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16/03/2006

A face da cirurgia plástica para milhões

The New York Times
Natasha Singer

em Beverly Hills, Califórnia
Pouco antes de sua cirurgia na barriga na semana passada, Doris Valdez estava deitada em uma maca em um quarto cirúrgico assistindo seu cirurgião plástico, Roberto M. Rey Jr., ensinar uma enfermeira a usar nunchaco. Rey girou a arma no ar, golpeou um oponente imaginário e habilmente a prendeu sob seu braço.

Stephanie Diani/The New York Times 
Roberto M. Rey Jr., o 'Dr. 90210' da TV norte-americana, posa com suas funcionárias

"Eu posso ver sua pequena competição, dr. Rey", disse Valdez, 35 anos, uma mãe de cinco que trabalha como especialista de pessoal em uma prisão estadual em Corcoran, Califórnia.

"Nós também o vimos levantar halteres", disse o marido de Valdez, Florentino, que estava sentado ao lado dela. "Ele fez isso no programa da TV e estávamos aguardando para vê-lo fazer pessoalmente."

Como muitos pacientes no consultório movimentado de Rey, Valdez e seu marido o assistiram no programa "Dr. 90210" do canal E! Entertainment. Apesar do programa, atualmente na terceira temporada, seguir as vidas pessoais e profissionais de seis médicos, Rey rouba quase todo episódio. Quando ele não está realizando rotinas de artes marciais ou levantando peso em seu característico traje cirúrgico preto, ele está consultando pacientes vestindo terno Versace, entrando em seu Porsche preto ou nadando com sua esposa e filhos na piscina de sua mansão em Beverly Hills. No programa, ele abraça suas pacientes, as chama de "coração" e até mesmo diz, após operar seus seios, que eles parecem "quentes!"

A televisão transformou Rey em um nome popular, talvez o cirurgião plástico mais conhecido nos Estados Unidos. Cerca de 38 milhões de espectadores nos Estados Unidos assistiram aos episódios desta temporada de "Dr. 90210", segundo o canal E!. E apesar de muitos dos colegas de Rey criticarem seu estilo Hollywood e a forma como ele tem transformado a cirurgia plástica em entretenimento, ele pode ser um fruto natural de uma especialidade médica que exalta a beleza do corpo e as ilusões de juventude eterna do show business.

Uma coisa é clara: "Dr. 90210" é o programa que os cirurgiões plásticos tradicionais adoram odiar. Um dos críticos é Mark L. Jewell, o presidente da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética, que disse que Rey é um cirurgião habilidoso, mas seus modos informais com os pacientes são impróprios, até mesmo indignos, e o reality show dá aos espectadores a impressão de que a cirurgia plástica é um tratamento de beleza casual, em vez de um procedimento cirúrgico sério.

Os céticos na profissão médica questionam de tudo, desde os modos de Rey ao lado do leito do paciente (em um episódio recente, ele aconselhou uma paciente, após lhe dar implantes de seio, para que "cuide bem destes bebês, pois dei duro neles") à forma como ele usa elegantemente um estetoscópio -cirurgiões plásticos raramente usam um- juntamente com a gola de seus ternos italianos.

"Apenas cardiologistas e médicos de pronto atendimento em hospitais precisam andar com estetoscópios", disse Leslie H. Stevens, um cirurgião plástico em Beverly Hills. "Cirurgiões plásticos raramente precisam escutar o coração de alguém."

Também é altamente incomum para um cirurgião levantar pesos imediatamente antes de uma operação, porque o exercício dos músculos do braço pode levar a tremores ou fadiga muscular, disse Jewell.

E acima de tudo, dizem os críticos, Rey, 44 anos, não possui certificação do conselho em cirurgia plástica, uma credencial opcional que muitos cirurgiões plásticos consideram o padrão ouro de realização em sua especialidade. (Cerca de 5.300 cirurgiões plásticos nos Estados Unidos possuem o certificado, segundo o Conselho Americano de Cirurgia Plástica. Jewell estima o número de cirurgiões plásticos sem o certificado como sendo de menos de 200.)

Rey disse que apenas adiou os exames do certificado porque estava ocupado demais.

Ao se retratar na televisão como a antítese do cirurgião plástico nobre, de avental branco, de Park Avenue, Rey disse que está promovendo a cirurgia plástica para um público maior, mostrando que ela pode ser uma experiência feliz. "A geração mais velha nos olha feio", disse ele. "Mas os reality shows expandiram o mercado de cirurgia plástica em 33%." Outros cirurgiões plásticos disseram que sua especialidade está crescendo rápido o suficiente por conta própria. Os americanos realizaram mais de 2 milhões de procedimentos de cirurgia plástica no ano passado, um aumento de 119% desde 1997, segundo a Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética.

