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12/03/2006

Durante invasão do seu país, Saddam via nos rebeldes iraquianos a maior ameaça

The New York Times
Michael R. Gordon e Bernard E. Trainor
Enquanto os aviões dos Estados Unidos cortavam o céu do Iraque duas semanas após o início da invasão do país, o general Raad Majid al-Hamdani dirigia um carro até Bagdá para participar de uma reunião crucial com os líderes iraquianos. Ele suplicou por reforços para melhorar a defesa da capital e por permissão para explodir a ponte no sul da cidade, sobre o Rio Eufrates, a fim de bloquear o avanço norte-americano.

Mas Saddam Hussein e o seu pequeno círculo de assessores tinham as suas próprias idéias sobre como lutar na guerra. Convencido de que a maior ameaça ao seu governo era interna, Saddam procurou manter as pontes iraquianas intactas, a fim de que pudesse despachar suas tropas rapidamente para o sul, caso os xiitas saíssem se rebelassem.

Hamdani pouco conseguiu em termos de soldados adicionais, e a resmungada permissão para explodir a ponte foi concedida tarde demais. Os iraquianos danificaram apenas um dos dois vãos da ponte, e os soldados norte-americanos logo conseguiram atravessá-la.

O episódio foi apenas um dentre vários incidentes descritos em um relatório militar sigiloso norte-americano, em outros documentos e em entrevistas, que demonstram como Saddam estava tão preocupado com a ameaça interna no seu país que chegou a prejudicar a capacidade das suas forças armadas de combaterem a ameaça externa. Somente uma das suas unidades de defesa - os Saddam Fedayeen - demonstrou eficácia na luta contra os invasores. Eles mais tarde se juntaram à resistência que ainda está atuando no Iraque, mas isto se deu basicamente como conseqüência natural dos fatos, e não como fruto de um plano.

Sempre vigilante com relação a golpes e temeroso de revoltas, Saddam
desconfiava profundamente dos seus próprios comandantes e soldados, segundo evidenciam os documentos. Ele tomou sozinho decisões cruciais, confiou nos filhos para receber conselhos militares, e impôs medidas de segurança cujo resultado foi a diminuição da agilidade das suas forças armadas. Saddam fez isso de várias maneiras:

- O ditador iraquiano era tão secretista e compartimentalizava tanto
as informações que os seus principais líderes militares ficaram atônitos
quando ele lhes disse, três meses antes da guerra, que não possuía armas de destruição em massa. A cúpula militar ficou desmoralizada porque acreditava contar com arsenais ocultos de armas químicas ou bacteriológicas para a defesa nacional.

- Ele colocou um general considerado um bêbado incompetente no
comando da Guarda Republicana Especial, encarregada de proteger a capital. O motivo principal para isso foi o fato de considerá-lo leal.

- Saddam administrou a guerra de maneira excessivamente meticulosa,
não permitindo que os comandantes deslocassem tropas de Bagdá sem permissão, e bloqueando o processo de comunicação entre os líderes militares.

As operações conduzidas pelos Fedayeen não foram informadas aos líderes das forças convencionais. Divisões da Guarda Republicana não tinham permissão para se comunicarem com unidades similares. Os comandantes foram incapazes de sequer obter mapas precisos do terreno adjacente ao aeroporto de Bagdá, já que isso identificaria as localizações dos palácios do líder iraquiano.

Grande parte desse material está incluso em uma história secreta preparada pelas forças armadas dos Estados Unidos, que conta como Saddam e os seus comandantes travaram a guerra. Apresentando-se como historiadores militares, analistas norte-americanos interrogaram mais de 110 autoridades e oficiais militares iraquianos, oferecendo a alguns deles jantares suntuosos a fim de que revelassem os seus segredos. Outras autoridades foram questionadas em um centro de detenção no aeroporto de Bagdá ou na prisão Abu Ghraib. Os oficiais militares dos Estados Unidos vêem esses relatos como verossímeis porque vários deles são similares. Além disso, foram analisados mais de 600 documentos iraquianos capturados.

