UOL Notícias Internacional
 

02/03/2006

Cai a máscara dos caras durões em paródias de "O Segredo de Brokeback Mountain"

The New York Times
Virginia Heffernan
Os caubóis gays, ao que tudo indica, têm tudo para se tornar iguais a "Who's on first?" ("Quem chegou primeiro?") ou "os aristocratas", ou seja, uma piada que segue rendendo mais piadas. Enquanto as colunas de humor no estilo "Quem quer mesmo assistir a isso?" sobre "Brokeback Mountain" acabaram minguando, as paródias online do filme de caubóis gays continuam a proliferar mais rapidamente que sites com vídeos sobre curadorias de museus.

Entre esses sites paródicos estão incluídos youtube.com, gorillamask.net, e dailysixer.com (que tem uma seção intitulada "Sátiras de Brokeback"). Todos eles estão determinados a seguir alimentando este filão. Alguns são estúpidos, enquanto outros são ótimos e muito engraçados. Mas, quando eles vêm a fazer comentários sobre as formas e as cerimônias que caracterizam os relacionamentos gays típicos, eles se mostram surpreendentemente afiados, e merecem ser levados a sério.

Todas essas paródias adotam o mesmo formato: elas são trailers de montagens imaginárias que combinam elementos de "Brokeback Mountain" com outros filmes. As verdadeiras montagens, é claro, não existem; apenas esses trailers são verdadeiros.

Eles são produzidos de maneira anônima ou por companhias de teatro de comédia, ou ainda por lojas de design, tais como a Chocolate Cake City ou a Robot Rumpus. Ambas informam seus endereços na Web no final dos seus vídeos paródicos, intitulados "Brokeback to the Future" (combinação de "Brokeback" com "De Volta Para o Futuro") e "The Empire Breaks Back" (mesma combinação, só que com "O Império Contra-Ataca"). Os seus criadores mantêm-se no anonimato, provavelmente para tentar evitar importunos processos na justiça por direitos autorais.

Quando elas são bem produzidas, as paródias poderiam provavelmente servir de cartão de visita para aqueles que assinam sua obra; alguns deles são acessados centenas de milhares de vezes. Contudo, de maneira geral, as sátiras de "Brokeback" nada mais são que exercícios de amor pela arte, ou manifestações de pânico gay, ou ambos.

Na maioria dos casos, as paródias utilizam o tema original sexy e triste de "Brokeback Mountain", composto por Gustavo Santaolalla, junto com os letreiros e chamadas tirados do trailer deste filme, para inserir trechos editados de um outro filme.

Isso funciona quase sempre: um filme gay parece estar se desenrolando quando cenas entre atores principais, ou entre um único ator principal junto com um coadjuvante, são apresentadas em câmera-lenta, combinadas com uma trilha sonora e interrompidas constantemente por textos chamativos que trazem dizeres tais como: "Uma verdade que eles não podiam negar".

A edição desses vídeos e o recurso da câmera-lenta sugerem de fato que os close-up, especialmente os que são exibidos de maneira extensa, são intrinsecamente eróticos. Tudo o que essas paródias precisam fazer para encenar o relacionamento é mostrar o rosto de um homem num primeiro plano tão detalhado quanto demorado, e cortar a imagem para mostrar a do outro homem, que parece estar olhando com a mesma atenção extasiada que o espectador foi compelido a prestar para as imagens em câmera-lenta. Um subtexto gay de repente surge à luz do dia.

Mas o que é mais hábil por parte dessas paródias é a utilização que elas fazem do diálogo extraído do filme com o qual elas promovem a montagem com "Brokeback".

Muito pouco dos diálogos de "Brokeback" tem sido reutilizado neste contexto, com a exceção de duas réplicas apaixonadas do administrador de fazenda Jack Twist: "Isso é da nossa conta e de ninguém mais", e "Deus, como eu gostaria de saber como me separar de você!" - os quais aparecem de vez em quando, principalmente quando um parodista desiste de tentar encontrar um outro caminho para a sua história.

Mas a maioria dos parodistas não desiste, contudo, e se esforça para tentar tirar uma trama gay daquilo que já existe em filmes mais antigos, todos os quais, diferentemente de "Brokeback Mountain", já estão disponíveis em DVD, o que lhes permite manipulá-los por meio de softwares tais como iMovie.

Esses filmes --"Heat - "Fogo Contra Fogo" (1995, com Al Pacino e Robert De Niro), "Amigos, Sempre Amigos" (1991, com Billy Crystal), "Titanic" (1997), "Clube da Luta" (1999)-- oferecem quantidades de réplicas evocativas para serem utilizadas pelos parodistas. Quase toda cena em que um homem mais experiente está tentando incentivar um ingênuo a acompanhá-lo nos seus sonhos, por exemplo, parece estar dotada de duplo sentido e vira um diálogo gay.

"Pare de tentar controlar todas as coisas, e simplesmente deixa rolar, deixa rolar!", diz Tyler Durden (Brad Pitt) ao personagem anônimo de Edward Norton em "Clube da Luta". Na paródia de "Brokeback", o diálogo parece fazer parte de uma tentativa de sedução desabrida.

