UOL Notícias Internacional
 

07/03/2006

EUA se esforçam para atrair sunitas para a polícia iraquiana

The New York Times
Edward Wong
em Bagdá, Iraque
À medida que cresce a ameaça de um conflito sectário em escala plena, as forças armadas americanas estão lutando tentando remover partidários étnicos ou religiosos das forças de segurança iraquianas.

Os Estados Unidos enfrentam a possibilidade de estarem armando um dos lados em uma possível guerra civil. Desde o início, os americanos cederam controle operacional da polícia ao governo iraquiano. Agora, as forças policiais são controladas nos escalões mais altos por partidos religiosos xiitas com milícias, e relatos de esquadrões da morte uniformizados aumentaram acentuadamente no ano passado.

As forças armadas americanas estão tentando uma série de soluções possíveis, incluindo cotas para ampliar o número de recrutas árabes sunitas nas academias de polícia, a demissão de comandantes de polícia xiitas que parecem tolerar as milícias e o envio de 200 equipes de treinamento compostas de oficiais da polícia militar ou de ex-oficiais de polícia civis para as centrais de polícia iraquianas, mesmo em locais remotos e arriscados.

Não há solução rápida ou indolor. Os esforços criam o risco de alienar os políticos xiitas, que têm resistido ferozmente às tentativas de lhes retirar o controle das forças de segurança. Mas as medidas podem ter apelo junto aos árabes sunitas recalcitrantes, que os americanos querem atrair ao processo político.

A tentativa de reforma das forças policiais pode levar anos, já que as lealdades sectárias se tornaram entrincheiras e os policiais são enraizados em suas comunidades, reconheceram altos oficiais militares. Os críticos dizem que os esforços americanos para treinar a polícia iraquiana também continuam atrapalhados pela escassez de soldados e conselheiros civis.

Várias das iniciativas, como o encorajamento para que mais estudantes sunitas entrem nas academias de polícia, já foram implementadas há meses, mas agora estão sendo conduzidas em uma escala maior. Outras, como o envio de novas equipes de treinamento, estão apenas começando. Mas a onda de violência sectária que se seguiu ao atentado a bomba contra um templo xiita, em 22 de fevereiro, acentuou a urgência das medidas.

Após o atentado, turbas lideradas por milicianos xiitas atacaram dezenas de mesquitas sunitas e deixaram centenas de mortos. Mas muitas unidades policiais ficaram de lado, ou por não saberem o que fazer ou por lealdade sectária, segundo testemunhas iraquianas. O general George W. Casey Jr., o alto comandante americano no Iraque, disse na última sexta-feira que policiais permitiram que milicianos passassem pelas barreiras no leste de Bagdá, onde ocorreu grande parte da violência.

O exército iraquiano representa um problema menor do que a polícia, porque as forças armadas americanas têm controle operacional direto dele e porque os americanos tomaram mais cuidado em sua formação.

Os esforços das forças armadas para reformar a polícia estão transcorrendo juntamente com um forte esforço do embaixador americano, Zalmay Khalilzad, para pressionar os políticos iraquianos que estão formando o novo governo a nomearem uma figura não sectária para o comando do Ministério do Interior, que controla a polícia.

"Quando você está formando um governo, você não pode formá-lo com qualquer tipo de elemento sectário", disse o general de divisão J.D. Thurman, comandante da 4ª Divisão de Infantaria, responsável pelo controle de Bagdá. "Isto precisa ser colocado de lado, principalmente nas forças armadas." As tentativas de erradicação do sectarismo se concatenam com uma iniciativa americana mais ampla para fortalecer o treinamento da polícia neste ano, desviando para ela mais recursos antes destinados ao exército iraquiano. As forças armadas esperam contar com 200 mil policiais iraquianos prontos no início de 2007.

O desenvolvimento da polícia é, de muitas formas, mais crucial do que o do exército, porque os americanos querem que a polícia cuide de toda a segurança dentro do Iraque.

