UOL Notícias Internacional
 

17/03/2006

EUA iniciam grande ataque no Iraque; novo Parlamento se reúne

The New York Times
Edward Wong
em Bagdá, Iraque
As forças armadas americanas anunciaram na quinta-feira que deram início ao maior ataque aéreo desde a invasão do Iraque em 2003, enquanto legisladores iraquianos se reuniam na muito esperada primeira sessão do novo Parlamento na capital, mesmo na ausência de qualquer acordo para a formação de um governo pleno.

AFP/US Army 
Soldados rastejam sob o solo depois de deixarem helicópteros perto da fronteira síria

Os líderes do Parlamento fizeram duros discursos que reconheceram as crescentes tensões sectárias e o vácuo de poder, então suspenderam a sessão após a cerimônia de posse dos 275 membros, todos eleitos em dezembro passado. Os líderes de partido saíram para continuar as negociações para a formação de um governo de quatro anos.

Policiais disseram posteriormente que 36 corpos, todos executados com tiros na cabeça, foram descobertos em várias partes de Bagdá desde a manhã de quarta-feira, supostamente as mais recentes vítimas na longa onda de derramamento de sangue sectária.

A operação militar americana envolve mais de 50 aeronaves e 1.500 soldados americanos e iraquianos em centenas de veículos blindados, percorrendo a área fora de Samarra, a fortaleza rebelde a cerca de 100 quilômetros ao norte de Bagdá, onde sabotadores atacaram a bomba um reverenciado templo xiita no mês passado. A explosão destruiu o domo dourado do templo e incitou milicianos xiitas a investirem contra o leste de Bagdá e cidades ao sul, deixando centenas de mortos e o Iraque mais próximo de uma guerra civil total.

Os militares americanos não explicaram se a operação, supervisionada pela 101ª Divisão Aerotransportada, estava ligada de alguma forma ao atentado ao templo. Os relatos iniciais indicam que os soldados que estão participando da operação encontraram esconderijos dos rebeldes com estoques de cápsulas de artilharia, explosivos, equipamento para fazer bombas e uniformes militares, disseram porta-vozes da 101ª Divisão Aerotransportada em uma declaração.

Os ataques estão sendo conduzidos por grandes trechos de terra ao redor de três vilas a leste de Samarra, disse um oficial do Exército iraquiano no centro de operações na cidade.

A maioria das aeronaves empregada são helicópteros Black Hawk, Chinook e Apache que estão sendo utilizados para transporte e cobertura aérea, disse o tenente coronel Edwards Loomis, um porta-voz da 101ª Aerotransportada. O coronel não especificou se as aeronaves participaram de ataques aéreos envolvendo o uso de mísseis e bombas. A operação deve continuar por vários dias.

Samarra tem sido um problema intratável para os americanos desde a derrubada de Saddam Hussein. Ela fica no coração de uma das partes mais voláteis do norte do triângulo sunita e apesar dos militares terem tentado repetidas varreduras na cidade e arredores, os rebeldes se dispersam durante as ofensivas e se reagrupam depois.

O ministro das Relações Exteriores do Iraque, Hoshyar Zebari, disse para a rede de TV "CNN" que os rebeldes "têm tentado criar outra Falluja" na área, uma referência à cidade árabe sunita, a oeste de Bagdá, que era uma fortaleza rebelde até que os marines a atacaram em uma devastadora ofensiva por terra no final de 2004.

"Após a operação Falluja, muitos dos rebeldes se deslocaram para outras partes do país", disse Zebari.

Nos últimos meses, surgiram relatos de que as forças armadas americanas estavam aumentando suas operações aéreas, ao mesmo tempo em que esperavam a retirada de 133 mil soldados daqui. Os helicópteros e aviões podem fornecer cobertura para os soldados iraquianos que possuem menos blindagem e poder de fogo do que os americanos. Mas os críticos dizem que ataques aéreos aumentam as chances de mortes de civis.

Na quarta-feira, os militares americanos demoliram uma casa de fazenda perto da cidade de Balad, no norte, em um ataque por terra e ar, matando pelo menos três civis, disseram oficiais militares. As autoridades iraquianas disseram que todos os 11 membros da família foram mortos. Os militares americanos disseram que um poder de fogo considerável foi empregado depois que soldados americanos receberam fogo da casa durante uma operação para captura de um suspeito.

Recentemente, as autoridades iraquianas anunciaram as prisões de suspeitos ligados ao atentado a bomba contra o templo Askariya, em Samarra. No domingo passado, o ministro do Interior do Iraque, Bayan Jabr, deu detalhes sobre o ataque de 22 de fevereiro: vinte homens colocaram mais de 200 quilos de explosivos por toda a mesquita entre as 20 horas e 5h40 da manhã, horário local. Os explosivos foram então detonados remotamente.

A repercussão violenta do ataque continua afligindo o Iraque, com as tensões sectárias em alta. As autoridades americanas e iraquianas temem que uma batalha política prolongada em torno da formação do governo poderá ampliar as rixas sectárias e alimentar a insurreição liderada pelos árabes sunitas.
Com o Iraque bem próximo de uma guerra civil total, as autoridades do Pentágono estão revisando os planos para retirada de tropas neste ano.

Na sessão de 40 minutos do Parlamento na quinta-feira, os líderes iraquiano fizeram avaliações francas dos problemas do país.

