UOL Notícias Internacional
 

04/03/2006

Oposição do Brasil mostra ansiedade na escolha do candidato à presidência

The New York Times
LARRY ROHTER

Em São Paulo
Há um ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parecia imbatível e a oposição encontrava dificuldade para encontrar um candidato disposto a se oferecer ao sacrifício. Mas agora, com o presidente enfraquecido pelo pior escândalo de corrupção na história moderna do Brasil, o principal partido de oposição enfrenta o problema oposto: dois fortes candidatos por uma indicação que apenas um conseguirá.

A eleição será em outubro e a campanha formal poderá começar em julho. Mas os líderes do principal grupo de oposição, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), dizem que não podem esperar mais para escolher entre dois candidatos, José Serra e Geraldo Alckmin, temendo que a demora dê ao presidente uma chance de sustentar sua recente recuperação.

Serra, 63 anos, um ex-ministro do Planejamento e da Saúde, concorreu contra Lula quatro anos atrás e perdeu por grande margem, conquistando apenas 38% dos votos no segundo turno. Sua carreira política era considerada acabada, mas em 2004 ele venceu Marta Suplicy, prefeita que buscava a reeleição em São Paulo, a maior cidade do Brasil, e de lá para cá tem ganhado força entre os eleitores de classe média que se arrependem de ter apoiado Lula em sua quarta candidatura à presidência.

Alckmin, um médico de 53 anos, é o governador do Estado de São Paulo, lar de quase um quarto dos 180 milhões de habitantes do Brasil. Ele é enormemente popular aqui, mas pouco conhecido no restante do país. Os líderes do partido dizem que isto não é necessariamente uma desvantagem fatal.

"Quando deixei o ministério eu tinha, o que, 6 a 8% de apoio?" disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso durante uma entrevista aqui, se referindo à disputa de 1994. "E terminei derrotando Lula no primeiro turno, com 54% dos votos. Com a exceção da última vez, Lula sempre começa por cima e sempre cai."

No último trimestre do ano passado, as pesquisas de opinião pública mostravam Lula atrás de Serra no primeiro turno da votação e sendo derrotado no segundo turno, que é necessário quando nenhum candidato obtém mais de 50% dos votos. Mas duas pesquisas realizadas em fevereiro indicaram que o presidente recuperou grande parte do terreno perdido e seria vitorioso no segundo turno se ocorresse agora.

O escândalo que atingiu o governo esquerdista de Lula teve início em maio e inclui dezenas de milhões de dólares em pagamentos para compra de votos de membros do Congresso e o financiamento ilegal da campanha de Lula em 2002.

Seu ministro de Casa Civil foi forçado a renunciar, assim como o presidente, o secretário geral e o tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, mas o próprio Lula disse desconhecer as atividades ilegais. Ele ainda não anunciou oficialmente que é candidato à reeleição, e seu Ministro da Cultura, Gilberto Gil, até mesmo sugeriu que ele não concorra de novo, agora que recuperou parte da popularidade perdida.

Mas mantendo dúvidas sobre suas intenções e sem declarar oficialmente sua candidatura, Lula é autorizado pela lei brasileira a realizar algumas atividades políticas que seriam proibidas caso fosse um candidato anunciado.

Mas o presidente está claramente em forma para o combate. Ele perdeu mais de 13 quilos graças a uma novo regime e exercícios, além de ter deixado de beber bebidas alcóolicas no final do ano passado, segundo declarações públicas de um membro do seu gabinete. Ele também mudou o tom defensivo que adotou no auge do escândalo e voltou à ofensiva.

"Eu não fiz tudo o que precisa ser feito", ele disse em um discurso durante uma viagem pela empobrecida região Nordeste, onde ele nasceu e continua com força nas pesquisas de opinião. "Mas eu certamente já fiz muito mais do que a elite que governou este país por quase 500 anos e esqueceu da parte pobre da população."

A recuperação de Lula aumentou o senso de urgência da oposição de que deve agir rapidamente na escolha de seu candidato. Os partidos políticos do Brasil não estão acostumados ao longo estilo americano de eleições primárias, e Lula foi rápido em apontar o surgimento de dois fortes candidatos de oposição não como um sinal da força desta, mas um indício de que está fraca e dividida.

Alckmin sugeriu como solução para a disputa interna uma eleição primária em vez da escolha ser feita pelos caciques do partido. Mas tal opção, na forma de uma convenção, demoraria para ser organizada e afastaria a atenção do partido do ataque à posição de Lula.

"Quanto mais cedo escolhermos, melhor", disse o senador Tasso Jereisatti, o presidente do PSDB. "Enquanto estamos neste estado de indecisão, o presidente e sua máquina estão ocupando todo o espaço, sem podermos oferecer qualquer contraponto."

O principal problema de Serra, dizem analistas políticos, é sua personalidade abrasiva e a longa lista de inimigos que fez ao longo dos anos. Alckmin, por outro lado, é motivo de piada por seus modos brandos e sua suposta falta de carisma, mas tem altas notas por competência e honestidade.

"Bem mais do que Serra, Alckmin é o oposto da imagem de Lula", disse Bolívar Lamounier, analista político e consultor daqui. "Também há um certo fator surpresa em Alckmin como alguém novo no cenário nacional, que também pode pesar bastante."

Lula tem tentado retratar a si mesmo como vítima do escândalo de corrupção, traído por assessores aos quais não dá nomes, que "cometeram erros", como ele coloca. Mas ele também parece querer retirar o escândalo do debate ao rotular aqueles que o citam como maus desportistas que praticam política suja.

"Não haverá uma batalha", ele disse em uma entrevista nesta semana para "O Estado de S.Paulo", um dos principais jornal daqui. "A campanha deste ano será mais respeitosa e mais civilizada. Eu espero isto."

Mas Fernando Henrique Cardoso disse que a oposição pretende continuar batendo na questão da corrupção, além de também oferecer um programa econômico e social diferente do programa de Lula. Ele citou a derrota de John Kerry, na eleição presidencial americana de 2004, como um exemplo do que seu partido não deve fazer.

"Eu estava nos Estados Unidos na época e fiquei impressionado com o fato de o Partido Democrata ter se deixado atrair para a agenda do governo", ele disse. "Você precisa estabelecer a agenda. Se você deixar o outro lado defini-la, você perderá, porque eles escolherão o campo no qual lutarão. Nós temos que escolher nosso campo de batalha." PSDB divide-se entre Serra e Alckmin enquanto Lula se recupera George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h49

    -0,73
    3,259
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h55

    0,98
    63.849,40
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host