UOL Notícias Internacional
 

13/03/2006

"No México, as favelas são um novo ideal suburbano"

The New York Times
Nicolai Ouroussoff

em Tijuana, México
Teddy Cruz se desloca há mais de uma década entre os subúrbios de San Diego e as favelas de Tijuana. Pessoas das mais diversas profissões, de
antropólogos a urbanistas, o abordam incessantemente, solicitando visitas às favelas.

"Isto se tornou parte da minha rotina semanal", disse Cruz, um arquiteto de 43 anos, enquanto percorríamos velozmente uma rodovia cercada rumo à
fronteira mexicana. "A maioria das pessoas ainda não viu o muro de
fronteira. Quero mostra a elas que esse muro não é tão feio assim".

Mas Cruz é mais do que um simples guia turístico. As suas idéias a respeito dos aglomerados residenciais caóticos de Tijuana geraram empolgação, tanto na região de fronteira, onde reside, quanto em cidades distantes, como Londres e Tel Aviv. Em conjuntos de barracos feitos com tábuas de compensado, em oficinas mecânicas e outros locais similares, Cruz encontrou um modelo humano para que se repensem os subúrbios estadunidenses.

Ele tem defendido esta idéia como um antídoto para os condomínios fechados que nos últimos anos têm se disseminado no sul da Califórnia, em Israel e na China. Em última instância, as suas idéias poderia ser aplicadas aos novos subúrbios de imigrantes do Meio-Oeste dos Estados Unidos, ou aos bairros arruinados pelas enchentes de Nova Orleans.

O status crescente de Cruz como celebridade cultural pode ter algo a ver com as realidades da era posterior ao 11 de setembro. Conforme ele sugeriu no ano passado em um evento em Londres - A Conferência Memorial Stirling, patrocinada pelo Centro Canadense de Arquitetura -, a preocupação dos Estados Unidos com a segurança fez com que a sua atenção se voltasse para barreiras como o muro de aço de três metros de altura que separa Tijuana de San Diego. Assim como vários outros arquitetos, ele vê este verdadeiro lacre da fronteira como uma ameaça àquele tipo de troca cultural que civiliza e enriquece os povos dos dois lados.

Para Cruz, a barreira é um sintoma de uma mentalidade que desvaloriza as
diferenças culturais, em vez de procurar encontrar nelas inspirações
criativas. É o tipo de pensamento que estimulou a explosão global de
crescimento dos condomínios fechados, das torres corporativas fortificadas e de complexos de lojas, como os shopping-centers, na forma de enclaves isolados.

"A fortificação do muro de fronteira nos últimos dez anos coincide com o endurecimento das atitudes com relação ao espaço público", afirma Cruz, um homem de compleição frágil, cujos modos gentis ocultam uma mente em efervescência. "Isso é algo que diz respeito a políticas de exclusão e de divisão. Portanto, como preservar essa heterogeneidade?".

O próprio arquiteto lida há muito tempo com duas realidades. Ele foi criado na capital guatemalteca, onde a sua mãe era dona de um clube noturno chique. Presa certa vez por esconder no porão armamentos pertencentes a rebeldes, ela se casou com um empresário norte-americano e se mudou para os Estados Unidos após um golpe militar na década de 1980, estabelecendo-se em San Diego.

Cruz, que à época, com 20 anos de idade, falava mal o inglês, acabou
ingressando no curso de arquitetura da Cal Poly, em San Luis Obispo,
Califórnia, e ganhou o prestigiado Prêmio Roma, uma bolsa de estudos
acadêmica na Itália. Ao retornar, no início da década de 1990, ele se fixou em uma área de 207 quilômetros quadrados adjacente à fronteira mexicana.

"Quando retornei de Roma, quis retomar os vínculos com a América Latina", conta ele. "Eu estava formando uma nova família. Comecei a tentar unir todos os pontos dispersos, a fim de observar a área com um olhar mais crítico. Para mim, Tijuana era o local onde toda a América Latina se chocava contra este grande muro".

O momento em que se entregou a tais reflexões tinha algo de presciente. Após o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês) ter entrado em vigor em 1994, ele viu um círculo de novas fábricas se formar em torno de Tijuana - enormes caixotes quadrados, com gramados bem cuidados e palmeiras plantadas em belas fileiras -, juntamente com subdivisões em estilo norte-americano, com a regularidade rígida de sepulturas. Algo dentro dele se rebelou.

