UOL Notícias Internacional
 

08/03/2006

Para cientistas, plano nuclear russo para o Irã é perigoso

The New York Times
William J. Broad *
Há momentos em que até um pouquinho de pesquisa pode ser algo ruim,
especialmente se ela for relativa ao Irã e à bomba atômica.

Na terça-feira (07/03), vários cientistas nucleares e analistas afirmaram
que a proposta experimental de Moscou no sentido de permitir que Teerã
realize uma pequena quantidade de pesquisas sobre o enriquecimento do urânio é perigosa. Alguns chegaram a comparar a proposta a um "projeto de gravidez".

"Depois de um certo tempo, a tendência é que se acabe tendo um bebê", disse Peter D. Zimmerman, professor de ciência e segurança no departamento de estudos de guerra do King's College, em Londres. "Não acredito que os iranianos devam ter qualquer acesso à tecnologia de enriquecimento até que demonstrem ser um parceiro mais responsável do que foram até o momento".

Os iranianos têm repelido energicamente tais colocações, e dizem que o
Ocidente quer privá-los do conhecimento atômico e da capacitação técnica que eles têm o direito de adquirir para um programa pacífico de energia nuclear.

Eles vêem a iniciativa ocidental como nada menos do que uma conspiração
maliciosa para impedir que o seu país se modernize. Em uma entrevista na
rede de televisão Al-Arabiya, no mês passado, por exemplo, Ali Larijani, o principal negociador nuclear iraniano, disse: "O problema é que eles vêem as nações muçulmanas como inferiores, e acreditam que não podemos contar com tecnologia moderna, bastando que fabriquemos massa de tomate e engarrafemos água mineral".

Na segunda-feira, autoridades européias descreveram a proposta russa,
segundo a qual o Irã concordaria com uma moratória da produção de urânio
enriquecido em escala industrial, mas um dia teria permissão para realizar aquilo que chamaram de "pesquisa e desenvolvimento em pequena escala". Na terça-feira, autoridades russas negaram que tal proposta tenha sido feita. Mas os europeus acreditam que a idéia voltará a emergir.

Da forma como foi descrita, a proposta parece se referir ao trabalho
iraniano em Natanz, onde o Irã está construindo o protótipo de uma
instalação que abrigaria mil centrífugas, e uma outra, de escala industrial, que contaria com 50 mil dessas máquinas. As centrífugas são dispositivos altos e delgados, cujos rotores giram a velocidades extraordinárias para enriquecer um gás tóxico, produzindo um componente raro do urânio, o urânio 235, que pode ser usado para alimentar reatores nucleares ou para fabricar bombas atômicas.

Segundo os cientistas nucleares e os analistas, a instalação de pesquisas
com mil centrífugas não representaria uma ameaça imediata no que diz
respeito à fabricação de armamentos, caso estivesse enriquecendo urânio
natural. Eles disseram que, para enriquecer uma quantidade de urânio natural suficiente para fabricar uma única ogiva nuclear, as mil centrífugas precisariam operar 24 horas por dia durante dois ou três anos.

Mas eles observaram que este cálculo pode mudar significativamente caso o Irã adquira urânio que já tenha passado por algum processo mínimo de
enriquecimento, e utilize tal material na sua instalação protótipo.

Considerando esses fatos, parece estar havendo um exagero. Afinal, os reatores nucleares operam com combustível que contém apenas 4% de urânio
235, enquanto que para a fabricação de armas nucleares é necessário um grau de pureza de pelo menos 90%. Assim, o fato de o Irã desviar combustível destinado a um reator nuclear para uma unidade de pesquisa não daria ao país uma grande vantagem na corrida para a fabricação de armas atômicas.

Mas os analistas frisaram que as coisas não se passam bem assim. De acordo com eles, o enriquecimento funciona segundo leis que são altamente complexas e não lineares. Assim, é necessária mais energia para enriquecer o urânio natural até um nível de 4% do que para fazer com que o urânio com 4% de pureza alcance um nível de 90%.

Para a usina de pesquisa do Irã, esse tipo de não linearidade poderia se
traduzir em uma grande redução do tempo necessário para a produção de uma bomba. O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, um respeitado
grupo de análise de questões armamentistas, com sede em Londres, estimou que as mil centrífugas, caso alimentadas com urânio levemente enriquecido, poderiam produzir combustível para uma bomba não em uma questão de anos, mas em até 108 dias.

David Albright e Corey Hinderstein, do Instituto de Ciência e Segurança
Internacional, um grupo privado de pesquisas, com sede em Washington,
descobriram que bastariam apenas 500 centrífugas iranianas trabalhando com urânio levemente enriquecido para a produção de combustível com grau de pureza compatível com armamentos atômicos, possibilitando a fabricação de uma bomba em apenas seis meses.

E poderia o Irã, caso contasse com aprovação internacional para seguir em
frente e fazer o trabalho de pesquisas com as centrífugas, obter também
acesso a um suprimento de urânio levemente enriquecido, de forma clandestina ou não?

Segundo os analistas isso é bem possível. O Irã já conta com uma certa
quantidade de reatores de pesquisa em operação com urânio levemente
enriquecido e, em parceria com os russos, está construindo uma usina nuclear bem grande em Bushehr, que utilizaria mais de cem toneladas de urânio, embora o material radioativo desta usina esteja sujeito a salvaguardas internacionais. Teerã também possui um longo histórico de aquisição de materiais atômicos no mercado negro global.

"Faz sentido que nos preocupemos com esta questão", disse Gary Milhollin,
diretor do Projeto Wisconsin para o Controle de Armas Nucleares, uma
organização de pesquisas com sede em Washington. "Quando um país está
operando mil centrífugas, a gente precisa se preocupar com a possibilidade de que eles fabriquem uma bomba atômica rapidamente".

* Elaine Sciolino, em Viena, contribuiu para este artigo. Danilo Fonseca

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