Graças à popularidade de Rey na televisão, sua agenda cirúrgica está cheia até o outono americano. Ele conta com duas assistentes em tempo integral apenas para lidar com os telefonemas constantes. Seu renome -sem contar seu charme, boa aparência e estoque interminável de frases- o levaram aos programas "Today", "The View", "Dr. Phil", "Entertainment Tonight" e "Access Hollywood".

Muitos pacientes e espectadores fiéis estão familiarizados com a história de Rey como ele a apresentou: como foi criado por uma mãe solteira em São Paulo, Brasil, e como passou sua juventude andando com uma gangue de adolescentes e cometendo pequenos crimes. Durante sua infância ele dormia em sacos de dormir sobre uma mesa de sala de jantar quebrada, ele disse. Mas mesmo naquela época ele tinha seus sonhos.

"Caminhando pelo gueto em que fui criado, eu sabia que iria para os Estados Unidos, que iria para Harvard, que seria um cirurgião plástico, que me mudaria para Beverly Hills, seria eleito para o Congresso e então me tornaria secretário de Saúde", ele disse.

Convidado por uma missionária cristã a viver nos Estados Unidos, Rey e seus três irmãos se mudaram para Utah em 1974, quando ele tinha 12 anos. Em Utah e posteriormente, quando ele e seus irmãos moraram em um rancho no Arizona, disse Rey, ele era "um nerd" que estudava quase o tempo todo. Mas ele também atuava em comerciais de televisão da Adidas e Buick para ajudar a pagar pela faculdade de medicina, ele disse.

"Olha, eu recebi meu cartão do SAG antes de conseguir minha licença de médico", disse Rey, tirando de sua carteira um cartão de filiação do Screen Actors Guild (o sindicato dos atores), de 1980, e sua licença médica da Califórnia, de 1993.

Em 1983, Rey recebeu o diploma de bacharel em química pela Universidade Estadual do Arizona. Em 1990, ele se formou pela Escola de Medicina da Universidade Tufts, em Boston, e também obteve um grau universitário em política pública pela Escola de Governo John F. Kennedy em Harvard. Então ele passou três anos como residente em cirurgia geral no Harbor-UCLA Medical Center, em Los Angeles. Em 1997 ele concluiu uma residência de dois anos em cirurgia plástica e reconstrutiva no Centro de Ciência da Saúde da Universidade do Tennessee, em Memphis.

No ano seguinte ele concluiu uma bolsa de estudos de cirurgia estética na Escola de Medicina de Harvard e esta credencial é aquela da qual mais se orgulha. Ele usa um anel de ouro com o lema de Harvard, Veritas. Em seu novo consultório em Beverly Hills, os únicos diplomas na parede na semana passada eram os de Harvard. Muitas de suas sentenças começam com "quando estava em Harvard" ou "eles nos ensinaram em Harvard".

Ele chegou a Beverly Hills em 1998. "Ele disse a todos que iria para Hollywood para se tornar um cirurgião plástico famoso, mas parecia algo distante", lembrou Roberto D. Lachica, um professor assistente de cirurgia no centro da Universidade do Tennessee em Memphis, onde Rey foi residente. "Agora ele é o cirurgião plástico mais famoso da América."

Ele ganhou fama com tamanho entusiasmo, disse Rey, que não houve tempo para obter o certificado do conselho. A maioria dos cirurgiões plásticos, após concluírem suas residências, passa meses se preparando para os difíceis exames escritos e orais que os qualificam para o certificado do conselho. Eles compilam casos detalhados de cada cirurgia que realizaram ao longo de um período de sete meses e então têm seu trabalho analisado por um comitê de cirurgiões plásticos estabelecidos. Os cirurgiões que passam tanto nos exames escritos quanto orais recebem o certificado do conselho.

É legal realizar cirurgia plástica sem o certificado do conselho; qualquer médico licenciado pode operar. Mas Jewell disse que o processo de certificação "é a única boa medida que temos do treinamento, habilidade, segurança, atendimento, profissionalismo, comportamento ético e conduta de um cirurgião plástico".

Rey disse que teria buscado o certificado do conselho se tivesse tido tempo entre sua bolsa de estudos e sua entrada no show business. "Mas assim que cheguei aqui meu envolvimento com Hollywood decolou", ele disse. "Minha esposa e eu tínhamos acabado de ter dois filhos. O certificado do conselho é algo que planejo obter, mas ainda não tive tempo para fazê-lo."

Robert D. Wallace, o chefe de cirurgia plástica do centro da Universidade do Tennessee, em Memphis, que supervisionou a residência de Rey, disse que o certificado do conselho, e não um alto índice de popularidade, deveria ser o critério usado pelos pacientes para escolher um cirurgião plástico. "Mas o dr. Rey nos disse que não precisava passar no conselho para ter uma prática glamourosa e bem-sucedida, e ele estava certo", disse Wallace.