"Para mim, isso fazia parte de uma história inteira, daquele tipo que sempre encontramos na América Latina - copiando continuamente os estilos do Ocidente como símbolos de progresso", diz Cruz. "Na Guatemala, tínhamos uma Avenida de la Reforma, que era uma cópia de uma avenida mexicana, que por sua vez era uma cópia de um típico plano urbanístico francês do século 19. Tínhamos até mesmo uma réplica em miniatura da Torre Eiffel".

"No caso destes projetos ocorre o mesmo", disse ele, referindo-se às moradias inspiradas em modelos norte-americanos. Para Cruz, tais projetos são um contraponto estéril e perverso aos guetos labirintados de Tijuana; remendos feitos a partir de resíduos de uma estrutura mais rica.

À medida que Tijuana se expandia para o terreno montanhoso a leste, os
moradores das favelas idealizaram um sistema elaborado de muros de
contenção, usando pneus cheios de terra. As casas amontoadas nas inclinações são construídas com blocos de concreto, chapas de metal, portas de garagem usadas e caixas velhas - grande parte deste material é trazido pelas empreiteiras e vendedores locais do outro lado da fronteira.

Tão logo um assentamento seja concluído, segundo a lei mexicana fica a
proibida a sua demolição - e o governo é obrigado a levar energia elétrica ao novo bairro, e de ligá-lo a uma rede de esgoto, além de construir ruas para servir à população. Sob a ótica de Cruz, o processo é de determinadas maneiras uma forma bem mais flexível e democrática de desenvolvimento urbano do que aquelas que se constituem na norma em qualquer outro lugar.

Mas ele é tomado de especial satisfação ao se deparar com locais nos quais as formas livres e as convencionais se sobrepõem. Um dos panoramas mais estranhos em Tijuana é uma fileira de bangalôs clássicos da Califórnia construídos sobre uma estrutura vazia de aço de um andar. Tendo sido, no passado, destinados à demolição do outro lado da fronteira, essas residências foram transportadas de caminhão para o sul por empreiteiras que as venderam aos moradores locais.

A fim de encaixá-las em lotes apertados, vários moradores montam estas casas sobre as estruturas de aço, de forma a poder utilizar o espaço inferior para montar um comércio, uma oficina ou um outro negócio. Em um dos locais, um belo bangalô pintado de rosa acomoda-se sobre uma estreita passagem para carros entre duas casas, como se uma criança houvesse casualmente montado casas de brinquedo no local.

Dirigindo em direção aos morros, passamos pelos portões de uma vasta
subdivisão do final da década de 1990 que se transformou em uma espécie
particular de híbrido. Originalmente, o espaço foi concebido como um
conjunto de casas beges idênticas, cada uma delas do tamanho de uma garagem norte-americana para dois automóveis, construídas atrás de pequenos jardins, como se fossem uma versão amarga do sonho norte-americano.

Passados poucos anos, os antigos jardins foram ocupados por oficinas mecânicas, mercearias e botecos. Novos andares foram construídos, casas foram aglutinadas para abrigar famílias maiores, e várias das fachadas beges foram repintadas com cores vivas. Cruz vê na mistura um cenário mais rico e vibrante - uma resposta animada à alienação que vários de nós passamos a associar com os subúrbios norte-americanos convencionais.

Não é que ele romantize a pobreza: Cruz reconhece a sujeira e o amontoamento desorganizado, a falta de luz e de ar, que eram os principais alvos de crítica do modernismo há quase um século. Mas, ao abordar as favelas de Tijuana com uma mente aberta, ele é capaz de extrair uma estratégia viável de desenvolvimento que está enraizada em tradições locais.

Os frutos são visíveis na peculiar visão arquitetônica de Cruz. Durante anos ele tem redefinido o desenho para um projeto habitacional de 12 blocos em San Ysidro, uma comunidade de imigrantes na área suburbana de San Diego, em cooperação com um grupo local de defesa dos direitos da comunidade chamado Casa Familiar. O projeto é concebido como uma estrutura para o desenvolvimento futuro, tendo como peça central um espaço semipúblico que ocupa a área de um quarteirão.

Esta área funcionará como espaço comunitário compartilhado para mercados, festivais e outros eventos sociais. A sua estrutura de concreto, inspirada em parte pelos cubos estruturais de Donald Judd, é intencionalmente mais pura e mais formal do que qualquer coisa do gênero em Tijuana, mas tal estrutura rigorosa abriga um organismo social informal e flexível.

