UOL Notícias Internacional
 

11/03/2006

Vítima encapuzada de Abu Ghraib ainda está sentindo a tortura

The New York Times
Hassan M. Fattah

em Amã, Jordânia
Quase dois anos depois, os ferimentos de Ali Shalal Qaissi ainda são sentidos.

Há uma mão mutilada, um velho ferimento que infeccionou pelo atrito das algemas em sua pele. Há uma leve manqueira, agravada pelos dias que passou amarrado em posições desconfortáveis. E, acima de tudo, há os pesadelos da experiência penosa de quase seis meses na prisão de Abu Ghraib, em 2003 e 2004.

Shawn Baldwin/The New York Times 
Ali Shalal Qaissi vê a foto que o tornou conhecido como uma das vítimas de Abu Ghraib

Qaissi, 43 anos, foi o prisioneiro 151716 do Bloco 1A. A foto dele em pé e encapuzado acima de uma caixa de papelão, ligado a fios elétricos e com seus braços abertos em uma sombria pose profética, se tornou um símbolo indelével da tortura em Abu Ghraib. As forças armadas americanas disseram na quinta-feira que deixarão a prisão e a entregarão para o governo iraquiano.

"Eu nunca quis ser famoso, especialmente não desta forma", disse ele, enquanto se sentava em um escritório esquálido alugado por seus amigos aqui em Amã. Dito isto, ele é agora um defensor dos direitos dos prisioneiros que claramente entende o poder da imagem: ela aparece em seu cartão de visita.

À primeira vista, há pouco que ligue Qaissi com a infame foto do homem encapuzado, exceto por sua mão esquerda, que ele disse que foi desfigurada quando um rifle antigo explodiu em suas mãos em um casamento há vários anos. Uma mão desfigurada também é visível na foto infame e se destaca de forma proeminente na perspectiva de vida de Qaissi. Em Abu Ghraib, a mão, com dois dedos inchados, um deles parcialmente arrancado e um corte profundo na palma, lhe valeram o apelido de "Homem da garra", ele disse.

Um porta-voz das forças armadas americanas no Iraque se recusou a comentar, dizendo que violaria a Convenção de Genebra revelar a identidade dos prisioneiros em qualquer uma das fotos de Abu Ghraib, assim como seria discutir os motivos por trás da detenção de Qaissi.

Mas documentos da prisão da Autoridade Provisória da Coalizão que governou o Iraque após a invasão, disponibilizados aos repórteres pela Anistia Internacional, mostram que Qaissi esteve sob custódia americana na época. Além disso, pesquisadores tanto do Human Rights Watch quanto da Anistia Internacional dizem que entrevistaram Qaissi e, juntamente com advogados que estão processando as empresas contratadas pelas forças armadas em um processo coletivo pelo abuso, acreditam que ele é o homem da foto.

Sob o governo de Saddam Hussein, Qaissi era um mukhtar, uma espécie de prefeito do bairro, um papel geralmente dado a membros do Partido Baath do governo e estreitamente ligados aos seus nebulosos serviços de segurança. Após a queda do governo, ele administrava um estacionamento pertencente a uma mesquita em Bagdá.

Ele foi preso em outubro de 2003, ele disse, por ter se queixado veementemente aos militares, organizações de direitos humanos e à imprensa sobre soldados despejando lixo em um campo de futebol local. Mas alguns de seus comentários sugerem que ele no mínimo nutre simpatia pelos rebeldes que combatem os soldados americanos.

"Resistência é um direito internacional", ele disse.

Semanas após se queixar do lixo, ele disse, ele foi cercado por jipes Humvee, encapuzado, amarrado e levado a uma base próxima antes de ser transferido para Abu Ghraib. Então teve início o interrogatório.

"Eles me culparam de ter atacado as forças americanas", ele disse, "mas eu disse que era inválido; como eu poderia disparar um rifle?" ele disse, apontando para sua mão. "Então ele me perguntou: 'Onde está Osama Bin Laden? ' E eu respondi: 'No Afeganistão'."

Como você sabe? "Porque ouvi na televisão", ele respondeu.

Ele disse que logo ficou evidente que a meta era coagi-lo a divulgar nomes de pessoas que poderiam estar ligadas aos ataques contra as forças americanas. Sua mão, então enfaixada, era um freqüente foco de ameaças e incentivos, ele disse, com os interrogadores oferecendo consertá-la ou esmagá-la em momentos diferentes. Após interrogatórios sucessivos, ele disse que finalmente recebeu um duro alerta: "Se você não falar, da próxima vez nós lhe enviaremos para um local onde nem mesmo cães vivem".