Em "O Império Contra-Ataca", Anakin Skywalker diz: "Alguma coisa está acontecendo. Eu quero mais, e sei que eu não deveria". Em outra cena, Palpatine o adverte: "No momento certo, você aprenderá a confiar nos seus sentimentos". Quando os diálogos são editados juntos na paródia, mais uma vez eles funcionam de maneira convincente como cena de amor.

Outros problemas vivenciados por heróis de Hollywood, colocados num novo contexto, se parecem muito com gritos do coração proferidos por gays. Em "Caçadores de Emoção" ("Point Break",1991), o personagem de Keanu Reeves, Johnny Utah, diz gemendo: "Eu não consigo descrever o que estou sentindo"; quando esta réplica aparece em "Point Brokeback", a paródia, ela parece expressar a incapacidade de Johnny de encarar seus desejos gays.

Para causar frisson, ou talvez por desejo de autenticidade, algumas das paródias recorreram a cenas com atores tais como Keanu Reeves e Tom Hanks que chegaram a encarnar personagens gays em outros filmes.

Um problema que costuma enfrentar o herói de ficção científica tradicional, particularmente aquele que viaja no tempo, é de não conseguir descrever seus relacionamentos para outras pessoas; se ele viajou de volta no tempo, será que ele pode ser um conterrâneo da sua própria mãe? Isso é verdadeiro para Marty McFly, o personagem de Michael J. Fox em "De Volta Para o Futuro" ("Back to the Future"), o qual foi um dos primeiros filmes a aparecer numa montagem paródica com "Brokeback Mountain", (intitulada, de maneira previsível: "Brokeback to the Future").

Na cena "emprestada" pelos parodistas, Marty apresenta o Dr. Brown (Christopher Lloyd), dizendo: "Este é o meu - hem - Doc. Meu tio. Doc!" Na nova edição, estas frases soam como uma apresentação confusa e gaguejada que um jovem rapaz reservado poderia fazer do seu namorado mais velho, o qual está tentando passar por seu patrão, seu sócio ou seu tio.

De modo similar, quando Frodo (Elijah Wood) apresenta Sam (Sean Astin) na sedutora montagem de "Senhor dos Anéis", perguntam-lhe: "É o seu guarda-costas?" E Sam o corrige: "Não, sou o jardineiro dele".

Cerca de 60 anos atrás, Leslie Fiedler defendeu a idéia segundo a qual os grandes romances americanos do século 19 costumavam dramatizar uma história de amor entre homens, quase sempre entre um homem branco e outro de cor: Ishmael e Queequeg, Natty Bumppo e Chingachgook, Huck e Jim. Ele seguiu sua brilhante carreira acadêmica com base nesta tese espantosa, a qual ele se dedicou a demonstrar no seu livro "Amor e Morte no Romance Americano", em 1960.

Agora, a tese de Fiedler parece se aplicar também aos filmes de Hollywood, mas as releituras minuciosas que refinaram e ampliaram a concepção de Fiedler, desta vez foram produzidas não por estudantes de graduação e sim por traquinas que operam online e utilizam pouco mais que laptops, uma conexão de banda larga e um editor de imagens Final Cut Pro.

Contudo, dentre essas paródias, a minha predileta não exigiu muita tecnologia nem mesmo grandes habilidades de edição, e sim apenas uma boa compreensão das cenas de intensidade emocional entre homens, dotadas de duplo sentido.

É a montagem de "Brokeback" com "Heat - Fogo Contra Fogo", o subestimado filme de Michael Mann com Al Pacino e Robert De Niro. "Heat" era um filme noir psicológico, com os mega-astros encarnando um policial detetive, Vincent, e um criminoso, Neil, respectivamente.

Na versão verdadeira, eles estão falando sobre a vida dos tiras que perseguem ladrões, mas, em "Brokeback Heat,", que apenas repete sem quaisquer truques uma cena inteira entre eles, eles parecem estar falando para o mundo inteiro do seu amor, e do amor gay em geral, e da sua reticência a levarem uma vida "certinha".

"E então, se você me flagrar chegando por este lado da rua, você simplesmente irá largar desta mulher com quem está?", pergunta Vincent. "Nem vai dizer até logo?"

"Esta é a disciplina", diz Neil.

"Isso é uma senhora tolice, você sabe", diz Vincent.

"Que seja o que for", responde Neil. "É isso, ou então seria melhor a gente fazer outra coisa, meu caro".

"Eu não sei fazer qualquer outra coisa", diz Vincent.

"Nem eu", diz Neil.

"Nem sei se eu quero tanto assim fazer outra coisa", diz Vincent.

"Nem eu sei", diz Neil.

Considerada objetivamente ou como um destaque, esta cena mostra simplesmente Pacino e De Niro atuando numa cena em combustão lenta. E o que eles estão querendo dizer não é da conta de ninguém, a não ser deles mesmos. Montagens satíricas que podem ser vistas na Internet brincam com duplos sentidos, "desviando" cenas de filmes comuns para o contexto gay, as quais são misturadas com o favorito ao Oscar Jean-Yves de Neufville

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