Rey nunca foi culpado de erro médico ou disciplinado por um hospital, segundo as juntas médicas estaduais da Califórnia e Massachusetts.

Enquanto Rey estava estabelecendo sua prática, ele apareceu em alguns poucos documentários de televisão sobre cirurgia plástica nos canais WB e E! E notou quão rapidamente reality shows de cirurgia plástica como "Extreme Makeover" e a série "Nip/Tuck" se tornavam populares. O que o mundo precisava, ele concluiu, era de um reality show que acompanhasse as vidas reais dos cirurgiões plásticos.

"'Nip/Tuck' retrata os cirurgiões plásticos como pessoas vis que são mulherengos, viciados em drogas e têm filhos ilegítimos", disse Rey. "Eu queria um programa no qual os cirurgiões plásticos fossem pessoas comuns, com família, filhos e empregos de grande pressão."

Então ele abordou Rick Leed, um produtor que trabalhou na série "Home Improvement", sobre o desenvolvimento do reality show. O canal E! começou a exibir "Dr. 90210" em 2004.

"O público conhece o tipo acadêmico avoengo de cirurgião plástico que parece um pouco santarrão", disse Leed, atualmente um produtor executivo de "Dr. 90210". "Ele queria mostrar um médico que fosse mais jovem, simpático, sem vergonha de estar fisicamente em forma, um médico que tornasse toda a experiência cirúrgica menos estressante e mais feliz para os pacientes."

Rey disse que o programa o retrata como uma versão mais rica de Ray Romano, da série "Everybody Loves Raymond": um marido sobrecarregado de trabalho, dominado pela mulher, cuja esposa grita com ele quando chega tarde em casa e cuja filha o chuta quando lhe traz o presente errado. Mas ele também está ciente do quociente de glamour de Hollywood que tem apelo junto ao público ávido por celebridades. Rey treina no antigo estúdio de artes marciais de Bruce Lee, seu pastor alemão é descendente de Rin Tin Tin 5º e ele comprou uma mansão que já foi de Raquel Welch, ele disse.

Alguns cirurgiões plásticos reconhecem que Ray tornou sua especialidade mais amistosa para o público de massa. "O programa mostra que a cirurgia plástica pode ter um impacto profundamente positivo nas vidas das pessoas", disse Thomas C. Cochran Jr., um professor assistente de cirurgia da Escola de Medicina de Harvard, que ensinou para Rey durante sua bolsa de estética. "Os pontos positivos são que você vê um processo de entrevista autêntico, uma consulta pré-operatória e a recuperação pós-operatória. O restante é apenas show business."

Os críticos dizem que a rotina médica de Rey não é realista. "Eu nunca vi um médico circular por uma sala de operação como se fosse parte de uma trupe de dança amadora", disse Sumner A. Slavin, o chefe de cirurgia plástica do Beth Israel Deaconess Medical Center em Boston. "Este comportamento denigre os cirurgiões plásticos e faz nossa profissão parecer ilegítima."

Rey reconheceu que seu terno elegante no consultório e rotina pré-operatória é incomum, mas ele argumentou que isto aumenta, e não denigre, a reputação da cirurgia plástica. "Somos um programa popular que visa atrair as espectadoras", disse Rey. "E quando elas sintonizam, nós mostramos que nem todas são candidatas a cirurgia e que envolve uma agressão física e um longo processo de cura."

Cochran elogiou o talento de Rey. "Rey parece tecnicamente um cirurgião muito bom", ele disse. "Quando você vê as operações na televisão, elas parecem estar sendo realizadas sob as condições certas usando uma boa técnica de esterilização."

A sala de operação de Rey é impecável, sua equipe cirúrgica trabalha de forma tão eficiente que seu assistente e enfermeira antecipam que instrumentos Rey precisará sem que precise perguntar, e ele é meticuloso quanto os detalhes estéticos de seu trabalho.

Quando ele realizou a cirurgia na barriga de Valdez, por exemplo, ele cuidou para remover a camada extra de gordura ao redor da barriga para que o estômago dela descesse um pouco e "parecesse mais feminino", ele disse. Ele também cortou um pequena bolsa de gordura no alto da pélvis "porque nenhuma mulher gosta daquela bolsa", ele disse. Então ele se concentrou em criar o que chamou de "um umbigo que parece sensual".

Rey ainda nutre seus sonhos de infância de "ser eleito ao Congresso e mudar as coisas" e esperanças de algum dia se tornar o secretário de Saúde, para que "mesmo os trabalhadores imigrantes pobres tenham acesso ao atendimento de saúde", ele disse. Mas, enquanto isso, ele está concentrado em mudar a face da cirurgia cosmética.

"Nós fomos pioneiros da idéia do médico como entertainer", disse Rey. "Eu gosto de pensar que ajudei no casamento da cirurgia plástica com o show business." George El Khouri Andolfato

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