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08/03/2006

Executivo da Enron aponta o dedo para ex-chefes

The New York Times
Alexei Barrionuevo

em Houston
Mais de quatro anos após o mergulho da Enron na falência e seu nome ter se tornado sinônimo de escândalo corporativo, os três principais homens associados com a queda se reuniram em um tribunal federal daqui, na terça-feira, e se prepararam para uma guerra.

Andrew S. Fastow, o ex-diretor financeiro e a figura mais vilificada da Enron pelas transações secretas que ampliaram artificialmente os ganhos da Enron enquanto lhe davam dezenas de milhões de dólares, ocupou o banco das testemunhas no julgamento que já dura seis semanas dos ex-executivos-chefes Jeffrey K. Skilling e Kenneth L. Lay. Fastow não perdeu tempo e apontou rapidamente o dedo para seus ex-chefes.

Desde o colapso da Enron, era esperado que Fastow fosse a testemunha chave do governo contra seu ex-amigo e mentor, Skilling, e possivelmente Lay, o fundador da Enron. Os três homens, juntamente com o ex-diretor de contabilidade, Richard A. Causey, dividiam o 50º andar da torre reluzente da Enron aqui durante o auge da empresa.

Parecendo em forma e bronzeado, Fastow, 44 anos, chegou à sala do tribunal quase lotada de repórteres, advogados e uns poucos funcionários da Enron que vieram vislumbrar o confronto. Fastow respondeu calmamente e jovialmente às perguntas do promotor John Hueston e não fez contato com os olhos com Skilling ou Lay ao longo do dia.

Ele freqüentemente gesticulava com suas mãos enquanto explicava os conceitos, fazendo longas pausas para beber água e intercalando seu depoimento com linguagem espirituosa ao lembrar de conversas privadas entre ele e Skilling. Fastow arrancou risadas dos jurados a certa altura, quando fez uma imitação de Skilling afundando na cadeira durante uma reunião em 2001 em sua sala.

Skilling parecia calmo e relaxado antes de Fastow se sentar no banco das testemunhas e sorriu enquanto ele se recordava com um repórter das viagens para a Argentina com seus filhos. Durante todo o dia ele estudou Fastow, às vezes pendendo a cabeça de um lado para outro, enquanto Lay freqüentemente se debruçava em sua cadeira e colocava os dedos nos lábios enquanto observava Fastow.

O que Skilling e Lay disseram a Fastow em reuniões privadas tem sido alvo de enorme especulação por pessoas que querem entender o rápido declínio da Enron, de empresa de energia dominante e respeitada para a infâmia corporativa. A falência da Enron em dezembro de 2001 provocou uma série de investigações de condutas ilegais corporativas e ajudou a inspirar reformas regulatórias.

Fastow não perdeu tempo em dizer que Skilling apoiou e encorajou o uso de sociedades controversas para ajudar a empresa a cumprir as metas trimestrais de ganhos. E Fastow disse que Skilling e Lay, assim como o conselho diretor da Enron, estavam cientes desde o início da primeira parceria, chamada LJM., em maio de 1999, de que Fastow ganharia milhões de dólares pelo seu papel como sócio geral da parceria.

"Eu achei que seria um herói para a Enron", disse Fastow. "Na época eu achei que estava ajudando a mim mesmo e à Enron a atingir seus números."

Ao final do dia, Fastow solidificou e aprofundou a evidência contra Skilling. Nos minutos finais da sessão do tribunal na terça-feira, Hueston estava começando a discutir as interações estreitas de Fastow com Lay nos últimos quatro meses antes da falência, depois que Lay assumiu o cargo de Skilling, que partiu em agosto de 2001.

Mas a verdadeira queima de fogos deverá começar na quarta-feira, quando Fastow responderá às perguntas dos advogados de defesa que visam minar sua credibilidade. Os advogados de defesa têm pintado Fastow como um criminoso que ganhou mais de US$ 24 milhões por meio de seu controle de parcerias como a LJM e têm dito que ele manteve sua atividade criminosa escondida de Lay e Skilling. A defesa também planeja argumentar que as transações foram aprovadas pelo conselho diretor da Enron e sua auditora externa, a Arthur Andersen.

Fastow se declarou culpado de conspirar para enriquecer a si mesmo às custas dos acionistas da Enron, entre outros crimes, e concordou em cumprir uma pena de 10 anos. Esta é a sentença mais severa proferida até o momento na investigação de quatro anos da Enron e que já obteve mais 16 declarações de culpa. Lay e Skilling são acusados de conspirar para enganar aos investidores da Enron sobre os resultados financeiros dos negócios desta.

Em maio de 1999, Skilling defendeu pessoalmente o papel de Fastow na LJM, uma parceria que ele inventou para ajudar a Enron com seus ganhos, disse Fastow na terça-feira. Fastow investiu US$ 1 milhão do próprio bolso e levantou mais de US$ 15 milhões junto a investidores externos. Foi garantido a ele um ganho de US$ 800 mil por ano independente de qual fosse sua performance financeira. Quando um diretor questionava a propriedade de Fastow lucrar pessoalmente com seu papel de administração da LJM, Skilling dizia ao conselho diretor, segundo Fastow, que "Andy Fastow apostou US$ 1 milhão no jogo. Ele deve lucrar porque colocou a pele no jogo". O conselho aprovou o acordo.