"O país está passando por tempos perigosos", disse Adnan Pachachi, o recém-nomeado presidente interino do Parlamento. "As tensões sectárias aumentaram e começaram a criar uma crise nacional que pode destruir o Iraque. Nós temos que provar para o mundo todo que não haverá uma guerra civil entre os habitantes deste país. O risco ainda existe e nossos inimigos estão nos observando."

Com a abertura do Parlamento, os líderes do Iraque enfrentam um prazo formal apertado para estabelecer um governo. A nova Constituição diz que o Parlamento deve nomear o presidente iraquiano por dois terços dos votos em um prazo de 30 dias após a posse. Não mais de 15 dias depois, o presidente deve instruir o indicado a primeiro-ministro, escolhido pelo maior bloco, a nomear um Gabinete. O indicado tem 30 dias para fazer isto. O Poder Executivo tem que ser aprovado pela maioria dos votos do Parlamento.

Mas a realidade é que os líderes iraquianos têm perdido os prazos ao longo de todo o processo político. Na quinta-feira, os políticos mais otimistas disseram que esperam que o governo será formado em um mês. Mas muitos outros disseram que as negociações poderão se arrastar até o verão (do hemisfério norte). O embaixador americano, Zalmay Khalilzad, tem pedido por uma rápida resolução para as questões mais contenciosas e tem conduzido várias reuniões pessoalmente.

As negociações só começaram para valer no domingo, após semanas de discussões amargas entre os partidos políticos. O maior desentendimento entre eles agora é sobre o indicado para primeiro-ministro: o principal bloco xiita está apoiando Ibrahim Al Jaafari, o atual primeiro-ministro, enquanto uma aliança de árabes sunitas, curdos e políticos seculares se opõe a ele.

Jaafari conquistou a indicação por um voto, quando o bloco xiita realizou uma votação secreta no mês passado. Ele conseguiu com o apoio de Moktada Al Sadr, o clérigo radical xiita que deseja o controle dos ministérios da saúde, transportes e eletricidade. Jaafari tem sido muito criticado por seu fracasso em conter a violência no Iraque, sua incapacidade ou falta de disposição em erradicar os esquadrões da morte xiitas e falta de reconstrução.

Em uma coletiva de imprensa após uma reunião parlamentar, Jaafari disse que desistiria caso lhe pedissem. Mas os xiitas se uniram em seu apoio e Jaafari disse posteriormente, em uma entrevista para a "Iraqiya", a rede de televisão estatal, que os xiitas escolheram seu indicado em um processo democrático e justo.

Em um sinal da situação precária aqui, as autoridades iraquianas impuseram na quinta-feira uma proibição extraordinária à circulação em Bagdá, como fizeram nos dias após o início da violência sectária no mês passado. Quando o Parlamento interino se reuniu no ano passado, não havia tal toque de recolher e as ruas estavam congestionadas de carros de pessoas a caminho de seus afazeres diários.

A violência irrompeu em Diyala, uma província próxima. Uma bomba caseira explodiu em uma escola perto da cidade de Khalis, matando três meninas e ferindo outras duas, disseram policiais. Perto de Mukdadiya, homens armados mataram a tiros um homem e uma mulher. A inquietação até mesmo explodiu no Curdistão iraquiano, antes considerado um santuário de calma: manifestantes entraram em choque com a polícia e incendiaram um museu em Halabja, em protesto pela falta de serviços do partido político do presidente Jalal Talabani, que governa o leste do Curdistão.

No final da manhã, os membros do Parlamento começaram a chegar ao centro de convenções dentro da fortificada Zona Verde, protegida por várias camadas de paredes de concreto, quilômetros de arame farpado e soldados da Geórgia e guardas sul-americanos que não falam nem inglês e nem árabe.

Os principais líderes políticos ficaram na primeira fila da assembléia e apertavam as mãos dos legisladores enquanto passavam. O embaixador Khalilzad entrou com Jabr, o ministro do Interior. Por meses os americanos têm criticado fortemente Jabr por permitir o recrutamento de milicianos xiitas pelas forças policiais.

Após um cantar de versos do Alcorão, o presidente da assembléia interina, Hajim Al Hassani, anunciou a indicação de Pachachi. Aos 83 anos, Pachachi é o membro do Parlamento mais velho e merecedor, segundo a tradição árabe, do papel de presidente interino até que alguém seja nomeado permanentemente.
Pachachi assumiu a tribuna em um terno escuro e gravata azul, com um lenço branco apontando para fora em seu bolso no peito.

Pachachi tentou traçar a importância das negociações políticas e disse que a nomeação de ministros não deve ser feita com base em seitas.

Ele foi abruptamente interrompido por Abdul Aziz Al Hakim, o chefe do principal bloco xiita. "A primeira sessão do Parlamento, segundo a Constituição, deve ser para a realização do juramento de posse e nomeação do presidente (do Parlamento)", disse Hakim, sentado com um manto preto na primeira fila. "Estas discussões devem vir depois."

A ação de Hakim ressaltou as tensões sectárias que Pachachi buscava destacar. Alguns políticos árabes sunitas expressaram posteriormente fúria diante da interrupção. O partido de Hakim, o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, é considerado por muitos árabes sunitas como sendo o mais perigoso do país. O partido adere à ideologia conservadora xiita e tem uma milícia treinada no Irã, a Organização Badr, que tomou postos importantes nas forças de segurança.

Abdul Razzaq Al Saiedi e Omar Al Neami, em Bagdá, e John O'Neil, em Nova York, contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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