UOL Notícias Internacional
 

15/03/2006

Israelenses capturam 6 em invasão a prisão na Cisjordânia

The New York Times
Steven Erlanger e Greg Myre

em Jericó, Cisjordânia
Com tanques, tratores e helicópteros, as forças militares israelenses sitiaram uma prisão palestina aqui por 10 horas na terça-feira, antes de capturarem seis presos palestinos que eram mantidos há quatro anos segundo um acordo incomum envolvendo os Estados Unidos e a Grã-Bretanha.

O confronto teve início pela manhã e durou até Israel capturar os homens procurados na prisão, na normalmente calma Jericó, após o anoitecer.

Logo após o início da invasão, militantes palestinos responderam com uma onda de seqüestros, pegando pelo menos nove estrangeiros na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, apesar da maioria ter sido libertada ilesa poucas horas depois.

A invasão da prisão é sintomática da crescente desconfiança entre o grupo militante palestino Hamas e as autoridades israelenses. Ela também coincide com um momento de tensões políticas, com o Hamas trabalhando para formar um Gabinete após seu triunfo eleitoral em janeiro e Israel caminhando para eleições nacionais em 28 de março.

As forças armadas israelenses invadiram Jericó logo após os monitores britânicos terem deixado a prisão na manhã de terça-feira. Monitores britânicos e americanos têm revezado sua vigilância desde 2002 sobre seis presos palestinos -cinco dos quais atrás das grades pelo assassinato de Rehavam Zeevi, o ministro do Turismo israelense, em 2001- mas os monitores partiram porque sentiram que sua própria segurança estava em risco. O acordo de monitoramento foi um compromisso israelense com o líder palestino Iasser Arafat para permitir que os homens permanecessem sob sua custódia, mas os líderes palestinos insinuaram recentemente que os libertariam.

Soldados israelenses e veículos blindados dispararam contra a prisão várias vezes e tratores derrubaram os muros. Helicópteros militares dispararam vários foguetes, enquanto colunas de fumaça preta enchiam o céu do deserto. Após escurecer, as tropas israelenses apontaram holofotes para a prisão.

Em uma troca de fogo, as forças israelenses mataram um guarda e um prisioneiro, ambos palestinos, e mais de uma dúzia de palestinos ficaram feridos, segundo os palestinos. Os israelenses disseram que evacuaram três feridos palestinos. A invasão provocou uma onda de revolta entre os palestinos, que acusaram a Grã-Bretanha e os Estados Unidos de removerem seus monitores. Turbas atacaram vários prédios ligados a países ocidentais, incluindo o British Council, um centro cultural na Cidade de Gaza. que foi saqueado e incendiado. O escritório do British Council em Ramallah também foi atacado, assim como uma agência do banco HSBC do Oriente Médio.

Homens armados em Gaza entraram em agências de ajuda humanitária, hotéis e escritórios de órgãos de imprensa à procura de ocidentais para seqüestrar. Um acadêmico americano foi mantido por um breve período e depois foi libertado na Cisjordânia. Em Gaza, a maioria dos que foram levados foi libertada em pouco tempo, apesar de um correspondente de uma televisão sul-coreana e dois jornalistas franceses ainda permanecerem seqüestrados na noite de terça-feira, disseram seus governos.

O governo britânico pediu a seus cidadãos para que deixassem os territórios palestinos. Monitores de fronteira europeus deixaram a passagem de Gaza para o Egito, em Rafah, que foi fechada. A Autoridade Palestina buscou evacuar os poucos estrangeiros remanescentes de Gaza, e um comboio policial conduziu cerca de 15 até a fronteira com Israel na noite de terça-feira, informou a agência de notícias "The Associated Press".

Cerca de 15 mil palestinos realizaram uma marcha de protesto nas ruas da Cidade de Gaza na noite de terça-feira, com militantes prometendo renovar seus ataques contra Israel. Vários foguetes foram disparados do norte de Gaza na direção do sul de Israel mas não causaram estragos, disseram as forças armadas.

Policiais palestinos atiraram e mataram um palestino armado em Gaza e feriram pelo menos sete outros enquanto tentavam restaurar a ordem.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, pediu moderação em uma declaração da Europa, onde busca a continuidade da ajuda financeira. "O presidente Abbas pede a todo o povo palestino para que não transforme o protesto contra o ataque israelense à prisão de Jericó em uma ação violenta contra os centros culturais da União Européia ou de qualquer outro país", disse a declaração.

Funcionários palestinos disseram no fim da noite de terça-feira que Abbas estava suspendendo sua viagem à Europa e voltando para casa para lidar com a crise.

Funcionários do governo Bush se recusaram a comentar a ação israelense, mas mal se contiveram em suas críticas à Autoridade Palestina.

Funcionários americanos e britânicos disseram que estavam alertando os palestinos há meses de que as condições de segurança na prisão eram tão relaxadas a ponto de serem perigosas. Em 8 de março, os dois governos enviaram uma carta conjunta ameaçando remover seus monitores se a segurança não melhorasse. Nenhum prazo foi estabelecido.

