UOL Notícias Internacional
 

17/03/2006

Não é 68, mas os jovens franceses ouvem "allons enfants!"

The New York Times
Elaine Sciolino

em Paris
Mais uma vez, os estudantes estão em barricadas na França, evocando comparações com o levante de maio de 1968. Mas isso não é uma revolta, nem é uma volta a 1968.

Certamente, os estudantes estão tomando as ruas e fechando universidades, e gás lacrimogêneo permeia o coração de Paris. Na quinta-feira (16/3) centenas de milhares de manifestantes, na maior parte estudantes, encheram as ruas e marcharam pelas cidades francesas. Com professores, funcionários, líderes sindicalistas, desempregados e até aposentados começando a aderir, manifestação ainda maior está sendo programada para o sábado.

As imagens dos estudantes ocupando a Sorbonne, do século 17, onde nasceu a revolta de 1968, na noite da última sexta-feira lembraram aquele movimento romântico, excitante, de esquerda há 38 primaveras.

Mas o objetivo dos estudantes desta vez é muito mais modesto. Eles querem abolir uma nova lei, o Contrato do Primeiro Emprego, cujo objetivo é aumentar a contratação permitindo que as empresas demitam novos trabalhadores sem justa causa em seus dois primeiros anos.

"Não estamos de volta a '68", disse Nadjet Boubakeur, 26, estudante de história em uma universidade pública e líder do movimento estudantil Unef. "Nossa revolta não é para ter mais. É para manter o que temos."

As manifestações, porém, coincidem com uma época em que o governo francês parece estar em queda livre. Diante da efervescência, o presidente Jacques Chirac e seus ministros foram reduzidos a clamar pelo diálogo. O governo também pareceu ineficaz durante os confrontos do último outono e foi duramente atingido em maio quando os eleitores rejeitaram a Constituição da União Européia.

Em contraste aos confrontos do outono, que foram centrados nos subúrbios da classe operária cheios de imigrantes, estes protestos são quase um fenômeno de classe média que parece estar se espalhando.

Em Paris, na quinta-feira, os manifestantes paralisaram o tráfego por horas enquanto marcharam em direção aos escritórios do governo. No elegante Arrondissement Sete, um pequeno grupo de manifestantes mascarados jogou pedras no batalhão de choque, em frente à loja de departamentos chique Bom Marche, a poucos blocos do escritório do primeiro-ministro.

Em Rennes, a polícia usou gás lacrimogêneo contra os jovens que atearam fogo nas latas de lixo e danificaram automóveis. Em Bordeaux, manifestantes interromperam o tráfego ferroviário. Em Nancy, jovens jogaram pedras na polícia, ferindo um policial. A universidade de Toulouse foi fechada depois de confrontos entre estudantes divididos entre interromper ou não as aulas.

Grandes protestos também ocorreram em Marselha, Montpellier, Lyon, Lille, Clermont-Ferrand, Limoges, Angers, Nantes e Estrasburgo.

É um momento das ruas e do debate feroz, com amplos comentários sobre encruzilhadas, decisões marcantes e referências ao levante que abalou Paris em maio de 1968. Aquela foi uma época de sonhos e revolta estudantil para transformar um sistema elitista autoritário. O movimento levou à paralisação de 10 milhões de trabalhadores na França e chegou perto de tirar de Gaulle do poder.

"Foi um movimento revolucionário de massa, para criar uma sociedade socialista. Tínhamos uma visão idealista", disse Henri Weber, membro do Parlamento Europeu que era líder comunista da revolta 1968 e cuja foto protestando em frente da Sorbonne apareceu no Paris Match.

O atual problema nasce de um sistema educacional falho, que lança no mercado jovens que sem as habilidades necessárias, combinado com leis trabalhistas rígidas que desestimulam a criação de vagas porque requerem benefícios extremamente caros e pacotes de segurança no emprego que tornam quase impossível a demissão.

A sede da Unef, a organização estudantil, em uma seção decadente do nordeste de Paris reflete a natureza díspar do movimento. As paredes estão cobertas de cartazes defendendo causas como novas escolas, o fim à guerra no Iraque, um boicote ao McDonald's e uma proibição de fumar. O ar está cheio de fumaça.

O lema de seus panfletos contra a nova lei trabalhista não chega a ser uma chamada à ação. "Contra a Precariedade", diz.

Mas os estudantes conseguiram criar um impasse entre o governo e um grande grupo de pessoas. Os dois lados parecem movidos pelo medo: o governo parece temer seu povo; o povo parece temer mudanças.

A França gosta de se considerar revolucionária. Mas é dirigida como uma grande corporação, com um presidente poderoso no topo. Qualquer mudança na distribuição de poder pode gerar uma crise. O Parlamento é tido como fraco para fiscalizar esse poder. Os protestos são uma das poucas formas de conseguir a atenção do governo.

Na quinta-feira, enquanto os estudantes aumentavam seus protestos nas ruas, o primeiro-ministro Dominique de Villepin, que tem ambições presidenciais e cujo índice de aprovação mergulhou nas últimas semanas, se disse "aberto ao diálogo" para "melhorar" o plano de emprego sob as restrições da lei.

Socialistas da oposição uniram forças com os que condenam a lei. François Holland, líder do partido, chamou as palavras de Villepin de superficiais.

Chirac está desgastado, admitem inclusive pessoas de seu círculo íntimo.

"Os protestos são um sintoma de uma doença maior que não vai mudar antes das eleições presidenciais", disse Alain Duhamel, importante comentador político. "A maioria dos franceses é apaixonadamente desconfiada das forças de mercado e se recusa a adotar a flexibilidade. E a maioria dos jovens está convencida de que não viverá tão bem quanto seus pais."

Os estudantes prometeram continuar sua luta até que o governo ceda.

Houve uma variedade de reclamações diante da nova lei trabalhista. "Esse contrato é como viver debaixo de uma guilhotina. Quando pode ser demitido sem razão, você não ousa criticar seu chefe ou entrar para um sindicato", disse Charlotte Bilaud, 21, estudante de ciências políticas no terceiro ano de um curso de cinco na Sorbonne.

Além dos membros dos maiores sindicatos, professores e aposentados participaram das manifestações. "Ensino para que os jovens possam ter um futuro, mas também estou aqui por mim", disse Jean Albert, 55, professor de artes dramáticas da Universidade de Nanterre. "Esses termos empregatícios são a primeira brecha no contrato social que protege os funcionários."

Se há ressonância histórica, não é com 1968, mas com 1994, quando o primeiro-ministro da época, Edouard Balladur, enfrentou os estudantes devido a uma lei de salário mínimo.

Na época, como agora, houve manifestações nas ruas em todo o país, gás lacrimogêneo, dano à propriedade, feridos e acusações de que a medida era discriminatória.

A política teve seu papel. Balladur, como Villepin de hoje, estava de olho na presidência e preferiu ceder. Enfraquecido, foi eliminado no primeiro turno das eleições de 1995.

Uma charge de Villepin nesta semana, no jornal de esquerda Liberation, mostrou-o olhando no espelho e vendo a imagem de Balladur. Deborah Weinberg

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