Supervisionada pelo Comando Conjunto das forças Armadas, uma versão não sigilosa do estudo será divulgada publicamente em breve. Uma versão sigilosa foi preparada em abril de 2005. Com o título, "Perspectivas Iraquianas sobre a Operação Liberdade Iraquiana, Principais Operações de Combate", o estudo revela que Saddam descartou a possibilidade de que os norte-americanos invadissem o seu país com força total.

"Poucas semanas antes dos ataques, Saddam ainda acreditava que os Estados Unidos não utilizariam forças terrestres", disse aos interrogadores norte-americanos Tariq Aziz, ex-vice-primeiro-ministro iraquiano. "Ele acreditou que os norte-americanos não travariam uma batalha terrestre porque tal ação lhes custaria muito caro".

Apesar da derrota fragorosa sofrida pelas suas forças armadas durante a
Guerra do Golfo Pérsico de 1991, Saddam não via os Estados Unidos como o seu principal adversário. O seu maior temor era um levante xiita, como aquele que estremeceu o seu governo logo após a guerra de 1991.

A sua preocupação com as ameaças internas interferiu nas suas medidas para defender o país contra um inimigo externo, conforme ficou evidente depois da análise de um plano militar iraquiano de 1995, anteriormente desconhecido. Inspirado em manuais russos, os oficiais iraquianos sugeriram uma nova estratégia de defesa da pátria. Assim como a Rússia cedeu território para derrotar Napoleão, e mais tarde o exército de Hitler, o Iraque resistiria a um exército invasor por meio de uma luta baseada no recuo. Tribos iraquianas bem armadas atuariam como as guerrilhas russas. Já as forças armadas, incluindo a Guarda Republicana, assumiriam um papel mais modesto.

Saddam rejeitou essa recomendação. Armar as tribos locais seria algo demasiadamente perigoso para um governo que vivia com medo de um levante popular.

No entanto, enquanto o planejamento militar convencional não progredia, o
foco de Saddam nas ameaças internas gerou uma importante inovação: a criação de forças paramilitares Fedayeen. Equipadas com fuzis AK-47, lançadores de granadas e armamentos leves, um dos seus principais objetivos era proteger as sedes do Partido Baath e manter os xiitas à distância caso houvesse uma rebelião, até que tropas iraquianas dotadas de equipamentos mais pesados pudessem esmagar as revoltas.

Controlados por Odai Hussein, o filho do líder iraquiano, os Fedayeen e
outras forças paramilitares eram tão vitais para a sobrevivência do governo que "drenaram recursos humanos" que seriam utilizados pelo exército iraquiano, afirma o relatório sigiloso.

Saddam também se preocupava com o seu vizinho a leste. Assim como o governo Bush, Saddam suspeitava que o Irã desenvolvia bombas atômicas e outras armas de destruição em massa. Todos os anos as forças armadas iraquianas realizavam um exercício cujo codinome era "Falcão Dourado", voltado para a defesa da fronteira entre o Iraque e o Irã.

Os Estados Unidos eram tidos como uma ameaça menor, especialmente porque Saddam acreditava que Washington não seria capaz de aceitar baixas significativas. Na guerra de 1991, os Estados Unidos não tinham a intenção de tomar Bagdá. Naquela ocasião, o presidente George Bush justificou o comedimento como medida prudente para evitar os problemas gerados por uma ocupação do Iraque, mas Saddam concluiu que os Estados Unidos tiveram medo dos custos militares.

O principal temor de Saddam quanto a um possível ataque dos Estados Unidos era a possibilidade de que tal ação estimulasse os xiitas a pegarem em armas contra o governo. "Saddam temia uma rebelião interna das tribos antes, durante e depois de um ataque dos Estados Unidos contra Bagdá", disse Aziz aos seus interrogadores. Outros membros do círculo interno de poder de Saddam acreditavam que se os norte-americanos atacassem, se limitariam a realizar uma intensa operação de bombardeio e a capturar os campos petrolíferos do sul do país.