Skilling o encorajou posteriormente em seus esforços para a criação da LJM2, para a qual no final levantaria US$ 386 milhões de investidores. Fastow ganhou US$ 8 milhões em pagamentos anuais pela segunda parceria e tinha direito a 20% do lucro da entidade.

"Me esprema o máximo de suco que puder", Fastow lembrou de Skilling ter dito.

As parcerias rapidamente se tornaram os veículos por meio dos quais a Enron quase que magicamente manteve seus ganhos e preços de ações em alta, mesmo enquanto seus ativos e negócios estavam se saindo pior do que os executivos da empresa diziam aos investidores, depôs Fastow.

Para Fastow, os acordos se tornaram uma forma de ganhar milhões. Skilling ajudou garantindo em alguns casos que a LJM não perdesse nada nas transações, disse Fastow. Outros acordos foram feitos entre a LJM e outros bancos de investimento, incluindo o Merrill Lynch, depôs Fastow. Ele registrou os vários acordos paralelos em um documento manuscrito que apelidou de "Global Galactic".

Fastow disse na terça-feira que destruiu o documento original "porque não era um bom documento para se ter", mas posteriormente encontrou uma cópia em um cofre de aluguel de banco. Ele apontou aos jurados na terça-feira que o documento foi iniciado por Causey, o diretor de contabilidade. Apesar de Fastow ter dito que nunca o mostrou para Skilling, ele disse que Causey e Michael J. Kooper, outro ex-executivo, lhe disseram que Skilling tinha concordado em honrar os acordos paralelos.

Skilling se voltou para o fundo da LJM de Fastow desde o início para ajudar a atender as metas de ganhos, disse Fastow. O fundo foi usado inicialmente para comprar rapidamente ativos com problemas da Enron e sem a devida diligência. A Enron poderia registrar as vendas como ganhos e Fastow e seus parceiros de investimento lucrariam generosamente. Fastow viu os acordos como um forma de melhorar sua reputação junto a Skilling e também viu a LJM como um possível futuro para si mesmo quando deixasse a Enron.

A LJM deveria ser um local para "estacionar" ativos apenas por um breve período, até que um comprador externo legítimo pudesse ser encontrado. Mas Skilling logo viu que se a Enron recomprasse os ativos, os ganhos previamente registrados teriam que ser revelados nas declarações financeiras da Enron. Skilling ordenou em 2000 que uma venda para a LJM, da participação da Enron na usina termoelétrica brasileira de Cuiabá, fosse mantida na LJM por um período maior para evitar a necessidade de revelar US$ 20 milhões em ganhos "que não foram registrados", o que levantaria mais perguntas sobre as parcerias, disse Fastow.

Na primavera de 2001, analistas de Wall Street estavam começando a questionar as notas de rodapé nas declarações financeiras da Enron, onde a LJM estava descrita.

Skilling não ficou desconcertado quando soube em 2001 que a LJM tinha produzido um retorno de 2.450% de um investimento da Raptors, outra parceria que Fastow ajudou a maquinar e que foi apoiada por ações da Enron. Fastow disse que Lay também estava presente quando a alta taxa de retorno foi anunciada. "Eles estavam pagando para poderem informar ganhos maiores", disse Fastow na terça-feira, ao tentar explicar a cultura na Enron que permitia tais negócios.

Em sua revisão anual de 2000, Fastow fez uma apresentação de slides para Skilling de seus feitos na produção de centenas de milhões de dólares em ganhos para Enron por meio das transações. Skilling escreveu em uma nota para Fastow dizendo que tinha "um senso muito claro da estratégia da Enron" e "uma mente financeira criativa".

Em junho de 2001, depôs Fastow, ele e Skilling estavam discutindo que, mesmo com o uso das parcerias, a Enron estava ficando sem corda para manter o avanço de seus ganhos. Em uma reunião na sala de Fastow, este disse a Skilling que achava que havia US$ 5 bilhões a US$ 7 bilhões em ativos problemáticos no balancete da Enron e que precisavam "pensar em algo drástico para lidar" com a situação. A Enron estava declarando cerca de US$ 1 bilhão de ganhos anuais na época, em grande parte devido ao uso de transações fora dos livros, disse Fastow. "Eu disse que seria difícil sairmos daquilo", depôs Fastow.

Ele sugeriu que a Enron tentasse realizar uma fusão e propôs nomes de companhias de petróleo como a Shell. Skilling balançou a cabeça e disse achar que ninguém se fundiria com a Enron.

"Andy, eu bati em um muro de tijolos", disse Skilling, segundo o depoimento de Fastow. "Eu simplesmente não sei o que fazer."

Dois meses depois, Skilling deixou a Enron citando motivos pessoais. George El Khouri Andolfato

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