UOL Notícias Internacional
 

07/03/2006

Começa em Nova Orleans demolição de casas atingidas por enchente

The New York Times
Adam Nossiter
Pouco depois do meio-dia da segunda-feira (06/03), no cenário arruinado de Lower 9th Ward, a pá de uma enorme escavadeira golpeou o topo de uma casa destroçada e deslocada do seu local original, e o longo processo de limpeza da área mais devastada da cidade finalmente teve início.

Este foi um momento antecipado por Nova Orleans: as primeiras demolições de casas atingidas pela enchente, seis meses após o furacão Katrina. Três casas foram demolidas na segunda-feira, em um processo que sofreu um longo atraso devido a questões legais, obstáculos físicos e a dificuldade em se conseguir dinheiro para procurar pelos corpos que é quase certo que estejam em algumas das casas.

Oficiais do Corpo de Engenheiros do Exército calculam que cerca de 9,5
milhões de metros cúbicos de entulho das casas demolidas terão sido
removidos somente na comunidade de Orleans quando a operação for concluída, daqui a mais ou menos um ano. Isso é o equivalente aos destroços de cerca de 25 mil casas. Cerca de 120 residências, quase todas em Lower 9th Ward, estão prontas para demolição imediata.

O trabalho feito na segunda-feira representou uma fração diminuta da
quantidade total - apenas 5,6 metros cúbicos. Mas, quando a operação de
derrubada começou - com a remoção deliberada de grandes pedaços de telhado, e a derrubada metódica de paredes -, ela soou como um eco doloroso da agora distante tempestade. O proprietário da casa, Herbert Warren Jr., um pescador profissional aposentado, tentou manter-se estóico enquanto a casa na qual morou durante 44 anos era demolida.

"O que posso dizer? Isto aconteceu com tanta gente. Não foi só comigo", murmurou Warren. A sua casa - simples, branca, de madeira, com apenas um andar, e onde foram criados os seus oito filhos - de alguma forma foi arrancada dos seus alicerces, passando em frente a uma vetusta igreja de tijolos e atravessando um gramado, até parar em uma elevação no meio da Rua Winthrop. "Ela levantou-se e andou", disse Warren. "Eu realmente não sei como ela foi parar lá".

Ele não se deu ao trabalho de retirar qualquer coisa da casa, cujo endereço era Rua Roffignac, 2330, mas que agora fica mais ou menos no número correspondente na rua Winthrop. "Ela foi completamente destruída. Enfiei minha cabeça lá dentro, dei uma olhada, e saí na mesma hora", conta ele. Em volta de Warren, uma vizinhança em ruínas: um sapato de salto alto enlameado, uma boneca Barbie jogada sobre um travessão de madeira, uma cadeira de descanso pendurada em uma árvore.

"Tudo estava coberto de lama. Eu não quis pegar nada lá de dentro", contou Warren.

Ele deixou calmamente o local dirigindo a sua picape verde, enquanto o
trabalho continuava, os dentes de aço da máquina rasgando a sua sala de
estar e expondo um retrato da família pendurado na parede.

Não havia ninguém para protestar contra esta que foi a primeira das milhares de demolições previstas, em uma área que se transformou no centro emblemático da destruição sofrida pela cidade. A terrível força destruidora do Katrina está tão viva na memória, nestes quarteirões enlameados formados das esmagadas "casas panquecas", como estava seis meses atrás. A magnitude da destruição parece tornar minúscula a capacidade de trabalho das empreiteiras contratadas pelo governo.

Antes do início da demolição, cães especializados na busca de cadáveres
farejaram os cantos das casas, em um trabalho financiado pelo governo
federal para a busca de mortos, e realizado ao mesmo tempo em que as casas são demolidas. Louis Cataldie, o diretor de medicina emergencial do Estado, se recusou a especular sobre o número de mortos que ainda poderão ser encontrados durante as demolições, mas disse que cerca de 400 ou 500 das pessoas ainda desaparecidas estão provavelmente mortas.

No domingo, os cães encontraram o corpo de um homem de meia-idade em um sótão em Lakeview, durante uma busca aleatória. As equipes de demolição começaram a trabalhar também naquela área, e a primeira casa foi derrubada em Lakeview enquanto os trabalhadores ainda preparavam seus equipamentos em 9th Ward. Uma terceira casa foi colocada abaixo na segunda-feira no bairro de Gentilly.

Nenhum cadáver foi encontrado nas proximidades da casa de Warren na
segunda-feira, mas há duas semanas um corpo foi achado em 9th Ward. A equipe canina é formada de seis cães dos Estados de Maine, Geórgia e Missouri, treinados para apontar as orelhas para cima e balançar as caudas quando farejam um cadáver, conforme aconteceu no último domingo em Lakeview.

Devido à natureza sensível da operação - um processo foi movido contra a
prefeitura de Nova Orleans por esta não ter notificado os moradores, e houve protestos quando as empreiteiras começaram a retirar os destroços das ruas pela primeira vez, em janeiro - passou-se a manhã inteira na fase de preparativos. E houve mais atraso quando, durante horas, nenhum membro da prefeitura se dignou a aparecer para dar a autorização final, para a surpresa dos oficiais do Corpo de Engenheiros do Exército.

Cerca de meia dúzia de funcionários do Serviço de Proteção Federal, usando uniformes negros, estavam a postos para manter a ordem, embora a única indicação de potencial discórdia fosse a presença de três jovens de
expressão sonolenta, membros de uma organização comunitária chamada Common Ground, que disseram estar ali apenas para observar.

Os poucos moradores do bairro que apareceram no local da primeira demolição na segunda-feira não tinham nenhuma objeção ao trabalho.

"Não tenho nada contra a demolição, devido à condição em que tudo isto se encontra. O que mais se pode fazer?", disse Harold Broussard, que atualmente mora em um trailer fornecido pelo governo, em West Bank, e que garantiu que um dia voltará para 9th Ward.

Os policiais federais presentes no local se juntaram a um grupo de guardas de uma empresa de segurança, a Blackwater. O local teve que ser examinado para que se tivesse certeza que ali não havia amianto, material considerado cancerígeno e, a seguir, os equipamentos de grande porte - a escavadeira e uma caçamba gigante - manobraram pelas passagens estreitas naquilo que restou das ruas.

A demolição em Lakeview foi concluída em 45 minutos. Em 9th Ward o trabalho demorou mais. Aqui os trabalhadores tomaram todo o cuidado possível, derrubando as paredes vagarosamente, a fim de poderem enxergar o que havia dentro da casa. Ninguém entrou dentro dela antes, porque as ruínas da residência não ofereciam segurança.

No final de agosto, Warren teve o cuidado de pregar tábuas de compensado
sobre as janelas e portas, selando a casa. As tábuas ainda estão no lugar, em uma casa que foi parar a cem metros do local onde foi construída.

Na manhã em que ele partiu para Houston, antecipando-se à tempestade, a intensidade do vento era o problema que o preocupava, mas ele não cogitou a possibilidade de que o dique próximo, no Canal Industrial, cedesse.

"Realmente não me preocupei com tal possibilidade. Mas o dique desmoronou. E fiquei feliz por estar no Texas", disse Warren. Danilo Fonseca

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