UOL Notícias Internacional
 

04/03/2006

Longas esperas e fechamentos impedem passagem da Faixa de Gaza para Israel

The New York Times
Greg Myre

Na Passagem de Erez, Faixa de Gaza
Às 3 horas da madrugada em uma fria noite de inverno, as tensões neste ponto de passagem estavam crescendo.

Envoltos em neblina, presos em uma longa fila que não se movia, vários milhares de trabalhadores palestinos com permissão para trabalho em Israel estavam começando a se irritar. Antes de poderem entrar em Israel, eles precisam passar pela revista diária de segurança, e muitos enfrentam longos percursos depois dela. A viagem matinal pode durar quatro horas ou mais, todo dia de trabalho --grande parte delas gastas na fronteira entre Gaza e Israel.

George Azar/The New York Times - 22.fev.2006 
Palestinos fazem fila durante a madrugada para atravessar barreira entre Gaza e Israel
A frustração crescia, até que homens repentinamente passaram pelos impotentes guardas palestinos e percorreram o longo túnel com cheiro de urina até a barreira israelense. Ela estava fechada, o caminho impedido por um portão de metal. Os trabalhadores urraram em fúria, se sentindo traídos e revoltados pelo dia de trabalho perdido e amaldiçoando Israel.

Uma constante fonte de atrito para ambos os lados, as passagens são cruciais para Gaza, com sua população de 1,4 milhão espremida em uma área de cerca de menos de 10 km de largura e cerca de 40 km de extensão, pequena demais para ser auto-suficiente. A cerca israelense ao longo do perímetro de Gaza tem três passagens: Erez no norte, para aqueles que entram e saem de Israel; Karni ao leste, que lida com carga; e Rafah ao sul, na fronteira egípcia.

Uma visita a todas as três em 21 de fevereiro ofereceu uma imagem de como elas estão lutando para funcionar em um momento de incerteza, com o Hamas, o grupo radical islâmico, prestes a liderar a Autoridade Palestina e Israel alertando que responderá com controles de segurança ainda mais severos.

Quando Israel se retirou do território no verão passado, o fez sem um arranjo sobre como as passagens funcionariam. Em novembro, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleeza Rice, intermediou um acordo que tratava das preocupações de segurança israelenses, ao mesmo tempo em que permitia a entrada e saída de Gaza de bens e dos palestinos, com preocupação particular dedica à exportação de produtos agrícolas.

Mas os palestinos ainda enfrentam grandes dificuldades para viajar e exportar e os israelenses que trabalham nas passagens continuam sendo atacados.

"Israel entende que é importante permitir o maior fluxo possível de bens e pessoas entrando e saindo de Gaza", disse Mark Regev, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel. "Mas tal meta precisa ser equilibrada com a verdadeira ameaça de segurança que existe."

Durante os dias relativamente calmos dos anos 90, dezenas de milhares de habitantes de Gaza entravam diariamente em Israel, e os palestinos tiveram até mesmo permissão para abrir um aeroporto no sul de Gaza. Mas após o início do levante palestino em 2000, Israel fechou o aeroporto e manteve rígidas restrições nas passagens.

Atualmente, Israel permite que 5 mil trabalhadores atravessem diariamente, todos em Erez. Os empregos em Israel são cobiçados, apesar da viagem exaustiva e frustrante, porque pagam até US$ 40 por dia. Isto é bem mais do que um trabalhador pode ganhar em Gaza, se conseguir encontrar emprego.

Yousef Al Masri, 52 anos, um pai de 14 filhos e um mecânico de automóveis, acorda à 1 hora da madrugada e está em Erez uma hora depois. Ele diz que tem sorte quando consegue chegar ao trabalho -a menos de 65 quilômetros de distância, perto de Tel Aviv, às 8 horas da manhã.

Ela sai do trabalho por volta das 17 horas, e geralmente chega em casa às 19 horas. Ele tem poucas horas disponíveis para ver sua família, comer, tomar banho e dormir. Então recomeça tudo de novo.

Os freqüentes fechamentos em Erez significam que ele freqüentemente não consegue passar. Ele disse que seu chefe está treinando um mecânico israelense, possivelmente para substitui-lo.

"Acredite, se existissem empregos em Gaza, nós permaneceríamos aqui e nunca iríamos novamente para Israel", disse Masri, um dos homens irados que ficaram retidos em Erez em 21 de fevereiro. O portão de metal finalmente foi aberto por volta das 5 horas da manhã, e cerca de 2.400 trabalhadores passaram.

Israel instalou scanners de alta tecnologia para checar os trabalhadores palestinos que entram, para que os agentes de segurança israelenses possam permanecer atrás de blocos de concreto e vidro à prova de balas. Os israelenses dão instruções por um intercomunicador com chiado, que freqüentemente resulta em desentendimento.

Em 9 de fevereiro, forças de segurança israelenses mataram a tiros dois palestinos que atacaram a passagem de Erez com rifles e granada durante a travessia diária pré-amanhecer. Foi o 16º ataque a Erez nos últimos cinco anos. Doze israelenses morreram em ataques; um número maior de agressores palestinos foram mortos.

Um terminal muito maior está em construção e deverá ficar pronto neste ano. "A idéia é torná-lo como um aeroporto ou um posto de fronteira internacional, mas isto leva tempo", disse Shlomo Dror, um porta-voz do governo israelense que lida com estas questões há muitos anos.

