UOL Notícias Internacional
 

02/03/2006

Taleban resiste aos EUA e ameaça o Afeganistão

The New York Times
Carlotta Gall

Em Loy Karez, Afeganistão
Quando Haji Lalai Mama, o ancião tribal de 60 anos desta aldeia, tentou corajosamente organizar recentemente uma força de defesa tribal contra o Taleban, ele o fez com um pequeno punhado de homens e apenas três rifles. "Nós estávamos patrulhando e prontos", ele lembrou.

Mas não estavam prontos o bastante. O Taleban os surpreendeu protegidos pela escuridão e usando uma estrada secundária. Um aldeão foi morto e 10 outros foram feridos por uma granada. Dois talebans foram capturados no confronto. Os demais desapareceram na noite.

The New York Times 
Taleban emerge das montanhas do Afeganistão para destruir escolas e intimidar o povo

Os homens em Loy Karez foram excepcionais ao realizarem uma defesa. Poucos no sul do Afeganistão estão prontos para enfrentar o Taleban, pelo menos sem um maior apoio ou benefícios do governo afegão.

Na verdade, quatro anos após terem sido derrubados do poder pelas forças armadas americanas, a presença do Taleban está maior e mais ameaçadora do que nunca, dizem policiais e autoridades do governo, aldeões, agricultores e funcionários de ajuda humanitária de todo sul do Afeganistão.

Autoridades afegãs e americanas têm dito há meses que o Taleban não é mais capaz de travar grandes batalhas, e tal fraqueza mudou suas táticas para bombas em estradas ou a escolha de alvos vulneráveis, como ataques a aldeias, matar professores e queimar escolas.

Mas apesar da evidente supremacia militar, a aliança liderada pelos Estados Unidos não foi capaz de erradicar a insurreição. E as táticas do Taleban têm tido sucesso em semear o medo, quase todos concordam aqui.

Os militantes fecharam cerca de 200 escolas por meio de ameaças e incêndios em todo o sul do Afeganistão, matando dezenas de autoridades, líderes tribais e civis ao longo do último ano. O comércio caiu acentuadamente em Kandahar, em grande parte devido aos vários atentados suicidas dos últimos meses.

Nas aldeias, as pessoas estão pedindo para que estrangeiros e organizações não-governamentais não se aproximem, não por não precisarem de ajuda, mas por medo de represálias por parte do Taleban, disseram funcionários de ajuda humanitária e aldeões.

Alguns, como o comandante local da polícia de fronteira afegã, o coronel Abdul Razziq, 30 anos, disse que a situação está atingindo um ponto crítico, pelo menos em sua área.

"As pessoas estão cheias do Taleban", disse ele. "Eles não permitem que as organizações venham e construam estradas, cavem poços e construam escolas. As pessoas estão cheias deles. Eu acho que agora as pessoas precisam combatê-los. Por quanto tempo tolerarão isto?"

As forças armadas americanas reagem rapidamente com poder aéreo esmagador quando encontram um grupo do Taleban de qualquer tamanho, como fez recentemente na província de Helmand, quando as autoridades locais alegaram que 200 talebans estavam à solta.

Mas até agora o Taleban, os criminosos e os traficantes de drogas, que freqüentemente trabalham juntos, têm tido facilidade em Helmand por virtualmente não haver presença de segurança na província, nem do exército afegão e nem da força internacional em qualquer capacidade, disse o coronel Henry Worsley, comandante das tropas britânicas.

Os britânicos estão começando a chegar a Helmand como parte da nova força da Otan que está assumindo o comando do sul do Afeganistão neste ano. A polícia local também está carente de equipamentos e treinamento, ele disse.

"Eles são claramente uma ameaça", ele disse sobre o Taleban e seus aliados traficantes de drogas. "Mas eles tiveram uma vida relativamente fácil até agora e isto irá mudar."

As tropas britânicas estão planejando uma extensas patrulhas juntamente com as forças afegãs, incluindo patrulhas a pé e à noite para melhorar a segurança nas aldeias, ele disse.

As forças americanas não dedicaram muito tempo e esforço a Helmand, reconheceu o comandante da aliança liderada pelos Estados Unidos, o general de exército Karl Eikenberry, em uma recente entrevista. Mas dedicou bastante tempo e investimento na província vizinha de Kandahar, onde o Taleban também ampliou sua influência.

Eikenberry não aceita a sugestão de fracasso. "O desafio não é o fato do inimigo ser forte, mas após 25 anos de guerra as instituições do Estado serem fracas", ele disse recentemente para um encontro de anciões em Kandahar.

Após ouvir discurso após discurso pedindo para que os americanos usassem sua influência junto ao Paquistão para repressão das operações do Taleban na fronteira, ele pediu aos afegãos para que olhassem no espelho, dizendo que eles também tinham um papel.