Uma fileira de delicadas casas de madeira sobre a estrutura ressaltará o contraste entre as zonas privada e pública. Cada unidade é concebida como uma série de cômodos interligados que podem ser subdivididos em duas unidades de um quarto, ou aglutinadas para abrigar famílias grandes. E o bloco inteiro será cortado por um jardim semipúblico que liga a rua Street Hall a um atalho para os imigrantes que se deslocam para o trabalho.

Uma segunda fase prevê a construção de fileiras paralelas de moradias para pessoas idosas, intercaladas de jardins semipúblicos. Os blocos de um andar são cobertos por longos telhados uniformes que se elevam em certos pontos a fim de criar espaço para aquilo que Cruz chama de "apartamentos generosos" - unidades para uma só pessoa nas quais parentes possam se hospedar. Uma creche que funcionará durante o dia todo também faz parte do bloco destinado aos idosos, já que vários filhos de imigrantes são criados pelos avós.

A fim de dar seguimento ao projeto, Cruz deu início a uma campanha de larga escala para modificar as leis de zoneamento urbano de San Diego. Trabalhando com o Casa Familiar, ele procura abrir espaço para as comunidades mais densas, de funções mistas, que são típicas do México - uma composição urbana na qual as estruturas se misturam livremente umas às outras, adequando-se às realidades mutantes das famílias de imigrantes. Os escritórios do grupo funcionarão como prefeituras improvisadas, cuidando de questões como empréstimos e a reconfiguração das unidades.

A Câmara Municipal de San Diego aprovou o plano de desenvolvimento no ano passado, e Cruz espera que as mudanças no zoneamento urbano sejam implementadas no próximo outono. Os planejadores pretendem dar início à construção no ano que vem.

Enquanto isso, Cruz está colaborando com a artista Rebecca Solnit em uma proposta teórica para a transformação de uma enorme mansão de 6.500 metros quadrados na região suburbana de São Francisco - construída durante o surto expansivo das empresas "ponto-com" - em um complexo residencial multifamiliar. Cruz acredita que casas grotescamente suntuosas em todo o país acabarão passando por um processo similar, embora ainda possam faltar uns 50 anos para que isso ocorra.

"Este é o próximo círculo de densificação e, portanto, acreditamos que ele possa ser um laboratório perfeito. Como reformar esse tipo de moradia
segundo uma nova filosofia?", questiona ele, referindo-se às mega-mansões.

Mais recentemente, a sua emergência nos círculos arquitetônicos lhe rendeu trabalhos mais prestigiosos, como o desenho de um escritório para o crítico urbano Mike Davies - o escritor chama o local de "meu barraco pessoal" - e uma adega em Guadalupe, México. Ele também se integrou a outros urbanistas e arquitetos para comprar um pequeno pedaço de terra no ponto mais ao norte de Tijuana. "Esta é a fronteira suprema da América Latina", diz Cruz. "Adoraríamos transformar a área em um centro cultural, e talvez em uma universidade local".

De certas maneiras, a franqueza de Cruz posiciona a sua arquitetura em uma zona externa à sua profissão, que é tão freqüentemente obcecada por um fator estético marcado pelo mirabolante. Mas ao focar a sua atenção
especificamente sobre a área de fronteira, ele criou uma estrutura mutável que poderia ser aplicada bem além dos subúrbios de San Diego. Faz pelo menos uma década que os imigrantes de classe média nos Estados Unidos estão abandonando os centros das cidades e se deslocando para os subúrbios mais antigos situados às margens das metrópoles. Cruz enxerga nestes centros emergentes de mistura étnica um rico laboratório para experiências arquitetônicas.

Para o arquiteto, o tradicional modelo norte-americano do "Nossa Cidade" - telhados impermeabilizados com piche, varandas frontais, praças da cidade - não é mais relevante hoje em dia do que os monótonos blocos residenciais genéricos da fase final do modernismo. Ambas as visões assumem que somos todos iguais, que todos devemos subscrever a mesma idéia de utopia.

O que Cruz está defendendo é a liberdade - e uma abertura para as tradições das outras culturas. Os seus projetos nos fazem lembrar que é possível encontrar significados em nichos enraizados em uma experiência pessoal distinta da nossa própria.

O ponto até o qual este espírito nos conduzirá vai depender de quanta
liberdade estamos dispostos a tolerar. Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host