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17/03/2006

EUA e Irã concordam em discutir plano para acalmar o Iraque

The New York Times
Michael Slackman, em Teerã e

David E. Sanger, em Washington*
O Irã e os Estados Unidos concordaram na quinta-feira (16/03) em manter conversações diretas sobre como acabar com a violência de natureza sectária no Iraque e restaurar a calma naquele país. Essa seria a primeira negociação face a face entre as duas partes após meses de confrontação quanto ao programa nuclear iraniano.

O principal negociador nuclear iraniano, Ali Larijani, anunciou no parlamento iraniano na quinta-feira que enviaria uma equipe de negociadores ao Iraque para se reunir com representantes norte-americanos naquele país. Mas ele também sugeriu durante uma entrevista que haveria rígidas pré-condições.

"Creio que o Iraque é um bom campo de testes para que os Estados Unidos analisem com rigor a forma como agem", disse Larijani no seu gabinete, pouco depois de ter feito o anúncio. "Se há uma determinação nos Estados Unidos no sentido de realizar tal análise, então nós estaremos prontos para ajudar".

Em Washington, o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, disse que as autoridades norte-americanas teriam um "papel muito limitado" nas conversações com os iranianos, e que as negociações diretas quanto às questões nucleares só ocorreriam com a participação das principais potências européias, além da Rússia e da China.

A secretária de Estado, Condoleezza Rice, disse em Sidney, Austrália, que as conversas com os enviados iranianos em Bagdá poderiam ser "úteis", mas se limitariam a discussões sobre a segurança iraquiana. "Esta não é uma espécie de negociação", afirmou Rice.

O assessor de Segurança Nacional do presidente Bush, Stephen J. Hadley, afirmou que vê a iniciativa iraniana como um sinal de que os líderes de Teerã "estão finalmente começando a dar ouvidos" às nações que encaminharam a questão da atividade nuclear iraniana ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

Mas ele sugeriu que tem havido muito diálogo - a maior parte de natureza pública -, e que o problema não diz respeito à discussão, mas à ação por parte do Irã no sentido de abrir mão da produção de combustível nuclear.

À medida que os dois lados manobram para chegar a um acordo quanto à questão nuclear, o Irã continua a indicar que poderia ser uma ajuda - ou um empecilho - no Iraque, onda uma maioria da população é composta de muçulmanos xiitas, como no Irã.

Não ficou exatamente claro que medidas o Irã tomaria no sentido de ajudar a estabilizar o Iraque. Mas o país há muito tempo apóia os partidos xiitas iraquianos, e mantém vínculos pessoais com os seus líderes.

Os Estados Unidos têm exercido pressão sobre os líderes xiitas no sentido de que estes façam concessões aos partidos sunitas e contenham as milícias envolvidas em esquadrões da morte e em retaliações sectaristas.

Larijani, o secretário-geral do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, anunciou que enviaria negociadores ao Iraque para que estes se encontrassem com o embaixador dos Estados Unidos, Zalmay Khalilzad. Ele disse que está agindo a pedido de Abdul Aziz al-Hakim, um líder do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, um partido religioso com vínculos com o Irã. Larijani também disse que Khalilzad procurou o Irã em várias ocasiões, solicitando ajuda.

"Hakim pediu ao governo iraniano que procedesse dessa forma porque, segundo ele, trata-se de algo necessário para a segurança no Iraque", disse o porta-voz de Larijani, Hossein Entezami, que estava presente no gabinete de Larijani durante a entrevista.

Um funcionário graduado do governo, que não quis que o seu nome fosse divulgado porque não está autorizado a falar a respeito do Irã, afirmou que Khalizad pediu aos iranianos, meses atrás, que negociassem sobre o Iraque, especialmente no que se refere a advertir Teerã para deixar de enviar armas ao país vizinho.

No início deste mês, Bush acusou Teerã de produzir as sofisticadas bombas plantadas à beira de estradas que estão sendo utilizadas contra tropas iraquianas e norte-americanas.

Hadley pareceu tentar reduzir as expectativas de que as conversações gerarão qualquer resultado, afirmando: "Nós falamos com o Irã a todo momento: nós damos declarações; eles dão declarações".

Até agora, a maior parte dessas declarações se limitou a uma troca pública de acusações e a ameaças vagas. Por exemplo, o Irã avisa periodicamente que pode cortar a sua produção de petróleo, caso o Conselho de Segurança censure o país. E o governo Bush alertou, em uma estratégia revisada de segurança nacional, divulgada na quinta-feira, que a diplomacia precisa ter sucesso para que o confronto seja evitado.

Apesar disso, a decisão de Teerã de abrir negociações é o primeiro sinal tangível de que o Irã recuou um passo - embora um passo diminuto - na sua abordagem de confronto total com os Estados Unidos e a Europa a respeito do seu programa nuclear. Desde junho, o Irã se mobilizou agressivamente, desafiando o Ocidente, ativando instalações nucleares e dando prosseguimento ao enriquecimento de urânio em pequena escala.

A abordagem combativa da liderança iraniana contou com amplo apoio no Irã quando parecia estar funcionando. Mas com o Irã mostrando-se incapaz de obter o apoio inequívoco da Rússia, e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) remetendo o caso ao Conselho de Segurança, aumentam no país as preocupações e o desejo de alguns de se esquivar de um confronto aberto.

