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05/03/2006

Bush cita terror e descarta acordo nuclear com o Paquistão

The New York Times
Elisabeth Bumiller e Carlotta Gall
Em Islamabad, Paquistão
O presidente dos EUA, George W. Bush, disse neste sábado que o presidente paquistanês, Pervez Musharraf, reafirmou o compromisso de combate ao terrorismo, mas Bush deixou claro que o Paquistão não deve esperar um acordo nuclear como o acertado com a Índia, dizendo francamente que os dois países rivais não podem ser comparados um com o outro.

Jim Watson/AFP 
Bush é saudado em cerimônia em Islamabad
Antes dos comentários de Bush, funcionários do governo disseram que Musharraf não tinha chance de fechar um acordo semelhante, uma vez que a proliferação nuclear e o terrorismo continuavam sendo preocupações no Paquistão. Mas Bush disse que discutiu o assunto em sua reunião com Musharraf, e foi notável o fato de o presidente norte-americano ter falado tão francamente com seu anfitrião ao seu lado.

"Eu expliquei que o Paquistão e a Índia são países diferentes, com necessidades diferentes e histórias diferentes", disse Bush em uma entrevista coletiva conjunta ao ar livre com Musharraf, no lado externo do palácio presidencial, Aiwan-e-Sadr.

"Assim, à medida que prosseguirmos adiante, nossa estratégia levará em consideração estas diferenças bem conhecidas", disse Bush.

Musharraf está enfrentando crescente pressão por parte dos partidos de oposição, incluindo os islâmicos, em grande parte devido ao seu apoio às políticas norte-americanas de eliminação dos militantes no Paquistão, onde acredita-se que Osama Bin Laden, o mentor dos ataques de 11 de setembro, e o mulá Omar, o líder do Taleban, ainda estão escondidos.

Bush ofereceu algum apoio pela aliança com Musharraf, apesar do próprio líder paquistanês ter mencionado pessoalmente "deslizes" no passado.

"Parte da minha missão no dia de hoje era determinar se o presidente estava ou não tão comprometido como no passado em levar estes terroristas à justiça, e ele está", disse Bush. "Ele entende o que está em jogo, ele entende a responsabilidade e entende a necessidade de assegurar que nossa estratégia seja capaz de derrotar o inimigo."

Bush, que recentemente disse em Washington que o Paquistão "ainda tem alguma distância a percorrer na estrada da democracia", também fez uma referência polida à necessidade de avanços democráticos no país, dizendo que as eleições marcadas para o próximo ano "precisam ser abertas e honestas".

Musharraf, um general do exército, tomou o poder em 1999 em um golpe sem derramamento de sangue. Ele prometeu que abriria mão de seu uniforme militar em 2004, mas mudou a Constituição para que pudesse manter tanto seu posto no Exército quanto a presidência até 2007.

Seus oponentes no Paquistão acusam que o governo Bush tem lhe dado bastante liberdade por ter alistado o Paquistão na luta contra o terrorismo, apesar de dizer ao mesmo tempo que deseja promover a democracia no mundo muçulmano.

A segurança foi intensificada para a primeira visita de um presidente norte-americano ao país em seis anos, e a primeira de Bush, que estava em essência viajando ao quintal de Bin Laden dois dias após um atentado suicida a bomba em Karachi ter deixado quatro mortos, incluindo um funcionário da embaixada dos EUA.

Bush e Musharraf fizeram seus comentário em um tranqüilo gramado de Aiwan-e-Sadr, com patos nadando em um lago cheio de flores ao fundo, enquanto a capital ao redor deles permanecia na prática paralisada por 24 horas.

Musharraf disse ter expressado a Bush o "mais profundo pesar" pelo atentado, que, segundo ele, tinha o objetivo de atrapalhar a visita do presidente norte-americano. Bush disse que enviou suas condolências à família de David Foy, o funcionário da embaixada morto no ataque, assim como às famílias dos paquistaneses que morreram.

"Nós não vamos recuar diante destes assassinos", disse Bush. "Nós travaremos esta guerra e a venceremos juntos."