Finalmente, ele disse, ele foi levado a um caminhão, colocado com o rosto para baixo, amarrado e levado a uma área especial da prisão onde podia ouvir os gritos. Ele foi forçado a se despir, então amarrado com as mãos para cima. Um guarda começou a escrever em seu peito e testa, o que alguém mais tarde leu para ele: "Colin Powell".

Ao todo, havia cerca de 100 celas no bloco, ele disse, com uma variedade de prisioneiros de todas as idades, de adolescentes a velhos. Os interrogadores freqüentemente usavam trajes civis, com suas identidades cuidadosamente escondidas.

Os prisioneiros eram privados de sono, ele disse, e a série de punições que recebiam variavam do bizarro ao obsceno: um idoso foi forçado a vestir sutiã e posar; um garoto foi ordenado a bater nos outros adultos; grupos de homens eram organizados em pilhas. Havia a temida "festa com música", ele disse, na qual os prisioneiros eram colocados diante de alto-falantes. Qaissi também disse que um guarda urinou nele. E havia as fotos.

"Todo soldado parecia ter uma câmera", ele disse. "Eles costumavam nos trazer fotos e ameaçam entregá-las para nossas famílias."

Hoje, estas fotos, transformadas em montagens e shows de slide no computador de Qaissi, são um lembrete de suas experiências no bloco de celas. Enquanto passava as fotos, cada uma ainda provocando choque ao aparecer na tela, ele ocasionalmente parava, sua voz ficando entrecortada enquanto recontava a história por trás de cada foto.

Em uma, um jovem se encolhe de medo enquanto um cão o ameaça.

"Este é Talib", ele disse. "Ele era um jovem iemenita, um estudante da Escola de Arte Beaux, em Bagdá; ele estava realmente tremendo."

Em outra, a soldado Lynndie R. England, que foi condenada em setembro passado por conspiração e maus-tratos a prisioneiros iraquianos, posa diante de uma fila de homens nus, com um cigarro na boca. "São Jalil, Khalil e Abu Khattab", ele disse. "São todos irmãos e são do meu bairro."

Então há uma foto do próprio Qaissi, em pé sobre uma caixa de papelão, tirada 15 dias após sua detenção. Ele disse que tina recebido apenas recentemente um cobertor, após ficar nu por dias, e que tinha transformado o cobertor em uma espécie de poncho.

Os guardas o levaram até uma caixa pesada cheia de refeições militares, ele disse, e o encapuzaram. Ele foi ordenado a permanecer em cima da caixa enquanto os fios elétricos era ligados em cada uma de suas mãos. Então, ele alega, ele foi eletrocutado cinco vezes, o suficiente para morder sua língua.

A especialista Sabrina Harman foi condenada em maio passado por seu papel no abuso de prisioneiros em Abu Ghraib, mas foi acusada de ter ameaçado eletrocutar um prisioneiro encapuzado em uma caixa caso descesse dela, não de eletrocutá-lo enquanto estava no topo dela.

Após quase seis meses em Abu Ghraib, disse Qaissi, ele foi colocado em um caminhão, desta vez sem algemas, mas ainda encapuzado. Enquanto o caminhão partia acelerado da prisão, um dos outros homens a bordo removeu o capuz e anunciou que eles estavam livres.

Com cabelo grisalho e olhos melancólicos, Qaissi é hoje um ativista pelos direitos dos prisioneiros no Iraque. Logo após ter sido libertado de Abu Ghraib em 2004, ele deu início à Associação das Vítimas das Prisões da Ocupação Americana juntamente com vários outros homens imortalizados nas fotos de Abu Ghraib.

Financiada em parte por organizações não-governamentais árabes e doações privadas, a meta do grupo é divulgar os casos de presos ainda sob custódia e apoiar os presos e suas famílias com doações de roupas e alimentos.

Qaissi tem viajado pelo mundo árabe com suas apresentações e exibições de slides, enviando a mensagem de que o abuso contra prisioneiros por americanos e seus aliados iraquianos continua. Ele disse que sendo a face pública de seu movimento, ele corre o risco de sofrer retaliação por parte das milícias xiitas que entraram para as forças policiais iraquianas e têm sido implicadas em abusos contra prisioneiros. Mas isto não o tem impedido.

Na semana passada, ele disse, ele fez uma palestra na Universidade Americana em Beirute, na segunda-feira ele seguirá para Damasco para falar para estudantes e autoridades e, em poucas semanas, seguirá para a Líbia para mais do mesmo.

Apesar da crueldade que testemunhou, Qaissi disse que não nutre animosidade para com os Estados Unidos e os americanos. "Eu perdôo as pessoas que fizeram estas coisas conosco", ele disse. "Mas quero a ajuda delas para prevenir que este tipo de atrocidades continue ocorrendo." George El Khouri Andolfato

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