Embora o Irã tenha reaberto as suas instalações nucleares e cancelado a cooperação voluntária com a Europa a respeito das inspeções, o país não reiniciou o enriquecimento em escala industrial quando o caso foi encaminhado ao Conselho de Segurança, conforme ameaçara. Entezami disse: "O Irã não deseja provocar ninguém".

Larijani, que disputou a presidência na última eleição, permaneceu por mais uma hora no seu gabinete defendendo o direito do Irã de desenvolver energia nuclear, e ao mesmo tempo acusou os Estados Unidos de serem arrogantes, malignos e desrespeitosos com relação a outros países.

Em meio a essas declarações, ele sugeriu que o Irã poderia ser capaz de ajudar os Estados Unidos a acalmarem o Iraque. Ele não mencionou que o Irã também tem algo a ganhar com a estabilidade no país vizinho e com a presença de um governo fortemente dominado por xiitas e, portanto, receptivo à influência iraniana.

"Nós dissemos repetidamente que estamos dispostos a ajudar a promover a estabilidade no Iraque, e a possibilitar que um governo democrático chegue ao poder", disse Larijani. "Estamos preparados para dar uma ajuda. Mas a condição é que os Estados Unidos devem respeitar o voto do povo. O exército não pode fazer provocações por trás dos bastidores".

O conflito quanto à questão nuclear iraniana se tornou interligada a outras questões. Os diplomatas daqui, por exemplo, dizem que as nações européias ocidentais e a Rússia tentaram usar o caso para restabelecer a sua influência e o seu prestígio nas questões internacionais. Mas as conversações diretas entre os Estados Unidos e o Irã sobre o Iraque significariam o primeiro vínculo público entre a questão nuclear e os acontecimentos ocorridos além da fronteira iraniana.

Assim, o Iraque se transformou no mais recente campo de manobras em uma batalha entre dois países, Irã e Estados Unidos, que continuam desconfiando profundamente um do outro. Os Estados Unidos e a Europa acusaram repetidamente o Irã de mentir e observaram que essa crise só teve início quando a AIEA descobriu que durante mais de uma década o Irã ocultou detalhes sobre o seu programa nuclear.

"Não confiamos muito neles", disse Larijani. "Temos certas dúvidas quanto à forma como agem os norte-americanos. Não ouvimos uma única voz. Ouvimos várias vozes distorcidas vindas dos Estados Unidos".

O sentimento é mútuo em Washington, onde R. Nicholas Burns, o subsecretário de Estado para questões políticas, disse aos repórteres na quinta-feira: "Nós vemos um governo iraniano, particularmente depois que Ahmadinejad chegou ao poder, que parece disposto e determinado a criar uma capacidade de fabricação de armas nucleares. Washington calculou que, ao se defrontar com um líder como o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, é melhor tentar isolar o governo iraniano".

Hadley também tomou o cuidado de afirmar que a repetição da doutrina norte-americana de ação militar preventiva para fazer frente a ameaças nucleares não foi feita "tendo o Irã em mente".

Em Teerã, diplomatas europeus disseram que, por ora, não parece haver espaço para um consenso quanto à questão nuclear. Um diplomata europeu disse que o Ocidente jamais aceitaria as exigências iranianas no sentido de enriquecer urânio em solo iraniano a fim de estimular o seu desenvolvimento científico e econômico.

Um diplomata disse que a iniciativa dos iranianos no sentido de manter conversações diretas com os Estados Unidos é um cálculo político local. Apesar das acusações públicas contra os Estados Unidos, vários iranianos estão ansiosos para que haja uma melhoria no relacionamento entre os dois países.

"Existe uma proposta para conceder a eles o direito de enriquecer urânio? Não", disse o diplomata, que falou com a condição de que o seu nome não fosse revelado, devido à natureza sensível da discussão.

Um outro diplomata europeu disse que resta muito pouca confiança do Ocidente em relação ao Irã.

"A liderança iraniana conseguiu nos vender o mesmo tapete quatro vezes, e a cada vez ele era vendido por um preço maior", disse o diplomata, que também falou anonimamente, a fim de preservar a sua capacidade de trabalhar em Teerã.

Mas vários diplomatas europeus disseram que somente as conversações diretas entre os Estados Unidos e o Irã seriam capazes de gerar um acordo diplomático para contornar uma crise.

"Eles querem uma garantia de segurança que só pode ser dada pelos Estados Unidos", disse um diplomata europeu. "Querem uma garantia de que serão, pelo menos, deixados em paz".

Há algo mais que os Irã deseja dos Estados Unidos, e a questão nuclear é apenas o mais recente foco de atrito em uma rixa que existe desde a revolução islâmica, há quase três décadas. Enquanto Larijani manifestava seu descontentamento e desprezo para com os Estados Unidos, ficou claro que ele estava dizendo, entre outras coisas, que o Irã quer respeito.

"Se os Estados Unidos desejam ser uma superpotência, eles deveriam aprender a se comportar", disse Larijani. "Ninguém deve humilhar os outros".

*Colaboraram para esta matéria Nazila Fathi, em Teerã, e Steven R. Weisman, em Sidney. Danilo Fonseca

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