clientes em uma lista de espera de uma a duas semanas.

A Costa do Golfo é a região mais sensível para a oferta de energia do país. As refinarias no Texas e na Louisiana são responsáveis por quase metade da capacidade doméstica do país e a maioria delas foi afetada pelas tempestades.

Atualmente, até 1 milhão de barris por dia de capacidade, ou 6% da capacidade total de refino do país, permanece inoperante. Grande parte disto deverá estar de volta até o final de março, segundo o Departamento de Energia.

A recente onda de furacões expôs a dependência do país da frágil infra-estrutura da região e levantou dúvidas desconfortáveis sobre sua confiabilidade como fonte doméstica de energia mais crítica dos Estados Unidos.

"Nós não fizemos nada para reduzir nossa vulnerabilidade", disse Ted M. Falgout, diretor do Porto de Fourchon, o maior eixo de serviços para o setor marítimo, a cerca de 130 quilômetros ao sul de Nova Orleans. "Eu odeio pensar na próxima temporada de furacões."

O porto é uma colméia de guindastes, docas e ancoradouros em atividade, com helicópteros sobrevoando, um fluxo constante de caminhões chegando e navios zarpando para o mar. Tudo o que é necessário para o funcionamento de uma plataforma marítima, de papel higiênico até geradores elétricos pesados, é carregado lá.

Foram necessários às autoridades do porto três dias para a liberação da via marítima depois do furacão Katrina, disse Falgout. Enquanto outros portos na costa foram devastados, o Porto de Fourchon conseguiu retomar as operações em questão de dias.

Nas semanas que se seguiram após a tempestade, algumas companhias de petróleo usaram pequenos petroleiros e barcas para transportar petróleo para a costa, ou redirecionando o fluxo por oleodutos não danificados. Enquanto reparam os danos, a maioria das empresas continua explorando as profundezas do golfo em busca de novas reservas.

"Eles contam com todo incentivo para o reinício das atividades", disse Chris C. Oynes, chefe do escritório regional do Golfo do México do Serviço de Gestão de Minerais do Departamento do Interior.

No mar, a cerca de 45 minutos de helicóptero do Porto de Fourchon, o Botnica de 97 metros de comprimento -que normalmente atua como quebra-gelo- é a última coisa que você esperaria encontrar nas águas semitropicais do golfo. Apesar da Shell ter reunido uma armada de 24 navios para inspecionar seu equipamento no golfo, ela precisava de um tipo especial de navio, capaz de permanecer precisamente acima de um ponto determinado por semanas, enquanto minissubmarinos substituíam duas seções de 26 metros de dutos ligando Mars à costa.

"Nenhuma outra embarcação estava disponível para o trabalho", disse Mike Coyne, um engenheiro sênior da Shell, que supervisiona os 2.400 quilômetros de oleodutos e gasodutos da empresa no golfo.

Os dutos, a cerca de 160 quilômetros a sudeste de Nova Orleans, foram esmagados quando uma plataforma se soltou de suas amarras durante a tempestade, arrastando uma âncora de 12 toneladas que sulcou o fundo do mar.

Os engenheiros da Shell tiveram que elaborar novos procedimentos para um trabalho realizado além da profundidade de mergulho, assim como empregar novos instrumentos para que pudessem ser alimentados pelo sistema hidráulico dos minissubmarinos.

O trabalho usou veículos submarinos operados por controle remoto pela primeira vez neste tipo de reparo, envolvendo dezenas de engenheiros na costa, um manual passo a passo mais grosso que a lista telefônica de Nova York e minissubmarinos apelidados de Mil-28 e Mag-77.

"Soa simples, mas na verdade é bem complicado quando você tem que fazer algo a 900 metros de profundidade no mar", disse Frank Glaviano, o chefe de produção para América do Norte e Sul da Royal Dutch Shell. "Nunca foi feito antes."

Na mesa de controle, o capitão do navio parecia dividido quanto ao trabalho. "Eles realmente precisariam de nós na Finlândia no momento", disse Leif Kampe, o capitão do Botnica, que geralmente atravessa gelo de 9 metros de espessura nesta época do ano. "Mas aqui se ganha mais dinheiro."

E é mais quente. "É agradável", ele acrescentou, "estar aqui com o pessoal do sul". Mais de um quarto da produção da região permanece paralisada George El Khouri Andolfato

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