UOL Notícias Internacional
 

07/03/2006

"Crash" leva o Oscar de melhor filme

The New York Times
David M. Halfbinger e David Carr

em Los Angeles
Em uma reviravolta impressionante, no domingo (05/3) à noite a academia de cinema deu as costas para "O Segredo de Brokeback Mountain" e sua história de amor gay resoluto. O Oscar de melhor filme foi para "Crash - No Limite", um caleidoscópio temperamental de um confronto racial em Los Angeles, no qual todo personagem é ao mesmo tempo simpático e repugnante.

Monica Almeida/The New York Times 
Matt Dillon (centro) e Sandra Bullock (à dir) comemoram o Oscar de melhor filme de 'Crash'

"Brokeback Mountain" tinha faturado quase todos os prêmios importantes que antecederam o Oscar. O filme recebeu três estatuetas: de diretor, para Ang Lee; de melhor trilha e melhor roteiro adaptado. "Gostaria de poder deixar vocês" brincou Lee ao aceitar seu prêmio, repetindo a frase mais conhecida do filme.

Mas foi "Crash", de Paul Haggis, que se provou o favorito entre os moradores de Los Angeles, que são a maioria dos votantes da academia. As críticas iniciais ao filme foram decididamente heterogêneas, mas tornou-se um sucesso no último verão. Seu retrato de negros, brancos, latinos e iranianos brigando uns com os outros e seu humor racial em serviço de um ponto mais sério sobre a intolerância e o preconceito certamente agradaram.

"Crash - No Limite" também venceu o Oscar pelo roteiro original, de Paul Haggis e Bobby Moresco, e pela edição de Hughes Winborne.

A vitória imprevista de "Crash" ocorreu em uma noite em que a academia homenageou alguns dos favoritos de Hollywood. Philip Seymour Hoffman recebeu o prêmio de melhor ator pelo papel de Truman Capote e Reese Witherspoon de melhor atriz por sua simpática e dura June Carter Cash em "Johnny & June".

A 78ª cerimônia de entrega dos Oscars pareceu preocupada com assuntos morais e políticos. George Clooney levou o prêmio de melhor ator coadjuvante por sua atuação em "Syriana" como agente da CIA aprisionado entre terroristas e seus chefes corruptos.

E Rachel Weisz foi nomeada melhor atriz coadjuvante por seu papel em "O Jardineiro Fiel" como ativista no Quênia, depois que a perversidade de uma empresa farmacêutica leva seu marido diplomata, emocionalmente anestesiado, a agir.

Clooney admitiu que politicamente Hollywood está um pouco desconectada, mas disse que, de vez em quando, isso podia ser "uma coisa boa". E devolveu o elogio da academia.

"Fomos nós que falamos sobre a Aids, quando ainda era um sussurro; falamos sobre direitos civis, quando não era popular", disse ele. "Tenho orgulho de fazer parte de Hollywood, orgulho de ser parte da comunidade e de estar desconectado."

Momentos depois, Clooney sugeriu que Hollywood estava com dois anos de atraso ao tratar das questões sociais e políticas que confrontam a nação. "Não vai demorar muito, mas fazemos isso de vez em quando", disse ele. "Fizemos nos anos 30, depois nos anos 50 e certamente nos anos 60 e 70 e provavelmente continuaremos a fazer isso, que é refletir a sociedade, não verdadeiramente guiá-la."

Hoffman, ao aceitar o Oscar, cumprimentou sua mãe. "Estamos na festa, Mãe", disse ele. Radiante, Witherspoon também agradeceu seus pais. "Não fazia diferença se eu montando uma cama ou fazendo um filme, eles nunca hesitaram em dizer que tinham orgulho de mim", disse ela.

Um desvio dos temas sérios foi a premiação do melhor documentário: "Marcha dos Pingüins". Com sucesso surpreendente, o filme superou outros sobre o escândalo da Enron e uma eleição para prefeito disputada em Newark.

Com o humorista Jon Stewart do "The Daily Show" como anfitrião era de se esperar provocações na apresentação do Oscar. Stewart soltou farpas que divertiu os republicanos, talvez menos os democratas e explorou os ganchos da indústria do cinema.

Ele disse que a cantora Bjork não pôde participar: "Ela estava experimentando seu vestido para a cerimônia, e Dick Cheney atirou nela". Antes sugerira que essa talvez fosse "a primeira vez que muitos de vocês votaram em um vencedor".

E, ao apresentar Terrence Howard, que fez o papel de um cafetão que aspirava ser cantor de rap em "Ritmo de um Sonho", Stewart definiu cafetão como um "agente com um chapéu melhor". De fato, foi o rap do personagem de Howard, "It's Hard Out Here for a Pimp", pelo até então desconhecido grupo de Memphis Three 6 Mafia, que venceu o Oscar de melhor canção original, imediatamente após o grupo apresentá-la com aspereza.

Stewart tem um público restrito e jovem na rede de televisão a cabo Comedy Central. Assim, era relativamente desconhecido do palco mundial da noite do Oscar, mas sua combinação de sarcasmo brincalhão e bajulação parece ter agradado a realeza de Hollywood presente.

Ele disse que "Boa Noite e Boa Sorte" de Clooney não era apenas um filme, mas "como o Sr. Clooney termina todos seus encontros". Ele garantiu a Steven
Spielberg: depois de "A Lista de Schindler" e "Munique", "acho que falo por todos os judeus quando digo que não posso esperar para ver o que acontecerá conosco da próxima vez."

Em uma noite de altas expectativas para "Brokeback Mountain", Stewart guardou seu melhor material pré-gravado para o que ele chamou de "elefante na sala". Com falsa indignação, ele disse que "Brokeback" tinha "manchado" a imagem do gênero western americano firmemente heterossexual.