Oficiais americanos têm pressionado o Ministério do Interior a diversificar as forças policiais. Todos os recrutas nas brigadas de manutenção da ordem pública passam por um programa de treinamento de seis a sete semanas, com 1.200 em cada classe.

Os americanos cuidaram para que as últimas três turmas contassem com um maior número de árabes sunitas inscritos: a primeira com 42% de árabes sunitas, a segunda com 92% de sunitas e a terceira, que está começando, virtualmente totalmente sunita, disse o general de divisão Joseph D. Peterson, o general americano encarregado do treinamento da polícia.

As unidades que seriam mais atormentadas pelo recrutamento miliciano e lealdades sectárias são as forças paramilitares de polícia, que contam com um total de 17.500 membros, disseram as forças armadas americanas. A força policial regular de uniforme azul conta com 89 mil policiais; a força de fronteira totaliza 20 mil. Mas há sérias dúvidas sobre se alguém possui realmente uma contagem precisa.

As forças paramilitares são divididas de três formas -os comandos, as brigadas para ordem pública e a brigada mecanizada que em breve será transferida ao exército. Matthew Sherman, um ex-conselheiro do Ministério do Interior, disse que os partidos xiitas foram especialmente espertos em assumir o controle destas forças, porque elas podem operar em qualquer parte do país e contam com grande autonomia.

O Ministério do Interior é acusado de patrocinar esquadrões da morte em uniformes policiais ou paramilitares. Khalilzad tem sido um crítico aberto do ministro do Interior, Bayan Jabr, e insinuou no mês passado que os americanos poderiam suspender o financiamento caso o sectarismo continuasse predominando nas forças de segurança.

Membros do mais poderoso partido xiita, o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, que supervisiona o Ministério do Interior, investiram contra os americanos, argumentando que a maioria xiita tem todo o direito de controlar a segurança, porque o governo de Saddam Hussein, dominado pelos sunitas, usava o exército e a polícia para abduzir, torturar e matar os xiitas.

"Os xiitas já foram decapitados pelas forças de segurança e não estamos prontos para sermos decapitados de novo", disse Hadi Al Amiri, o chefe da Organização Badr, a milícia do Conselho Supremo treinada pelo Irã. "Nós podemos ceder qualquer parte do governo, exceto as forças de segurança."

Os comandantes americanos recentemente souberam que todos os 7.700 membros das brigadas de manutenção da ordem pública, que realizam função de infantaria leve, eram xiitas. As brigadas foram expandidas depois que o Conselho Supremo assumiu o controle do Ministério do Interior no início de 2005.

"Quando nós os recrutamos nós não perguntamos: 'Você é sunita ou xiita?'" disse Peterson em uma entrevista em uma base em Taji, ao norte de Bagdá, enquanto visitava soldados recém destacados para a polícia iraquiana. "Eles acabaram sendo 99% xiitas. Agora, quando olhamos para o quadro, nós dizemos: 'Eles não refletem a população do Iraque'."

Não existe nenhum censo preciso do Iraque, mas acredita-se que o país seja composto de 60% de árabes xiitas, 20% de árabes sunitas e 20% de curdos (a maioria dos curdos são sunitas).

Os oficiais americanos dizem que quando tentam falar com os comandantes iraquianos sobre a composição religiosa ou étnica das forças, os comandantes tendem a se esquivar do assunto, como faz a maioria dos iraquianos, dizendo que preferem pensar em si mesmos como um único povo em vez de termos sectários.

O coronel Gordon B. Davis, o alto conselheiro para as brigadas de manutenção da ordem pública, disse que o alto comandante da força, um árabe xiita do antigo exército iraquiano, tratou da questão apenas com muita relutância. "'Vocês não deviam falar desta forma', ele nos disse", lembrou o coronel em uma entrevista em uma base de comando iraquiana no bairro de Kadhimiya, em Bagdá.

Davis disse que seus conselheiros não têm problemas com a remoção de comandantes iraquianos caso se torne evidente que possuem lealdades sectárias.