"A melhor estratégia quando temos um problema é nos olharmos no espelho", ele disse. "Isto significa construir um governo, conseguir um governo limpo que não seja corrupto, impedir o cultivo de papoula, formar um Exército Nacional Afegão e uma polícia nacional. Este é o primeiro passo."

O presidente Hamid Karzai também apelou por ajuda aos anciões tribais em um recente encontro, reconhecendo que o governo não pode conseguir nada sem a cooperação das pessoas.

Mas no sul do Afeganistão, as pessoas parecem estar esperando pela cooperação do governo.

Um comandante de polícia em Kandahar, Mullah Gul, que está enfrentando o Taleban há quatro anos, os descreveu como a ovelha negra da família. "Eles são um problema", ele disse, "mas não é algo que não podemos resolver sozinhos".

Apesar dos aldeões não apoiarem o governo, a maioria está em cima do muro e apenas uns poucos estão ajudando ativamente o Taleban, disseram autoridades policiais. Os aldeões se dizem pegos no meio do fogo cruzado e que recebem pouco apoio do governo.

"Nós os levamos muito a sério", disse Jamal Khan, 24 anos, um agricultor do distrito de Nawa, na província de Helmand, sobre o Taleban. "Eles vêm à noite para nossa aldeia. Nós não estamos armados e eles pedem comida e um local para ficar. Nós não podemos dizer nada. Então o governo vem pela manhã e diz que abrigamos o Taleban. Mas o que podíamos ter feito?"

A escola em sua aldeia ainda estava sendo construída, ele disse, mas se tornou o flagelo da vida dos aldeões desde que homens armados tentaram incendiá-la. Os aldeões lutaram para expulsá-los daquela vez mas tiveram que enfrentar disparos.

"O chefe do distrito está dizendo aos anciões que devemos proteger a escola, mas os anciões estão dizendo que não temos armas, que não podemos enfrentar o Taleban", ele disse. Professores a alunos já deixaram de ir à escola, ele disse, acrescentando: "Logo eles incendiarão a escola, se não em uma semana, então em um ano".

Mas há evidência de que pelo menos alguns anciões e outros na região, desconfiados de um governo que dizem ser corrupto e explorador, nutrem simpatia pelo Taleban. Os anciões do distrito de Sangin de Helmand, onde os aviões americanos bombardearam recentemente, disseram ter se juntado em pequeno número ao Taleban porque funcionários do governo os têm oprimido e roubado.

"O Taleban está nas aldeias, entre as pessoas", disse Ali Seraj, um descendente da família real do Afeganistão e natural de Kandahar, que argumenta que o governo está perdendo os corações e mentes das pessoas comuns.

Com suas autoridades locais freqüentemente corruptas e brutais, o governo tem empurrado as pessoas para os braços do Taleban, disse Abdul Qadar Noorzai, chefe da Comissão Independente Afegã de Direitos Humanos, em Kandahar.

"Estas são pessoas sem instrução, que não confiam no governo e não vêem ajuda vindo dele, de forma que a população local começa a fazer as coisas que o Taleban faz", ele disse.

Em Loy Karez, Haji Lalai, o ancião tribal que liderou a defesa contra o Taleban, identificou apenas quatro homens que eram simpatizantes do Taleban.

Quanto aos dois jovens capturados no confronto, eles tinham se juntado ao comandante do Taleban, Abdul Samad, naquele dia. Eles nem mesmo tinham armas, eles disseram em uma entrevista na delegacia de polícia em Kandahar, onde estavam detidos.

Trabalhadores pobres e sem instrução da cidade de fronteira de Spinboldak, eles pareciam ter se juntado ao Taleban sem muita persuasão.

"Um amigo disse: 'Vamos partir e lutar a jihad'", disse Saifullah, 20 anos, que vendia calçados com um carrinho de mão no mercado. "Eu não queria ir, mas eles nos fizeram ir. Nós não temos instrução; não entendemos."

Mas este grupo heterogêneo de seis ou sete foi suficiente para assustar os aldeões. Foi apenas quando Haji Lalai, que tem reputação de homem forte, voltou a morar na aldeia que ela se ergueu para enfrentar o Taleban.

"Nós enfrentamos o Taleban e salvamos esta terra do Taleban, de forma que se o governo não nos ajudar e nos der atenção, então ninguém mais enfrentará o Taleban", disse Khudai Nazar, um ex-policial de 32 anos que se juntou a Haji Lalai em sua força de defesa da aldeia. "Se conversarem conosco, então toda a região enfrentará o Taleban." 4 anos após serem derrubados pelos americanos, a presença da milícia fundamentalista está maior e mais ameaçadora que nunca George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,48
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,53
    75.604,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host