"Eles tiveram dois anos para agir, para melhorar a segurança da prisão", disse Adam Ereli, o vice-porta-voz do Departamento de Estado. "Eles não fizeram nada."

Entre as preocupações dos monitores estava a de que os prisioneiros eram autorizados a dar e receber telefonemas por celulares e de que os visitantes não eram revistados ou monitorados.

Em Londres, Jack Straw, o ministro das Relações Exteriores, disse que seu governo esteve em contato com os palestinos por quatro vezes nos último cinco dias para repetir as preocupações. "No final a segurança de nosso pessoal tem precedência", ele acrescentou.

Nem os Estados Unidos e nem a Grã-Bretanha disseram a Israel ou aos palestinos quando pretendiam se retirar, "por razões operacionais", disse um alto funcionário americano. Seguindo as regras do governo, ele se recusou a ser identificado por nome.

Oito americanos e doze monitores britânicos trabalhavam na prisão. Todos os monitores que trabalhavam na manhã de terça-feira eram britânicos, disse Ereli.

No momento em que a invasão foi concluída em Jericó, pelo menos 200 prisioneiros palestinos e guardas de segurança se entregaram às forças israelenses. Mas as forças armadas disseram que estavam interessadas em apenas seis prisioneiros específicos, o mais proeminente sendo Ahmed Saadat, chefe da Frente Popular para a Libertação da Palestina, um pequeno grupo esquerdista que tem estado envolvido em ataques contra Israel há décadas.

Antes de se entregar, Saadat, um entre mais de doze prisioneiros palestinos que foram eleitos ao Parlamento palestino em janeiro, disse que preferiria morrer a se render.

"Nossa escolha é lutar ou morrer", ele disse para a televisão Al Jazeera em uma entrevista por telefone da prisão. "Nós não nos renderemos." Mas o comandante de Israel na Cisjordânia, o general de divisão Yair Naveh, anunciou logo após às 19 horas que os homens procurados e vários outros militantes na cadeia tinham se entregado.

Israel disse que Saadat e quatro dos outros homens procurados serão julgados em Israel pelo assassinato de Zeevi, que foi morto a tiros em um hotel de Jerusalém. O sexto prisioneiro, Fuad Shobaki, foi acusado de ajudar a planejar e financiar um esforço palestino para contrabando de armas em um navio, o Karine A, que foi interceptado em janeiro de 2002 pela Marinha israelense no Mar Vermelho.

Por todo o dia, os israelenses deixaram claro que queriam que os prisioneiros se entregassem, mas que pretendia removê-los vivos ou mortos.

"Nossa meta era colocá-los atrás das grades, vivos, em Israel", disse Gideon Meir, um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores.

Na primavera de 2002, durante um grande ataque às áreas palestinas na Cisjordânia, tropas israelenses cercaram a instalação do líder palestino Iasser Arafat em Ramallah. Saadat e os outros homens procurados também estavam dentro da instalação.

Em um acordo que colocou um fim àquele cerco, Arafat concordou em prender Saadat e os cinco outros homens procurados em Jericó, em vez de entregá-los para Israel. Como parte do arranjo, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos forneciam os monitores que vigiavam os prisioneiros.

Mas os americanos e os britânicos passaram a ficar cada vez mais preocupados com a segurança dos monitores e com as violações do acordo pelos palestinos. Também havia a preocupação da possibilidade de que o governo liderado pelo Hamas pudesse libertar os seis prisioneiros, o que também poderia colocar em risco os monitores, que trabalham em turnos.

Um líder político do Hamas no exílio, Khaled Meshal, disse em fevereiro que um governo do Hamas libertaria Saadat. Uma semana atrás, Abbas disse que não se oporia à libertação de Saadat, mas não se responsabilizaria pela vida de Saadat depois disto, sugerindo que ele estava mais seguro na prisão.

Oficiais militares israelenses disseram que estavam preparados para a operação militar desde a carta conjunta de britânicos e americanos aos palestinos, na semana passada. Eles disseram que vários prisioneiros palestinos foram libertados das prisões palestinas, incluindo a de Jericó, desde a vitória do Hamas.

Meir, o funcionário do Ministério das Relações Exteriores, disse que os "americanos e britânicos disseram na sexta-feira a Israel que os monitores partiriam por questões de segurança, mas não deram data de quando isto aconteceria".

Os três monitores britânicos partiram às 9 horas da manhã de terça-feira, passando por uma barreira israelense, e os israelenses começaram a cercar a prisão com aproximadamente 100 soldados por volta de 30 minutos depois.

As forças israelenses pediram a todos os palestinos que deixassem a instalação de Jericó da qual a prisão faz parte. Muitos atenderam, incluindo oficiais de segurança em seus uniformes verde-oliva e prisioneiros, que se despiram e ficaram apenas com a roupa de baixo, como ordenaram os israelenses.

Mas alguns ficaram para trás e as forças israelenses começaram a derrubar os muros externos da instalação com disparos de tanque e tratores blindados. George El Khouri Andolfato

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