Medidas para evitar a guerra

No entanto, Saddam tomou algumas medidas para evitar provocar a guerra. Embora medidas diplomáticas estivessem sendo implementadas pela França, Alemanha e Rússia para evitar uma guerra, ele rejeitou propostas no sentido de minar o Golfo Pérsico, temendo que o governo Bush usasse tal ação como um pretexto para atacar, observa o estudo realizado pelo Comando Conjunto das Forças Armadas.

Em dezembro de 2002, ele informou aos seus principais comandantes que o Iraque não possuía armas não convencionais -nucleares, biológicas ou químicas -, segundo o Grupo de Pesquisas sobre o Iraque, uma força-tarefa criada pela CIA para investigar o que aconteceu com os programa iraquianos de armamentos. Saddam queria que os seus oficiais soubessem que não poderiam contar com armas bacteriológicas ou químicas caso a guerra irrompesse. Segundo Aziz, a revelação de que não havia arma não convencional alguma derrubou a moral do comando militar iraquiano.

Para garantir que o Iraque não fosse reprovado no escrutínio realizado pelos inspetores de armamentos da ONU, Saddam ordenou que estes tivessem acesso aos locais que desejassem inspecionar. Além disso, determinou que se fizesse uma operação concentrada de varredura no país, de forma que os inspetores não descobrissem quaisquer vestígios de antigos armamentos não convencionais, algo que não é uma preocupação pequena em se tratando de uma nação que já contou com um arsenal de armas químicas, agentes biológicos e mísseis Scud, revelou o grupo de pesquisas.

No entanto, Saddam não acatou completamente as determinações da ONU. As declarações apresentadas pelo Iraque à ONU sobre os arsenais de armas de destruição em massa que o país possuiu, e sobre como se livrou delas, eram antigas e continham lacunas. E Saddam não permitia que os seus cientistas de armamentos deixassem o país, já que no exterior os funcionários da ONU seriam capazes de entrevistá-los sem o controle do governo.

Procurando conter o Irã e até os inimigos internos, o objetivo do ditador iraquiano era cooperar com os inspetores e, ao mesmo tempo, manter alguma ambigüidade com relação aos seus supostos armamentos não convencionais - uma estratégia que Hamdani, o comandante da Guarda Republicana, mais tarde apelidou em uma entrevista à televisão, de "contenção pela dúvida".

Tal estratégia gerou um erro mútuo de julgamento. Quando o secretário de
Estado, Colin L. Powell, falou ao Conselho de Segurança em fevereiro de
2003, ele forneceu evidências, a partir de fotografias e comunicações
interceptadas, de que os iraquianos estavam se empenhando em retirar
quaisquer vestígios dos locais suspeitos de armazenamento de armas.

Os esforços de Saddam no sentido de remover qualquer resíduo de velhos
programas de armas não convencionais foram encarados pelos norte-americanos como tentativas de ocultação de tais armas. As próprias medidas tomadas pelo governo iraquiano no sentido de reduzir a possibilidade de uma guerra foram usadas contra ele, aumentando as chances de que houvesse um confronto militar.

Até mesmo alguns oficiais iraquianos ficaram impressionados com a
apresentação feita por Powell. Abd al-Tawab Mullah Huwaish, que fiscalizava a indústria militar iraquiana, achava que conhecia todos os segredos governamentais. Mas os funcionários do governo Bush foram tão insistentes que ele começou a duvidar de que o Iraque tivesse realmente banido as armas não convencionais. "Eu sabia muita coisa, mas fiquei me perguntando por que Bush acreditava que nós tínhamos aquelas armas", disse ele aos interrogadores após a guerra.

Precavendo-se contra a revolta

Conforme a guerra se aproximava, Saddam tomou medidas para suprimir um levante. Unidades paramilitares Fedayeen foram espalhadas pelo sul do país, assim como grandes reservas de armamentos leves. Saddam dividiu o Iraque em quatro setores, cada um liderado por um membro do seu círculo interno. O objetivo da medida era ajudar o governo a neutralizar desafios à sua autoridade, incluindo levantes e rebeliões.

