UOL Notícias Internacional
 

03/03/2006

George W. Bush, o despreparado

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
Os insurgentes iraquianos, os furacões e os beneficiários de baixa renda da ajuda social Medicare têm três coisas em comum. Todos eles estiveram no centro de um desastre político. Em cada um desses casos, os especialistas advertiram sobre o desastre que estava por ocorrer. E em cada caso --bem, vamos dar uma olhada no que aconteceu.

O escritório da redação em Washington do jornal "Knight Ridder" relata que de 2003 em diante, as agências de inteligência "advertiram repetidamente a Casa Branca" de que "a insurgência no Iraque tinha profundas raízes locais, estava propensa a se intensificar e poderia conduzir a uma guerra civil".

Mas os oficiais do alto escalão da administração insistiram na defesa do seu ponto de vista, segundo a qual esses insurgentes não passavam de uma mistura de franco-atiradores arruaceiros com terroristas estrangeiros.

Os analistas da inteligência que se recusaram a subscrever a esta opinião foram criticados por estarem jogando contra o próprio time. Segundo o "U.S. News & World Report", a reação do presidente Bush a um relatório pessimista enviado pelo chefe da base da CIA (Agência Central de Inteligência) em Bagdá foi de rebater com a seguinte pergunta: "O que vem a ser este sujeito? Uma espécie de derrotista?"

Muitas pessoas agora já assistiram ao vídeo do relatório que Bush recebeu antes que o furacão Katrina assolasse Nova Orleans. Muito já foi dito a respeito da revelação de que Bush foi desonesto quando garantiu alguns dias depois que ninguém havia previsto a ruptura dos diques.

Mas o que é realmente espantoso, considerando-se a gravidade das advertências, é a falta de agilidade que Bush e a sua administração mostraram ter ao reagir à tempestade e aos danos que ela provocou. Uma nação horrorizada assistiu às cenas de miséria no Superdome e ficou se perguntando por que a ajuda não havia chegado.

Mas, conforma relata a revista "Newsweek", ao longo de vários dias, ninguém estava interessado em dizer a Bush, que "assimila toda divergência a uma deslealdade", o quanto a situação era grave. "Durante a maior parte daqueles primeiros dias", conta a "Newsweek", "tudo o que Bush ficou ouvindo era que o trabalho das agências federais era excelente".

Passamos agora para um caso do qual você pode não ter ouvido falar. O novo programa de remédios a preços reduzidos do Medicare foi prejudicado por início desastroso: "Os beneficiários de baixa renda do Medicare em todo o país não raro tiveram que pagar quantias muito acima das devidas, enquanto alguns deles foram expulsos das farmácias sem conseguirem obter seus medicamentos, durante a primeira semana do novo programa de remédios de baixo custo do Medicare", relatou o New York Times.

Como tal coisa pôde acontecer? Da mesma maneira que os outros desastres ocorreram: os especialistas que haviam alertado para prováveis problemas que estavam por vir receberam como resposta a ordem de "calarem a boca".

Nós podemos agora ter uma idéia mais precisa do que aconteceu ao analisar um relatório divulgado em 2005 pelo Escritório de Auditoria Governamental (Government Accountability Office - GAO), uma entidade suprapartidária implantada no Congresso, sobre os problemas potenciais que ameaçavam o programa de remédios. Foi incluída no relatório uma carta de Mark McClellan, o administrador do Medicare.

Em vez de levar a sério as preocupações do GAO, ele tentou descaracterizá-las, alterando as conclusões do relatório. Ele exigiu que o documento mencionasse que a administração havia "estabelecido planos de contingência efetiva" --o que na verdade não havia sido feito-- e que fosse eliminada a asserção de que algumas pessoas iriam enfrentar dificuldades para obter os remédios necessários. Ora, foi exatamente isso que aconteceu.

Os especialistas que atuam nos serviços dos centros de ajuda social Medicare e Medicaid devem ter enfrentado intimidações similares. E, diferentemente dos especialistas do independente GAO, eles não estavam numa posição de defender aquilo que eles sabiam ser verdadeiro.

Resumindo, o nosso país está sendo dirigido por pessoas que acreditam que as coisas acontecerão do jeito que eles querem. E caso alguém se arriscar a alertar para prováveis problemas, eles atiram no mensageiro.

Alguns comentaristas falam da série de desastres que afligem agora a administração Bush --toda semana, parece que uma nova desgraça está surgindo-- como se fosse apenas uma fase de má sorte. Mas não é.

Se a sorte boa é o que ocorre quando o preparo se alia à oportunidade, a má sorte é o que ocorre quando a falta de preparo se depara com um desafio. E os nossos líderes, que acreditam poder governar por meio de uma combinação de pensamento bem intencionado com intimidação, em caso algum estão se mostrando preparados. Em vez de admitirem as críticas, os funcionários do governo apelam para a intimidação, mas as suas ações seguem desastradas Jean-Yves de Neufville

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