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10/03/2006

"Pergunte ao Pó": Em Los Angeles, um conto de raiva, cobiça e laranjas

The New York Times
Manohla Dargis
Há todo tipo de história sobre Los Angeles, essa cidade de sonhos desmoronados, sol e grandes acidentes de automóvel. Uma das melhores é "Pergunte ao Pó", um romance autobiográfico de John Fante sobre seus anos de fome na cidade, quando vivia de centavos, laranjas e de ambição melancólica. Nascido em Denver, Fante mudou-se para Los Angeles onde, entre romances e histórias que merecem ser lembradas, escreveu filmes que hoje estão quase esquecidos. Charles Bukowski considerava-o um santo e, em 1970, ajudou a tirá-lo da obscuridade. Outro discípulo é o roteirista e algumas vezes diretor Robert Towne, que transformou o uivado glorioso de Fante em um réquiem para a cidade e os que escapam a suas garras douradas.

Como Fante, Towne sabe muito sobre Los Angeles e Hollywood, como atesta seu currículo de triunfos, oficiais e não oficiais: "Bonnie and Clyde", "A Última Missão", "Chinatown" e "Shampoo". Houve fracassos, é claro e desde os anos 70 ele aproveitou as mudanças em Hollywood com resultados heterogêneos, trabalhando com grandes nomes como Jerry Bruckheimer. É justamente nesse contexto que seu desejo de fazer "Pergunte ao Pó", um grito de coração de um jovem autor explodindo de paixão e propósito, carrega uma pungência dolorosa.

Hoje com 71 anos, Towne manteve-se no jogo em parte por seguir as regras que não foram necessariamente boas para sua arte. Imagina-se que, como Fante, algumas vezes colocou Hollywood acima de seu trabalho, o que nem sempre foi fácil.

"Pergunte ao Pó" foi publicado pela primeira vez em 1939, quando Fante tinha 30 anos. O livro conta os "dias magros de determinação" de seu alter ego favorito, o autor vaidoso e furiosamente orgulhoso Arturo Bandini, interpretado no filme com surpreendente convicção por Colin Farrell. Recém publicado, cheio de esperança e de raiva -contra o mundo, contra si mesmo- Arturo, de 20 anos, anseia pela fama, mulheres e algo para comer além das laranjas que fazem suas gengivas sangrarem. Com uma fotografia de seu mentor, o pai sagrado das letras americanas, H. L. Mencken, presa na parede, ele saúda a cidade como um amante devorador. ("Los Angeles", implora Fante, "dê-me parte de você!") O fato da cidade ignorar suas tentativas apenas deixa Arturo mais irado, aprofundando seu ódio, fortalecendo seu amor.

"Pergunte ao Pó" foi escrito quando Fante ainda estava lutando, e o leitor sente a urgência de sua batalha em cada linha. O filme não tem essa urgência, apesar da interação sensual de Farrell e sua atraente atriz coadjuvante, Salma Hayek, que faz o papel da garçonete paqueradora Camilla. Seu romance tem muito mais espaço no filme do que no livro, o que é parcialmente uma concessão ao fato de que todas muitas páginas de pensamentos, observações, digressões e sonhos de Arturo não se traduziriam com facilidade à tela. Mas o romance também serve a outros propósitos da história. Camilla não é apenas ma moradora da cidade que atiça a imaginação de Arturo -como faz uma mulher judia agitada, Vera (Idina Menzel), com quem tem um caso singularmente deprimente- é nela que ele encontra um sentido de ser e pertencer.

Se essa versão tem menos urgência que a de Fante, em grande parte é por causa da diferença de idade e circunstâncias dos dois narradores da história. Por exemplo, enquanto algumas cenas externas têm a luz dura de um dia sem nuvens de Los Angeles, Towne e seu diretor de fotografia, Caleb Deschanel, imbuem outras cenas com um brilho caramelo que lembra um espetacular pôr-do-sol da cidade. (O filme foi de fato gravado quase inteiramente na África do Sul). A iluminação tira o peso da história, e Towne é mais cativo do romance do que escravo da nostalgia. Acima de tudo, "Pergunte ao Pó" parece um compêndio de desejos -por uma cidade, uma mulher, juventude- que passaram de ardentes a mornos.

Depois de fazerem círculos em torno um do outro, como leões famintos, trocando calúnias étnicas e olhares de desejo, Arturo e Camilla fogem para a praia onde, durante um interlúdio sonhador, encontram refúgio temporário. Quando Arturo aluga seu quarto de hotel em Bunker Hill, a proprietária (a excelente Eileen Atkins) explica claramente que não aceita mexicanos nem judeus. Muito antes de Los Angeles adotar seu rosto sorridente permanente, esse racismo aberto era uma realidade diária. Isso faz Arturo queimar por dentro e odiar os americanos comuns que o rejeitam por ter sangue italiano, e a si mesmo (ele repete obsessivamente seu nome completo, como uma praga) e uma mulher de cabelo escuro perto dele. Na terra dos comedores de lótus, ele se engasga.

O que mantém Arturo vivo é a força de sua ambição, tanto quanto esperança e laranjas. Ferrell, que algumas vezes parece perdido em seus próprios filmes, investe o personagem com concentração e doçura. Apesar do motor interno de Arturo ser mais lento na tela do que nas páginas, Towne reteve maravilhosamente bem o sabor de sua fala. Ele tira palavras e idéias diretamente do romance, gentilmente temperando os vôos extravagantes de Arturo para que soem mais naturais saindo da boca de seu astro. "Pergunte ao Pó" é de certa forma atemporal, mas também de uma época específica, como evidenciado pelas cabanas de praia baratas, recriados com amor, os bondes barulhentos e o vendedor de fruta japonês que mantém a barriga de Arturo cheia. As ruas não pavimentadas enchem o ar de poeira e nem todas levam a Hollywood.

Eventualmente, é claro, levarão. Quando Fante escreveu "Pergunte ao Pó", ele já tinha começado a trabalhar em Hollywood, o que o ajudou a sair da pobreza, mas também teve seu preço pessoal. É difícil não pensar que isso explique parcialmente porque Towne queria contar esta história em particular, para recriar essa Hollywood dos sonhos e a Los Angeles perdida.

A beleza da prosa de Fante tem suas atrações, é claro, mas o que importa aqui não é simplesmente o livro, mas também a história de um escritor cujo melhor trabalho transcendeu todas as concessões, períodos de negligência e violentas contradições. Este é apenas o quarto filme de Towne, mas depois de uma vida dando palavras belas para outras pessoas dizerem, esta claramente era uma história que ele mesmo precisava contar.

Ficha técnica:

Título: "Pergunte ao Pó"

Dirigido por Robert Towne; escrito por Towne, baseado no romance de John Fante; diretor de fotografia: Caleb Deschanel; editado por Robert K. Lambert; direção de arte: Dennis Gassner; produzido por Tom Cruise, Paula Wagner, Don Granger e Jonas McCord; lançado pela Paramount Classics.
Duração: 117 minutos.

Elenco: Colin Farrell (Arturo Bandini), Salma Hayek (Camilla Lopez), Donald Sutherland (Hellfrick), Eileen Atkins (Mrs. Hargraves) e Idina Menzel (Vera Rifkin). Deborah Weinberg

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