O que se seguiu foi uma montagem que ilustrou o tipo de homoerotismo que permeou os filmes do gênero e meio século de filmes e literatura até Huck e Jim: caubóis, xerifes e fazendeiros admirando as armas um do outro, piscando, suando, dividindo quartos e perguntando: "Você se incomodaria se eu visse a sua Winchester?"

O prêmio de melhor filme em língua estrangeira foi para "Tsotsi", da África do Sul, história de crime e redenção de Gavin Hood ambientada em uma favela em Johannesburgo.

O diretor Robert Altman, cujos filmes incluem "Nashville", e "O Jogador", um clássico sobre o cinema, recebeu prêmio de honra por sua obra. Ele revelou que recebeu o coração de uma mulher de 30 anos há 10 anos atrás -e manteve isso em segredo até agora por medo do estigma associado ao transplante. "Acho que ainda tenho uns 40 anos sobrando nesse coração", disse ele, "E pretendo usá-los".

Apesar de 2005 ter tido poucos eventos polarizadores -ninguém abordou a Paixão de Cristo ou escoriou o governo Bush da forma como Mel Gibson e Michael Moore fizeram no ano anterior- foi cheio de filmes modestos fazendo pequenas declarações sobre Assuntos Importantes.

Uma evidência do surto súbito de seriedade de Hollywood foi o fato de os nomeados para melhor filme, com uma única exceção, terem vindo de estúdios especiais: "Capote" e "Boa Noite e Boa Sorte" lançaram um olhar crítico nos papéis e responsabilidades dos jornalistas; "Crash - No Limite" explorou a animosidade racial e questionou preconceitos; "Munique" voltou-se para a violência no Oriente Médio e "O Segredo de Brokeback Mountain" ilustrou o impacto da intolerância. O único filme de grande estúdio, "Munique" foi feito por cerca de US$ 75 milhões (em torno de R$ 158 milhões), mais do que o dobro dos orçamentos combinados de todos os outros quatro nomeados.

As mensagens não foram radicais, nem as causas originais: "Terra Fria", de Niki Caro, abordou o abuso sexual, e "Munique" parece pouco mais do que a velha lição escolar de que a violência nada resolve.

Em geral, foi um ano terrível para os maiores estúdios de Hollywood, com uma onda de filmes de ação e comédias dando barrigada em piscinas vazias.

"King Kong", montagem de três horas do clássico épico por Peter Jackson, venceu o prêmio de melhor edição de som e de efeitos visuais, derrubando "Guerra dos Mundos" e "Crônicas de Nárnia".

O Oscar de melhor filme de animação foi para "Wallace e Gromit - A Batalha dos Vegetais", que venceu "A Noiva Cadáver" de Tim Burton e "O Castelo Animado" de Howl.

"Memórias de uma Gueisha", romance de guerra japonês de Rob Marshal levou três estatuetas: melhor fotografia, para Dion Beebe; melhor direção de arte, para John Myhre e Gretchen Rau; e melhor figurino para Colleen Atwood. "Nárnia" venceu o prêmio de maquiagem.

A competição foi razoavelmente civilizada. A única coisa que interrompeu o tédio dos anúncios "para sua consideração" e a monotonia da aclamação de "Brokeback" -com a exceção da agitação ardente do crítico Roger Ebert em nome de "Crash" -foi um processo judicial amargo entre dois produtores de "Crash", Bob Yari e Cathy Schulman.

Yari, que reuniu o orçamento de US$ 7 milhões (em torno de R$ 15milhões) foi impedido pelas regras da academia de se unir a Schulman e dois outros produtores no palco -e de fato assistiu a entrega em casa. Talvez tomada de generosidade, Schulman no final mencionou o nome de Yari.

O tapete vermelho ofereceu a variedade usual de glamour, moda e competição de Hollywood. Astros que em geral não saem de suas pequenas órbitas ficaram lado a lado, alguns se abraçando, outros se olhando de soslaio. Alguns momentos podem ser demais. Por exemplo, Clooney, nomeado para nas categorias de diretor, ator coadjuvante e roteiro, estendeu a mão para Heath Ledger, nomeado para o prêmio de melhor ator, mas teve que passar por cima de Michelle Williams, também nomeada como melhor atriz coadjuvante.

Nicole Kidman e Sandra Bullock se beijaram enquanto Keanu Reeves, que acompanhava Bullock, olhava.

Foi uma longa temporada de prêmios precursores -Golden Globe, Screen Actors Guidl, Independent Spirit- para muitos cansativa. Paul Giamatti, nomeado na categoria de melhor ator coadjuvante, observou a falange de repórteres a sua frente e disse: "Estou pensando em colocar uma cerca em minha casa e convidar um monte de caras para ficar atrás dela e assim nunca me dar bem". Alguns, como Hoffman, evitaram o corredor formado pela imprensa, enquanto outros aproveitaram a oportunidade.

Juicy J., Jordan Houston, membro do Three 6 Mafia e um dos co-autores de "It 's Hard Out Here for a Pimp", subiu ao palco não com um, mas dois relógios cravados de diamantes. Para completar, usava sobre os dentes uma "grelha" de diamantes.

Ludacris, rapper que virou ator em "Crash" e apresentou a banda Three 6 Mafia na cerimônia, disse que Hollywood deve se habituar.

"Tenho orgulho de fazer parte da história, a primeira vez que se toca hip hop no Oscar", disse no tapete vermelho. Perguntado se estava preocupado com a reação do público, ele disse: "Acho que vão sair e comprar o disco. Está na hora desse tipo de música começar a aparecer." Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host