Apesar de a visita de Bush ter o objetivo de reforçar a cooperação do Paquistão na região, algumas tensões entre os dois países eram evidentes, particularmente após a conclusão de um acordo histórico com a antiga rival do Paquistão, a Índia.

Não era esperado que Bush endossasse um acordo nuclear com o Paquistão -o país de A.Q. Khan, o fundador do programa nuclear do Paquistão, que confessou ter comandado uma rede ilegal de proliferação nuclear.

Mas foi digno de nota o fato de Bush ter discutido o assunto com Musharraf. Os críticos do acordo nuclear de Bush com a Índia disseram que ele apenas encorajaria outros países a exigirem acordos semelhantes.

Segundo os termos do pacto com a Índia, os Estados Unidos colocarão um fim a uma moratória de décadas na venda de combustível nuclear e componentes de reator, enquanto a Índia separará seus programas nucleares civil e militar e abrirá as instalações civis para inspeções internacionais.

O Paquistão detonou seu próprio artefato nuclear em resposta a um teste bem-sucedido da Índia em 1998. O ministro das Relações Exteriores, Khurshid Mehmood Kasuri, teve dificuldade para responder aos jornalistas locais que perguntavam se o Paquistão não ficou de mãos vazias após a visita.

Falando em uma coletiva de imprensa na tarde de sábado, ele disse que Musharraf apresentou seus argumentos para uma cooperação nuclear civil, já que o Paquistão tem necessidades urgentes de energia, ele disse. "Estas coisas levam tempo", ele disse. Bush deu indício de algo, ele disse, mas se recusou a dar maiores explicações.

Durante todo o dia, as ruas de Islamabad estiveram pacíficas, com uma grande manifestação planejada para a cidade vizinha de Rawalpindi restringida após o líder político Imran Khan ter sido colocado em prisão domiciliar.

Mas a população de Islamabad demonstrou falta de empolgação com a visita, e os freqüentadores de um shopping center nem acompanharam a cobertura ao vivo pela TV da coletiva de imprensa realizada pelos dois presidentes.

"Eu não acho que a visita fará muito diferença", disse Naser Abbasy, 37, que é dono de uma loja de roupas em Islamabad.

Seu irmão, Rashid Mehmud Abbasy, 35, estava vestindo uma faixa preta no braço no sábado, em protesto contra a visita de Bush. "É um protesto por todas as atrocidades cometidas contra os muçulmanos no Iraque e em outros lugares", ele disse. "Não se trata do presidente, mas sim de suas políticas", disse. Os líderes muçulmanos pediram aos simpatizantes que usassem faixas pretas nos braços, ele disse.

Mas Abbasy disse que a visita será boa se der a Bush um melhor entendimento do ponto de vista dos paquistaneses. "Ele deu bastante à Índia, apesar de saber que não nos damos bem", ele disse. "Então ele deveria nos apoiar da mesma forma."

Consumidores de classe média estavam mais dispostos a ver o aspecto positivo da visita, apesar da irritação causada pela paralisação de segurança.

"Tal reconhecimento é bom", disse Ambreen Mirza, 28, uma psicóloga que estava comprando DVDs. Mas ela expressou as mesmas reservas manifestadas por outras pessoas. "A maioria não gosta de suas políticas", disse, listando como motivos desde a simpatia pelos palestinos até a rotulação pelo Ocidente de todos os muçulmanos como maus, e até mesmo o apoio à Al Qaeda, que ela acredita derivar do fato de Bin Laden ser anti-Ocidente. Os paquistaneses sentem o medo de que "os Estados Unidos são amigos agora, mas um que podemos perder, como já aconteceu antes".

O ressentimento contra as charges do Profeta Maomé ainda está presente na mente das pessoas.

"Em toda minha vida eu nunca soube de insultos feitos ao Profeta", disse Muhammad Pervez, 55, que estava sentado bebendo chá com um lojista. "Nós respeitamos os livros sagrados de outras religiões, de forma que é inimaginável insultar nosso profeta e nosso livro", ele disse. "Ele é tão poderoso; o presidente Bush poderia dizer algo para impedir as charges ou punir os responsáveis. De forma que nossa antipatia por ele cresceu devido a este incidente das charges."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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