Refletindo a desconfiança de Saddam com relação às suas próprias forças
armadas, tropas regulares do exército foram estacionadas próximas ao
Curdistão, ou à fronteira iraniana, longe da capital. Dentre os integrantes do exército iraquiano, somente a Guarda Republicana Especial teve permissão para permanecer em Bagdá. Uma série de medidas restritivas foi imposta para fazer com que fosse difícil para as forças armadas iraquianas exercer o comando.

Por exemplo, Sultan Hashim al-Tai, ministro da Defesa de Saddam que se
distinguiu durante a guerra Irã-Iraque, detinha um título importante. Mas
ele tinha pouca influência. "Eu me tornei efetivamente um assistente de
Qusai, apenas coletando e passando informações", disse ele aos
interrogadores, referindo-se ao filho de Saddam.

A fim de proteger Bagdá, Saddam selecionou o general Barzan abd al-Ghafur Solaiman Majid al-Tikriti, um primo próximo, para liderar a Guarda Republicana Especial, ainda que ele não contasse com experiência de batalha, tivesse sido reprovado na academia militar e fosse um beberrão conhecido. Quando lhe perguntaram sobre as habilidades militares de al-Tikriti, Tai deu ruidosas gargalhadas.

Mesmo assim, o comandante da Guarda Republicana Especial foi monitorado de perto pelos agentes de Saddam e disse mais tarde aos interrogadores que exerceu o cargo mais perigoso no Iraque. "Eles me vigiavam quando eu ia ao banheiro", revelou al-Trikriti. "Eles ouviam tudo o que eu dizia e grampeavam tudo".

Tão logo a guerra teve início, os comandantes de campo enfrentaram numerosas restrições, incluindo a proibição de comunicações, a fim de minimizar as chances de um golpe.

"Tínhamos que utilizar os nossos próprios elementos de reconhecimento para sabermos onde precisamente se encontravam as outras unidades iraquianas nos nossos flancos", disse aos interrogadores o comandante do Primeiro Corpo da Guarda Republicana. "Não tínhamos permissão para nos comunicarmos com as nossas unidades vizinhas".

Mesmo quando os norte-americanos se deslocavam rapidamente para o norte, Saddam não deu atenção à seriedade da ameaça. Enquanto os Fedayeen surpreenderam os soldados da coalizão com a sua resistência feroz e os ataques sorrateiros, as forças convencionais foram aniquiladas.

Em uma reunião no dia 2 de abril, Hamdani, o comandante do 2º Corpo da Guarda Republicana, previu corretamente que o Exército dos Estados Unidos pretendia passar pela Lacuna de Karbala a caminho de Bagdá. Tai, o ministro iraquiano da Defesa, não foi persuadido disso. Ele argumentou que o ataque no sul seria um truque, e que a principal ofensiva dos Estados Unidos viria do oeste, talvez auxiliada pelos israelenses. Naquele dia, Saddam ordenou que as forças armadas se preparassem para um ataque dos Estados Unidos a partir da Jordânia.

A título de consolo, Hamdani recebeu uma companhia de forças de Operações Especiais como reforço, e finalmente recebeu permissão para destruir a ponte sobre o Rio Eufrates a sudoeste de Bagdá. Mas isto foi muito pouco, muito tarde.

Em 6 de abril, o dia após o ataque do exército dos Estados Unidos a Bagdá, a chamada "marcha do trovão", a situação desesperadora em que se encontrava Saddam foi ficando clara. Em um refúgio no distrito de Mansour, em Bagdá, ele se reuniu com o seu círculo interno de poder e pediu a Aziz que lesse uma carta de oito páginas.

Saddam não demonstrou nenhuma emoção enquanto a carta era lida. Mas Aziz disse mais tarde aos interrogadores que o líder iraquiano parecia um homem derrotado, e que a carta parecia ser a sua despedida. O seu reinado estava chegando ao fim.

"Não acreditamos que os norte-americanos avançariam até Bagdá", disse um oficial da Guarda Republicana aos seus interrogadores. "Achamos que a coalizão chegaria a Basra, e talvez até Amara, e depois disse a guerra terminaria". Danilo Fonseca

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