Na passagem de Karni poucas horas depois, mais de 100 caminhões palestinos estavam parados. A passagem deveria abrir às 8 horas da manhã, e Walid Abu Shouqa, que é o responsável pela segurança palestina em Karni, disse não ter recebido nenhuma explicação de seus pares israelenses sobre o atraso. "Eu telefono para os israelenses toda manhã assim que chego, mas nunca sei se autorizarão a abertura", disse Shouqa.

O muro de concreto de 9 metros de altura percorre cerca de 400 metros ao longo da fronteira, com 30 baias de carga. Os caminhoneiros israelenses estacionam seus veículos contra o muro e enviam suas cargas para Gaza por esteiras de transporte, sem nunca entrar no território.

Os palestinos fazem o mesmo do seu lado, mas seus bens são rigorosamente checados, um processo que pode levar horas, para assegurar que nenhuma arma esteja escondida nas cargas. Em um dia bom, cerca de 300 caminhões israelenses e 50 palestinos passam suas cargas pelo muro. Israel está adquirindo equipamento para esquadrinhar os contêineres dos caminhões sem a necessidade de descarregar o conteúdo, mas é improvável que esteja em operação antes do final deste ano.

Ayman Badwan foi o último na fila de 800 metros no lado palestino. Seu caminhão, carregado com oito toneladas de pepino e pimentão, não se moveu por quatro horas. Ele calculava seu tempo de espera em dias.

"Eu já esperei até uma semana", disse Badwan. "Eu me sinto com sorte quando consigo fazer isto em apenas um dia."

Os palestinos já atacaram Karni em várias ocasiões, incluindo um ataque em janeiro de 2005 que matou seis cidadãos israelenses. Em meados de janeiro deste ano, Israel fechou Karni por quase três semanas, dizendo dispor de inteligência de que militantes palestinos estavam cavando um túnel para atacar o terminal. Era o meio da colheita de inverno em Gaza, quando os palestinos normalmente exportam frutas, legumes e flores para Israel, Europa e países árabes.

Nenhum túnel foi encontrado e Karni foi reaberta no início de fevereiro. Mas àquela altura, disseram autoridade agrícolas palestinas, mais de 1.000 toneladas de produtos agrícolas, no valor de milhões de dólares, tinham apodrecido.

Em 21 de fevereiro, o dia da visita às passagens, uma explosão misteriosa sacudiu a área próxima da passagem de Karni pouco antes de ser fechada. Ninguém ficou ferido, mas Israel fechou Karni, sem dizer quando seria reaberta. Ela ainda estava fechada em 3 de março.

Mesmo neste grau limitado de operação, os terminais de Gaza exigem contato diário entre oficiais de segurança palestinos e israelenses. Mas não se sabe se esta interação continuará assim que o Hamas assumir o poder. Israel e o Hamas sempre se recusaram a negociar um com o outro.

"Seria muito mais fácil lidar com estas ameaças se houvesse uma boa cooperação de segurança", disse Regev, o porta-voz israelense. "Mas com a eleição do Hamas, ninguém sabe que grau de cooperação de segurança existirá, se é que haverá algum."

Na ponta sul de Gaza, ao longo da fronteira com o Egito, o clima tranqüilo e o fluxo constante de viajantes palestinos no terminal de Rafah contrasta enormemente das outras duas passagens.

Desde o final de novembro, os palestinos passaram a ter pela primeira vez controle de sua própria fronteira e uma média de 1.350 palestinos entram e saem diariamente do Egito.

"Aqui é muito melhor do que em qualquer outro posto, porque é nosso posto de fronteira", disse Naal Kishawi, 46 anos, um empresário de Gaza que estava voltando do Cairo com seu filho adolescente, que passou por tratamento devido a um ferimento na mão.

Rafah costumava ser tão tensa quanto as outras fronteiras de Gaza. Mas as forças de segurança israelenses partiram durante a retirada de Gaza e a presença israelense agora consiste de 40 câmeras de vídeo montadas nas paredes, espalhadas pelo terminal.

Israel recebe as imagens de vídeo em um centro de monitoramento a quilômetros dali, fora das fronteiras de Gaza. Israel pode fazer objeção à travessia de um indivíduo palestino na fronteira, mas os palestinos têm a palavra final. Em vários casos em que Israel se opôs a travessia de pessoas suspeitas de serem militantes, os palestinos autorizaram a passagem.

Os israelenses também se preocupam com o contrabando de armas. Mas Julio de La Guardia, um porta-voz dos monitores da União Européia que ajudam os palestinos, disse que as únicas apreensões de equipamento ligado a armas foram a de 20 suportes telescópicos para rifles e chumbo de caça.

O contrabando mais comum é de cigarro. Os palestinos os compram no Egito por menos de US$ 1 o maço; eles são revendidos por mais que o dobro. Mas é ilegal trazer mais de dois pacotes.

Naim Zoroub, 44 anos, estava voltando de sua sétima viagem ao Egito nos últimos três meses quando autoridades alfandegárias apreenderam os cigarros que ele comprou no Egito por cerca de US$ 100. Zoroub, que está desempregado, não foi detido, mas seu nome foi acrescentado a uma lista crescente dos pegos realizando contrabando. Ele disse que costumava trabalhar em Israel, mas que não tem mais permissão para ir para lá. Ele disse que estava contrabandeando cigarros para alimentar sua família.

"Agora é fácil viajar para o Egito", disse Zoroub. "Mas ainda precisamos de empregos e comida." Israelenses endurecem controle de fronteira após vitória do Hamas George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,40
    3,181
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    2,01
    70.011,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host