Durante grande parte do ano passado, a 2ª Brigada para a Ordem Pública tinha uma reputação particularmente ruim. Ela foi acusada por muitos iraquiano, especialmente os árabes sunitas, de tortura de detidos e assassinatos ilegais. Suas fileiras estavam repletas de homens recrutados do leste de Bagdá que eram leais a Muqtada Al Sadr, o inflamado clérigo xiita que liderou duas rebeliões contra os americanos.

O chefe da brigada era um ex-chefe de polícia de Nasiriya, uma cidade do sul sob controle dos partidos xiitas linhas-duras, e havia o rumor de que ele tolerava as milícias, disse Davis. Os americanos o substituíram por um comandante árabe sunita em dezembro, que então demitiu 160 pessoas abaixo dele, presumivelmente por causa da suspeita de ligação destes homens com as milícias, disse o coronel. De lá para cá, ele acrescentou, os oficiais removeram as imagens de Al Sadr de suas coronhas e veículos.

O coronel disse que ter árabes sunitas no comando provou ter sido de ajuda durante a violência provocada pelas milícias no dia do atentado ao templo. A brigada foi enviada para proteger as mesquitas sunitas de Bagdá. Enquanto o comandante sunita conversava com os imãs sunitas para tranqüilizá-los, seus oficiais xiitas tentavam aplacar a fúria da turbas xiitas.

Diferente de outras brigadas de ordem pública, os 8.300 comandos da polícia, uma força que foi fundada em 2004 sob o Ministério do Interior liderado pelos sunitas, são mais diversos, disseram os comandantes americanos. Muitos vieram do antigo exército iraquiano, que tinha um corpo de oficiais dominado pelos árabes sunitas, e dos serviços de segurança domésticos, que Saddam usava para aterrorizar a população.

Os comandos e as brigadas para a ordem pública realizam essencialmente o mesmo trabalho e em breve serão combinados como membros de uma "polícia nacional".

Mas Sherman disse que os comandos também possuem um número significativo de xiitas leais ao Conselho Supremo. O general de divisão Adnan Thabit, um árabe sunita, é apenas nominalmente o chefe dos comandos, ele disse, tendo cedido o controle aos partidos xiitas. "Eles assumiram uma inclinação mais política nos últimos 10 meses", disse Sherman.

Os americanos esperam que os novos programas de supervisão deste ano resultarão em um maior controle da polícia. No ano passado, as unidades paramilitares da polícia contaram com equipes americanas de 11 consultores militares designadas aos níveis de comando de divisão, brigada e batalhão. O programa em breve será ampliado com o envio de soldados americanos comuns a campo com a polícia.

"Faz uma enorme diferença, porque agora você tem a parceria de um batalhão com outro", disse Peterson. "Em vez de apenas 11 sujeitos, você tem todo o batalhão, 500 ou 600 pessoas."

Além disso, o comando americano está reorganizando milhares de policiais militares americanos e ex-policiais civis que estão trabalhando atualmente com a polícia iraquiana no Iraque. A maioria atualmente está baseada nas academias de polícia e nos quartéis de alto nível.

Segundo o novo plano, eles serão enviados para todo o país para pequenas centrais de polícia, algumas em áreas remotas. Há um total de 200 equipes, com as primeiras já enviadas para áreas mais voláteis como Baquba, a nordeste de Bagdá.

Um alto oficial americano, que trabalha com a polícia iraquiana e unidades do exército, disse que, ao lidar com o aumento da violência após o atentado ao templo, as unidades iraquianas com treinadores americanos apresentaram em geral uma atuação melhor do que aquelas sem eles. Mas muitas unidades policiais ainda carecem de conselheiros americanos, em parte porque encontrar treinadores experientes dispostos a passar um longo período junto às unidades policiais tem sido difícil.

"Deveria ser óbvio que a presença de equipes de consultores inseridas no exército e nas forças policiais seria uma importante influência estabilizadora", disse o oficial, que não estava autorizado a falar publicamente sobre o assunto. "A questão passa a ser por quanto tempo tal influência estabilizadora será necessária." George El Khouri Andolfato

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